Depois de lançar “Poemas reunidos” (2010) e em seguida a antologia “Subúrbio da galáxia” (2016), o poeta Geraldo Carneiro, também compositor e letrista, roteirista, dramaturgo, tradutor e imortal da ABL, parecia ter encerrado seu ciclo de produção poética, ao reunir e selecionar poemas retirados de nove títulos.
Eis que agora nos surpreende ao publicar “Ensaio sobre o mar”, uma coletânea de 57 textos inéditos (“soprados aqui em casa com uma certa urgência”) e três poemas-libretos, dois dos quais já encenados com sucesso em palcos da cidade. Na aula magna de Milei, herói da 'Odisseia' se torna xará do 'Meu querido zelador'
De Pero Vaz de Caminha a Getúlio: como as cartas ajudaram a construir a História política do Brasil Sobre a antologia, tive a oportunidade de destacar, no volume “O cego e o trapezista” (2022), que, entre outras características, a sua poesia revela uma rara unidade estilística, marcada justamente pela diversidade de experimentos e dicções.
No plano do significante, o ritmo aliciante e a música das palavras, provenientes de aliterações, paronomásias, assonâncias e rimas, em versos isométricos e livres, se associam, já no plano do significado, a uma certa visão do ser e das coisas centrada principalmente na (auto)ironia, no humor e em uma certa leveza lúdica, que torna a poesia a mais insustentável das artes e, por isso mesmo, talvez a mais necessária.
Pois bem, grande parte desses traços estilísticos e visão de mundo está presente neste belo “Ensaio sobre o mar”, com algumas variações não só formais (os poemas-libretos, por exemplo), mas também temáticas e afetivas. Se antes o autor escrevia embalado pelas “Folias metafísicas” (1995) e fixava suas memórias sob o signo igualmente das folias, das “Folias de aprendiz” (2022), desta feita se dá sob o crivo de elegias, elegias de um mestre, diríamos, ao se voltar liricamente para a finitude existencial (“durmo bastante, faço caminhadas,/ sigo em meu caminho rumo ao nada”) e as perdas (“tudo se perde, desde Anacreonte/ o sol se põe na linha do horizonte”).
Esse pathos distópico, “rumo ao Hades”, se acentua notadamente nos poemas que compõem as seções “manual dos 70”, “réquiem para três amigos e uma estrela” e “(co)lapsos de família”, mas também em poemas de outras partes, tais como “torpedo”(p.19) e “o último verão” (p. 76).
A palavra alegria, aliás, é citada apenas uma vez, no poema-libreto “na boca do cão”. Já as referências, de forma direta ou indireta, à dissolução física e/ ou à brevidade da vida, chegam a cerca de 22 vezes.
Essa puxada tanática tem seu contraponto nas passagens em que o poeta se refere uma dezena de vezes ao amor, definido como “um labirinto/ quem nele se perdeu/ não há mais fio que o salve/ já nada mais tem de seu”. Também como contraponto, surge, no fim do livro, o poema-libreto “a gênese”, extremamente bem-humorado e criativo.
Entre essas expressões tanáticas, amorosas e bem-humoradas permeando os poemas, encontra-se a seção “à flor da língua”, em que o autor se volta para a própria linguagem, situando-se (“minha morada é aqui entre as palavras”) e apontando, ao mesmo tempo, para as possibilidades da lírica (“o poema é feito de flor e fezes/ e cheio de silêncios ao redor”).
Não por acaso essa parte se encontra no meio físico e simbólico das seis seções, como se sustentasse, ali no centro, todas elas. Tempo como tema
Aí está. Ao afirmar que “toda poesia, no instante/em que se escreve,/ se inscreve no passado”, nos sugere que o grande tema do livro, ao lado do mar, seria, portanto, o tempo, esse “deus que parece invisível/ mas deixa a sua marca em nós”.
Por isso também pode dizer que, na sua juventude, “ainda não conhecia o mistério do tempo/ esse vento estranho que bate/ e carrega as coisas que amamos”. Ao aceitar estoicamente, no ciclo existencial da vida, que “tudo que era pré/ vira pós”, Geraldo Carneiro, como todo grande poeta, sabe, afinal, que “para guardar [no tempo] o que deixou de ser/ a não ser sob a forma de linguagem”.
É na (re)inscrição e enlace destes dois tópicos, o tempo e o mar, signos por demais caros ao repertório temático da modernidade poética, e que aqui surgem reconfigurados e realocados em clave marcadamente contemporânea, que este novo livro significa também a reafirmação do autor como uma das mais importantes vozes da sua geração e da poesia brasileira contemporânea.
Adriano Espínola é poeta, pesquisador e ensaísta, autor de “Ave nave do dia”
O Globo