O escritor francês Philippe Jaenada, de 62 anos, vencedor do Prêmio Goncourt de 2026, admitiu ter utilizado inteligência artificial durante a produção do romance que lhe rendeu a principal distinção literária da França. Em entrevista à rádio France Inter, na quarta-feira (4), o autor contou que recorreu ao ChatGPT em três ocasiões enquanto escrevia "L'Inconnue du quai de Javel" (A desconhecida do cais de Javel, em tradução livre).
A revelação ocorreu um dia depois de receber o prêmio, e dias depois outro livro ser retirado da disputa por suspeita de autoria artificial. Vencedor do Nobel: Após mais de meio século, corpo de Miguel Ángel Asturias será trasladado para sua Guatemala natal
Autora de 81 anos: Escritora espanhola Cristina Fernández Cubas é contemplada com o Prêmio Cervantes 2026 Segundo Jaenada, uma das utilizações foi a inclusão de uma frase produzida pelo ChatGPT no romance, como uma espécie de brincadeira com os leitores.
Ele afirmou que revelou aos jurados do Goncourt qual era o trecho durante a cerimônia de premiação. — Se isso vazar, vou saber de onde veio — brincou o escritor.
O autor também contou que inseriu um trecho gerado por inteligência artificial para ironizar as respostas absurdas fornecidas pela ferramenta sobre uma questão técnica. A terceira utilização ocorreu durante pesquisas para a elaboração do livro.
Ao comentar a presença da tecnologia no mercado editorial, Jaenada defendeu que os escritores não devem ignorar o avanço da inteligência artificial, mas precisam aprender a utilizá-la sem permitir que substitua o trabalho humano. — Não acho que seja possível impedir o avanço da inteligência artificial.
Não podemos fingir que ela não existe. É preciso usá-la, reconhecer sua existência e, acima de tudo, aprender a domá-la.
Ela precisa ser útil — afirmou. Declaração reacende polêmica sobre IA no Prêmio Goncourt
A declaração ganhou repercussão por ocorrer poucas semanas depois de a Academia Goncourt retirar da lista de indicados o romance "C'était ça ou mourir", do escritor canadense-haitiano Thélyson Orélien, diante de suspeitas de que a obra teria sido produzida, em grande parte, por inteligência artificial.
O livro havia se destacado no mercado editorial francês, com mais de 35 mil exemplares vendidos, e conquistado o prêmio literário da rede de livrarias Fnac. A suspeita surgiu depois que o jornalista Samuel Fitoussi submeteu a obra à ferramenta de detecção de IA Pangram e concluiu que boa parte do texto teria sido gerada por máquinas.
Em setembro, a Academia Goncourt afirmou que análises de pesquisadores e jornalistas indicavam que o romance era, muito provavelmente, em grande parte, resultado de inteligência artificial. A entidade declarou que pretendia preservar a integridade de uma premiação dedicada à literatura escrita por seres humanos.
Orélien negou que o livro tivesse sido produzido por máquinas. Em outubro, classificou as acusações como calúnia.
Na mesma ocasião, porém, reconheceu ter cometido plágio em trabalhos anteriores. Na semana seguinte, a editora canadense Boréal anunciou o rompimento da parceria com o escritor e informou que não faria novas tiragens do romance após identificar novas evidências de uso de IA no processo de escrita.
A diferença de tratamento entre os dois casos também provocou críticas nas redes sociais. Usuários questionaram por que Jaenada foi recebido com maior tolerância após admitir o uso da tecnologia, enquanto Orélien enfrentou acusações públicas e perdeu o vínculo com sua editora.
Algumas manifestações apontaram um possível tratamento desigual relacionado à idade e à origem racial dos autores. Romance vencedor investiga assassinato ocorrido em 1949
Jaenada conquistou o Goncourt com "L'Inconnue du quai de Javel", romance de aproximadamente 530 páginas que investiga o assassinato não solucionado de Louise Cansot, uma modelo de artistas de 29 anos encontrada morta em Paris, em 1949. Conhecida no bairro de Montparnasse como a mulher dos cem retratos, Cansot posava para pintores e escultores da região.
A investigação policial da época não conseguiu identificar o responsável pelo crime. O livro revisita o caso e procura reconstruir a trajetória da vítima, questionando também a maneira como ela foi retratada pelas autoridades e pela imprensa da época.
Jaenada venceu a votação dos jurados na primeira rodada, com seis votos, contra três recebidos por Sylvain Prudhomme. O escritor já havia figurado quatro vezes entre os finalistas da premiação, mas conquistou o troféu pela primeira vez.
O Prêmio Goncourt é considerado a mais importante distinção literária da França. Embora o vencedor receba apenas um cheque simbólico de 10 euros, a conquista costuma impulsionar significativamente as vendas da obra premiada.
O Globo