A construção de uma carreira costuma envolver escolhas, renúncias e períodos de dedicação intensa. Para muitas mulheres, conquistar espaço no mercado de trabalho e alcançar reconhecimento profissional faz parte de um projeto de realização pessoal.
Mas o que acontece quando as prioridades mudam e a vida fora do trabalho passa a ter outro peso? Uma declaração de Letícia Colin no programa de Angélica, no GNT, trouxe o tema à discussão ao revelar que a atriz chegou perto de abrir mão da própria profissão em busca de felicidade.
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O relato chama atenção para um dilema que atravessa diferentes trajetórias: como conciliar ambição e satisfação profissional com o desejo de ter tempo para relações, descanso e projetos pessoais? Em uma rotina marcada pela cobrança por produtividade e pela expectativa de crescimento constante, rever escolhas pode vir acompanhado de culpa, mesmo quando a mudança atende a necessidades individuais.
Para a psicóloga Daisy Cangussú, especialista em saúde mental organizacional, mulheres que alcançam posições de destaque ainda enfrentam uma expectativa social de que devem continuar avançando na carreira. Nesse cenário, a possibilidade de diminuir o ritmo ou recusar novas oportunidades pode ser interpretada como falta de ambição.
"Existe uma ideia de que, quando uma mulher conquista um espaço importante, ela precisa aproveitar todas as oportunidades e continuar crescendo. Muitas vezes, admitir que deseja diminuir o ritmo ou até abrir mão de uma posição pode gerar culpa, como se isso representasse falta de ambição.
Mas precisamos entender que realização profissional e felicidade não são necessariamente a mesma coisa", explica. Quando o trabalho deixa de ocupar o centro da vida
Gostar da profissão não significa que todas as escolhas precisem girar em torno dela. Em atividades que exigem exposição, disponibilidade constante e alto nível de dedicação — como ocorre nas carreiras artísticas, na comunicação e em cargos de liderança —, separar os compromissos profissionais da vida pessoal pode se tornar um desafio.
"É possível amar o que se faz e, ainda assim, perceber que aquela rotina está custando caro emocionalmente. O problema começa quando a pessoa não consegue mais identificar suas próprias necessidades porque está permanentemente preocupada em corresponder às expectativas do mercado, dos outros ou até às expectativas que criou para si mesma", observa Daisy.
Um dos sinais de desequilíbrio, segundo a psicóloga, aparece quando as obrigações profissionais passam a determinar toda a organização da rotina, deixando pouco espaço para os vínculos afetivos, o lazer, o descanso e outros interesses. A questão não está necessariamente na intensidade do trabalho em uma fase específica, mas na dificuldade de encontrar alternativas quando esse ritmo deixa de fazer sentido.
Por que estabelecer limites pode provocar culpa? A cobrança para conciliar diferentes papéis também pesa nessa equação.
A expectativa de que mulheres sejam bem-sucedidas profissionalmente e, ao mesmo tempo, estejam disponíveis para a família e as relações pessoais alimenta a ideia de que é preciso dar conta de tudo. Quando decidem priorizar outras áreas da vida, algumas acabam questionando as próprias escolhas.
"Existe uma romantização da mulher que dá conta de tudo. Ela trabalha, cuida da família, mantém a vida social e ainda precisa demonstrar satisfação com essa rotina.
Quando decide priorizar a si mesma, muitas vezes sente que está decepcionando alguém. É importante compreender que estabelecer limites não é fracassar profissionalmente.
É reconhecer que a vida não pode ser resumida ao desempenho no trabalho", afirma. Recusar um projeto, mudar de área ou reduzir a carga de trabalho não significa, necessariamente, abandonar uma trajetória.
Para Daisy, essas decisões podem fazer parte de uma revisão de prioridades, especialmente quando a rotina profissional deixa de estar alinhada às necessidades e aos objetivos pessoais. É possível conciliar ambição e realização pessoal?
A discussão não pressupõe que as mulheres precisem escolher entre carreira e felicidade. O desafio está em reconhecer que os objetivos profissionais podem mudar ao longo do tempo e que o sucesso não precisa seguir uma única medida.
Uma fase de maior dedicação ao trabalho pode dar lugar a outra em que a vida pessoal ganha espaço, sem que isso apague as conquistas anteriores. "Não precisamos escolher entre ter uma carreira e ser felizes.
O que precisamos é entender que o sucesso deve caber na vida que queremos construir, e não o contrário. Existem fases em que a dedicação profissional será maior, mas também precisamos ter espaço para descansar, cuidar das relações e experimentar outras formas de realização", avalia.
Para a especialista, a declaração de Letícia Colin ajuda a ampliar a conversa sobre o significado das conquistas profissionais. O reconhecimento continua sendo um objetivo legítimo, mas não precisa funcionar como único parâmetro para avaliar a própria trajetória.
"Às vezes, a maior conquista não é chegar a um lugar mais alto, mas ter liberdade para decidir se ainda queremos permanecer nele. A felicidade também precisa fazer parte da equação.
Nenhuma carreira deveria exigir que uma mulher abra mão de si mesma para provar que merece estar onde chegou", conclui Daisy.
O Globo