A conversa ainda decide na eleição

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O que uma reunião de mulheres na sala de uma casa tem em comum com a campanha democrata no Texas, nos Estados Unidos, e com a mobilização que embalou a virada de Lula? Nos três casos, projetos políticos distintos investiram naquilo que recebe menos atenção do que as disputas nas redes: conversar com as pessoas sobre o que as preocupa e convidá-las a participar.

A vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos renova o interesse por esse trabalho. O custo de vida e o desgaste de Donald Trump pesaram na retomada das maiorias na Câmara e no Senado.

Mas como o descontentamento vira disposição para votar, convencer um vizinho ou dedicar horas a uma campanha? No Texas, onde os democratas não venciam uma disputa estadual desde 1994, James Talarico conquistou uma vaga no Senado com um plano explícito: bater de porta em porta, reunir vizinhos, falar com parentes e colegas e ajudar eleitores a planejar o voto.

A internet entrava para espalhar a mensagem, não para substituir a conversa. Importa quem procura o eleitor, que vínculo tem com ele e se há espaço para responder.

Marshall Ganz, que estuda organização política em Harvard, deu nome a esse mecanismo. O que transforma recursos dispersos em ação coletiva são relações, compromissos e um objetivo compartilhado.

O indivíduo deixa de ser destinatário de uma mensagem quando assume responsabilidade pelo que quer mudar. É a diferença entre ser alcançado e se engajar.

No Brasil, Lula chegou ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro. Na reta final, atos de rua, iniciativas espalhadas de apoiadores e mobilização digital ganharam corpo, e integrantes da própria campanha creditaram parte da virada a movimentos fora do comando central.

Pesaram também a rejeição ao adversário e as mudanças de estratégia. Ainda assim, a adesão foi maior do que a estrutura montada para pedir votos.

À direita, o Projeto Alicerça Brasil (PAB), criado pelo PL Mulher sob a presidência de Michelle Bolsonaro, mostra a mesma organização em grupos menores: reuniões em casas, idealmente com 12 mulheres, com leitura, debate e incentivo à formação de novos grupos. Quem recebe as demais, conduz a conversa ou organiza uma atividade assume responsabilidades, e a política entra na rotina.

Criar vínculo, porém, não é o mesmo que ouvir. O PAB tem orientação conservadora explícita, textos preparados e coordenação partidária, e a convivência serve também à formação ideológica.

Comprova o investimento em organização presencial, durante o qual o PL Mulher filiou mais de 72 mil mulheres, mas não demonstra que as participantes influenciem a agenda do partido. Ouvir de fato exige rever uma prioridade ou uma proposta diante do que o outro traz.

Não é concordar com tudo, e sim levar a resposta a sério, mesmo quando ela contraria o roteiro. O meio não define essa qualidade.

Uma reunião presencial pode apenas transmitir ordens, e uma conversa on-line pode revelar o que o partido ignorava. O erro está em tratar o eleitor apenas como quem recebe uma mensagem.

Ele interpreta, compara com a própria vida, conversa com outros e pode aderir ou se afastar. A rua não tem voz única.

Tem conflitos, necessidades e expectativas que precisam encontrar lugar na política. O teste da escuta vem depois: o que uma campanha aceita mudar a partir do que ouviu e o que um mandato entrega se continuar escutando?

*Helen Braun, jornalista, é mestre em comunicação pela PUC-RS e analista política

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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