Estêvão Ciavatta relembra, em livro e doc, acidente que quase o deixou tetraplégico: 'Estava numa situação sinistra'

Estêvão Ciavatta relembra, em livro e doc, acidente que quase o deixou tetraplégico: 'Estava numa situação sinistra' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Andar de bicicleta pode parecer um ato banal. Para o cineasta Estêvão Ciavatta, não: “É uma aventura.” Exige concentração máxima, estar “sempre ligado” — e com a sinalização de uma plaquinha com as letras PCD (a sigla para pessoa com deficiência) na frente da bike.

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— Vai que dou uma vacilada? (risos) A pessoa precisa saber que não estou de maldade. Uma pedalada pela orla de Ipanema, sem vacilos, é uma das cenas do documentário “No passo da cobra”, disponível a partir do dia 27 na plataforma de streaming Aquarius, após sessões de pré-estreia no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo.

O longa de uma hora e meia é roteirizado e dirigido pelo próprio Estêvão, e a história foi expandida no livro de mesmo nome, com lançamento dia 16 na Livraria Argumento, no Leblon, no Rio. Nas telas e no papel, Estêvão, de 58 anos, relembra a queda de cavalo no sítio da família em Mangaratiba (RJ), em novembro de 2008, que o deixou temporariamente sem movimentos do pescoço para baixo, com riscos reais de tetraplegia pelo restante da vida.

Reflete também sobre as mudanças físicas e mentais por que passou e como a relação com a natureza (personagem-chave de obras como a série “Um pé de quê?” e o longa “Amazônia sociedade anônima”) foi aprofundada. —Minha vida virou de cabeça para baixo em todos os sentidos — conta ele, que começou a trabalhar na ideia do livro em 2012 e demorou a concluí-lo porque a organização dos efeitos de uma tragédia assim é algo a ser feito sem atropelos.

— Precisava decantar tudo o que aconteceu. Quis trazer outro aspecto dessa recuperação das minhas agruras físicas e também desenvolver a questão da saúde mental.

Como, diante de um fato tão grave, consegui segurar a minha onda? Como não me desesperei nesse momento para poder sair dessa enrascada? Cena de 'No passo da cobra'

Divulgação Amarguras existiram, claro.

Especialmente no início, quando a principal pergunta era: “Por que eu?” Mas Estêvão aprendeu a “andar no passo da cobra”; por isso, este lema dá nome ao livro e ao doc. A sabedoria popular diz que, na floresta, a cobra é um dos maiores perigos.

Apressar demais o passo não dá chance para o bicho sentir a presença e sair do caminho — pisar nele pode ser fatal. Foi uma amiga do Piauí que lhe ensinou a expressão, metáfora sobre aceitar o tempo, não acelerar o curso natural das coisas.

Inconscientemente, Estêvão já sabia disso. Só não tinha organizado as ideias a partir desse conceito e imagem.

— No livro e no filme, desenvolvo a ideia do que temos a aprender com as florestas, algo que combina muito com meu trabalho e eu tinha como algo intuitivo, um pouco espiritual, mas sem saber exatamente o porquê — diz Estêvão. — (Quando caí, pensei): “Bom, o que tenho para fazer agora?” O primeiro pensamento era usar tudo o que aprendi até então.

Estava numa situação sinistra. Tinha visto em algum lugar que não devemos mexer no corpo de pessoas naquela situação.

Então falei: “Ninguém mexe em mim.” O que tinha para fazer era ficar esperando. A ideia do passo da cobra já estava ali.

A ideia de organizar esse pensamento em imagens veio de Bruno Wainer, fundador da Downtown Filmes, na época da criação da plataforma Aquarius, um streaming voltado a “conteúdos inspiradores e positivos”. — Já conhecia o trabalho do Estêvão como diretor, era fã do programa “Um pé de quê?”, que passava no Canal Futura, e entrei em contato para a gente se conhecer — diz Bruno.

