Marília Mendonça, Paulo Gustavo, Ayrton Senna, Silvio Santos e Preta Gil pertencem a gerações e universos diferentes, mas suas mortes despertaram uma reação parecida em milhares de pessoas: tristeza, homenagens e a sensação de estar se despedindo de alguém que, embora nunca tenha feito parte da vida privada de quem chorava, esteve presente de alguma forma. 'Era só um cachorro': por que a morte de um pet pode provocar um luto tão intenso Entenda: Por que a maioria das perdas na gravidez acontece nos primeiros meses? Músicas, programas de televisão, filmes e entrevistas podem se misturar a lembranças pessoais e fazer com que uma personalidade passe a ocupar um espaço na memória afetiva. Por isso, a morte de alguém desconhecido pode provocar uma emoção bastante íntima. Para a psicóloga e tanatóloga Janaína Medina, o vínculo não depende necessariamente da convivência. Ele também pode ser construído pelas experiências associadas àquela figura pública. "Não precisamos ter convivido pessoalmente com alguém para que exista um vínculo emocional. Um artista pode estar associado à nossa infância, a uma música que marcou um relacionamento, aos domingos em família ou a um momento muito específico da nossa vida. Quando essa pessoa morre, não choramos apenas quem partiu. Muitas vezes, choramos também aquilo que ela representava na nossa própria história", explica. Por que a morte de um famoso pode doer? Uma música ouvida durante anos, um programa que fazia parte da rotina da família ou um atleta ligado a momentos importantes podem criar uma relação afetiva que não depende do contato direto. "Às vezes, a pessoa se pergunta: ‘Por que estou chorando se eu nem conhecia essa pessoa?’. Mas aquela emoção não surgiu do nada. A morte pode tocar em memórias, afetos e até em outras perdas. Às vezes, não estamos chorando somente aquele artista. Estamos chorando uma época da nossa vida que também parece ter ido embora com ele", pondera. É por isso que a mesma morte pode despertar lembranças completamente diferentes. Marília Mendonça pode estar ligada a uma história de amor para alguém e a uma viagem para outra pessoa. Paulo Gustavo pode remeter à televisão em família. Ayrton Senna, aos domingos diante da TV. Silvio Santos, a décadas de programas acompanhados em casa. Preta Gil, a músicas ou momentos pessoais. A pessoa é a mesma. A história despertada por ela, não. Quando a tristeza se torna coletiva Depois da morte de uma personalidade, as redes sociais costumam reunir essas diferentes lembranças. Fotografias, vídeos, músicas e entrevistas antigas voltam a circular, enquanto pessoas que nunca se conheceram compartilham experiências relacionadas àquele artista. "O luto coletivo tem uma característica muito particular: eu percebo que não estou sentindo sozinho. Cada pessoa pode estar chorando por uma razão diferente, mas existe um reconhecimento compartilhado de que alguma coisa mudou. É como se milhares de histórias individuais se encontrassem por alguns instantes em torno da mesma ausência", observa. Isso não significa que perder uma personalidade pública seja equivalente à morte de alguém próximo. Os vínculos são diferentes e, portanto, também são as experiências de luto. "Não precisamos criar uma competição de dor. O sofrimento pela morte de alguém da família tem características próprias, assim como a emoção provocada pela partida de uma figura pública. Reconhecer que uma morte nos tocou não significa dizer que todos os vínculos são iguais", ressalta. Existe um jeito certo de viver o luto? Quanto tempo é normal sofrer? Quando guardar os objetos de quem morreu? É errado voltar a sorrir pouco tempo depois? E até quando falar sobre a pessoa que partiu? Para Janaína, transformar o luto em uma sequência de etapas pode acrescentar uma cobrança a uma experiência que já é delicada. "O luto não é uma prova com etapas que você precisa cumprir para receber alta da saudade. Duas pessoas podem perder alguém no mesmo dia e viver experiências completamente diferentes. Existem situações em que buscar ajuda profissional é importante, mas sentir saudade não é uma falha que precisa ser corrigida", avalia. A reflexão também vale para as mortes que mobilizam multidões. Uma pessoa pode chorar porque determinada música acompanhou uma fase importante. Outra pode lembrar das tardes diante da televisão ou de uma época específica da infância. "O luto fala sobre ausência, mas também fala muito sobre vínculo. Se a morte de alguém que nunca conhecemos nos emociona, talvez a pergunta não deva ser ‘por que estou sofrendo por essa pessoa?’. Podemos tentar entender o que ela representava na nossa própria história", reflete. Janaína Medina fala sobre por que a morte de uma pessoa famosa pode despertar emoções tão profundas Divulgação No fim, talvez seja justamente essa a explicação para uma tristeza que pode parecer estranha à primeira vista. Quando uma figura pública morre, desaparece alguém que estava nos palcos, na televisão ou nas telas, mas permanecem as histórias particulares que cada um construiu enquanto ela esteve presente.
Por que a morte de um famoso pode doer tanto mesmo sem termos conhecido essa pessoa?
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O Globo
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