Para virar a eleição, Lula depende de exército de ‘Donas Lindus’

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Fonte da notícia: Portal Jota Portal Jota

Para virar aquela que deve ser a última eleição de sua vida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conta com aquela que foi, segundo ele mesmo, a maior aliada e principal figura de sua vida: sua mãe, Eurídice Ferreira de Melo, mais conhecida como Dona Lindu. Não estou falando de algo que remonta a uma dimensão pessoal ou espiritual na vida do presidente, que perdeu sua genitora em 1980, quando estava preso pela ditadura. Goste-se ou não de Lula, é fato que a experiência de sua mãe, abandonada pelo marido no sertão nordestino após ele migrar para São Paulo, reflete aquela de milhares de mulheres que habitam as regiões mais periféricas da nação e, na prática, são chefes de família. Dados compilados pela FGV em 2025 indicam que a cada 100 lares do país, 52 são chefiados por pessoas do sexo feminino, totalizando 41 milhões de domicílios. Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas A última rodada da Quaest, divulgada nesta quarta-feira (21/10), indica que, na pesquisa espontânea, o número de indecisos aumentou, muito provavelmente em função da performance intimidadora de Flávio Bolsonaro (PL) contra Lula durante o debate da Band. O percentual dobrou em uma semana, passando de 7% para 14%. Entre as mulheres, o percentual de Lula passou de 46% para 42%, enquanto o de Flávio caiu de 39% para 34%. Ao mesmo tempo, a parcela de indecisas aumentou de 8% para 17%. Portanto, faltando pouco mais de 72 horas para o término da apuração, há ainda espaço para que o voto seja reavaliado e, eventualmente, haja até mesmo migrações de eleitores e sobretudo eleitoras de Flávio para Lula. Isso não seria um fato inédito, considerando que o próprio Lula se beneficiou dessa migração quando derrotou, no segundo turno de 2006, seu atual vice, Geraldo Alckmin (à época no PSDB), que recebeu 2 milhões de votos a menos do que havia obtido no primeiro turno — caso único na história. Segundo o cientista político Jairo Nicolau, para que Lula conquiste seu quarto mandato, é necessário que ele roube votos do adversário, o que é perfeitamente plausível se a campanha petista conseguir persuadir aqueles que tendem à direita mas votam no bolsonarismo por falta de alternativas com o argumento de que podem perder proteção social com os cortes prometidos pelo candidato do PL. Diversas pesquisas acadêmicas sugerem que mulheres valorizam mais os serviços do Estado porque lhes ajudam a conciliar melhor o mercado de trabalho com o fardo do serviço doméstico que tradicionalmente recai sobre seus ombros. A trajetória de vida de Lula, muitos dizem, é épica, do sertão ao Planalto, passando pela liderança sindical, dramas pessoais, três derrotas consecutivas à Presidência, prisão e o retorno à ribalta embora com popularidade menor. Eurídice, nome de batismo de Dona Lindu, também é como se chama a amada de Orfeu, personagem da mitologia grega. Logo após o casamento, Eurídice foi picada por uma serpente venenosa e morreu, descendo ao submundo. Orfeu teve a chance de salvá-la, desde que, ao resgatá-la, não olhasse para trás. Como ele olhou para trás, acabou perdendo-a para sempre. As Eurídices atuais não precisam de Orfeus para resgatá-las do inferno que seria viver em um país com redução no acesso a direitos sociais. Isso vale mesmo para aquelas eleitoras com valores de direita. É legítimo querer ser empreendedor, mas, para tanto, é necessário ter uma base social para que, por exemplo, crianças não passem fome e sejam devidamente educadas, enquanto os adultos possam ter algum grau de liberdade para perseguir seus sonhos. Ou seja, um Brasil mais empreendedor não necessariamente prescinde dos direitos sociais; ao contrário, pode ser fomentado por esses direitos, que, segundo declarações desencontradas da campanha de Flávio Bolsonaro, tendem a ser cortados em um processo de desmanche do Estado e de redução dos gastos públicos. Previsões esotéricas circularam na internet, segundo as quais Flávio seria derrotado por uma mulher. No mundo frio das análises políticas, isso pode ser relacionado à diferença de gênero nas preferências eleitorais: em todo o mundo, inclusive no Brasil, a extrema direita é favorecida entre os homens, que parecem valorizar, em média, o discurso mais agressivo de uma suposta liberdade de expressão, mas que não passa de liberdade de opressão. Milhares de Donas Lindus, sendo senhoras de seus destinos, podem ignorar seus pais, maridos e companheiros, que majoritariamente se alinham à candidatura de direita — pesquisas dão vantagem de até 20% de Flávio Bolsonaro sobre Lula nesse segmento. O exército de Donas Lindus é, assim, a última esperança de Lula e de seus apoiadores para que o presidente não encerre sua carreira política derrotado por um candidato com notórias ligações com suspeitos de envolvimento com o crime organizado e milícias. Também se trata de uma luz no fim do túnel para que o pouco que resta da ordem constitucional de 1988 sobreviva. Há claramente, com o Congresso eleito à direita e a crise do Supremo Tribunal Federal (STF), uma transição para uma etapa pós-Nova República, que poderá ocorrer de modo mais suave do que se for conduzida por uma bancada liderada pelo bolsonarismo, dominando o Planalto e exercendo forte influência no Legislativo e, portanto, no próprio Judiciário. Uma reconfiguração institucional radical sob a liderança do bolsonarismo nos converterá em Orfeus desolados e amargurados sem rumo para lutar pelo mínimo de manutenção da democracia.

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