— No encontro, conversa vai, conversa vem, veio o insight para ele fazer um doc sobre o processo de cura. Aquele 10 de novembro de 2008, Estêvão lembra, era um dia comum.

Síndico do condomínio da casa de Mangaratiba, chegou cedo para resolver pepinos da função. Um dos funcionários até ofereceu carona de carro, ele declinou.

Preferia andar a cavalo, como já fizera tantas e tantas vezes — somente Popó, o animal que ele montava, estava havia dez anos na casa. 50 minutos no chão

Numa ação intempestiva, o bicho deu um pinote e arremessou Estêvão. Foram 50 minutos com a cara no chão, sangue e terra batida misturados, à espera de uma ambulância.

Esta cena de Estêvão imóvel, absolutamente presente e consciente da ausência de sensações pela compressão na medula, está ali, reencenada no documentário. —Achei que era interessante para o filme as pessoas verem como fiquei.

Foi esquisito, não podia levantar senão ia perder a continuidade da cena — lembra. — Nunca quis deixar que um trauma tomasse conta de mim.

Tanto que não vendi o sítio. Só o cavalo, porque não tinha mais o que fazer com ele.

Passo pelo lugar onde me acidentei pelo menos uma vez por mês. Faz parte da saúde não ceder para esse tipo de jogos mentais.

A venda de Popó foi dolorida, e depois ampliada pela reação de pessoas a uma declaração dele ao GLOBO, em 2010. Quase dois anos depois do acidente, disse que o “bicho tinha vida mansa, agora está ralando para burro, puxando carroça”, com a intenção de fazer uma brincadeira.

— Todo mundo ficou puto comigo. Foi horrível.

Chorei bastante. Em 2010, estava ainda muito entrevado, sem saber o que seria da minha vida, e um monte de gente falando que eu tinha que ter morrido, ficado tetraplégico.

Hoje, Estêvão tem fisioterapia três vezes por semana e diz ter recuperado 80% da velocidade e da força corporal. Faz de tudo, menos correr.

Inclusive, já subiu a Pedra da Gávea, uma meta documentada pela câmeras do filme “No passo da cobra”. Ao seu lado no momento de regeneração dos propósitos, estava Roque, filho de 13 anos que o diretor adotou com a atriz e apresentadora Regina Casé dois anos depois do acidente:

—(Quando ele chegou), falei: “Já deu certo, não tem como dar errado esta história.” Foi a realização de um amor escolhido. Quando você encontra uma criança que bate uma coisa assim, é muito profundo.

Estêvão e Regina estão juntos há 30 anos. É dela o prefácio do livro, e sua presença no filme dá conta de tocar na delicada, mas nem sempre falada, situação de quem é familiar de um acidentado:

—Ela sofreu mais no sentido de que tinha a normalidade na mão dela, e eu não. Em momento algum Regina tirou o time de campo e a admiro muito por causa disso.

“No passo da cobra” também é corajoso ao falar num tema tabu: as funções sexuais de uma pessoa com deficiência. — No primeiro ano, tinha nojo de pensar em qualquer coisa desta natureza.

Foi um processo muito árduo para mim e para Regina em alguns momentos, mas também pude rever a relação com meu corpo — diz Estêvão. Já lidando com outros projetos audiovisuais, Estêvão se prepara para lançar, no ano que vem, um documentário sobre “a maior artilheira da história do futebol”.

Marta? — Que Marta o quê, eu trago é novidade.

Você já ouviu falar na Michael Jackson? — diz ele, referindo-se a Mariléia dos Santos, estrela do esporte nos anos 1980 e 1990 que ganhou este apelido por causa da coreografia das comemorações dos gols. — Ela é um personagem interessantíssimo.

É de Valença (RJ) e começou a jogar bola quando o futebol feminino ainda era proibido. Só foi liberado nos anos 1970 (um decreto de 1941 vetou a prática no país, com revogação somente em 1979).

E é a primeira brasileira a jogar fora do Brasil, vai jogar na Itália. Tem uma carreira incrível.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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