Lá fora está chovendo. Uma chuva que chove sem parar desde o fim de agosto.
Por favor, chuva chinfrim, não molhe mais o Rio assim. Pense nos vendedores de mate e de biscoito, do Leme ao Pontal.
Nos que dependem do sol para o aluguel de seus guarda-sóis. No próprio Sol, que tem de se pôr, clandestinamente, atrás do Dois Irmãos, carente da plateia e do aplauso do Arpoador.
Sem o mesmo fôlego dos tempos do Velho Testamento, Deus diluiu o dilúvio e vem despejando ininterruptamente suas águas sobre a Guanabara, talvez para castigar nossos pensamentos maus, nossas escolhas ruins. Sim, continuamos votando em milicianos.
Jogando lixo no chão. Entupindo sarjetas e bueiros.
Ainda não começamos a substituir as amendoeiras por canafístulas, grumixamas, sibipirunas (Cenostigma pluviosum!), manacás-da-serra, quaresmeiras e ipês de todas as qualidades, para que as calçadas deixem de rachar e se cobrir de frutos insossos e passem a se salpicar de amarelo, de branco, de roxo.
As síndicas seguem não fazendo obras emergenciais, os síndicos prosseguem demolindo marquises — onde vamos nos abrigar dos temporais, do reboco que cai? A tarde nem está tão fria e chove lá fora — escrevo durante o feriado de Finados e sei que você, chuva, faz parte do pacote.
Mas tenha dó dos turistas que voltarão para casa sem ter conseguido, lá do alto do Corcovado, compreender de onde vem a expressão Cidade Maravilhosa. Apiede-se dos ambulantes, dos perambulantes, dos que sustentam a família ou o vício com as balas, chicletes e amendoins deixados sobre os retrovisores nos sinais.
Das moças do job em Copacabana, dos entregadores de iFood, das pessoas e dos bichos em situação de rua, de praça, de esquina, de jardim. Pode ser que a mata cante em outro tom: deixa chover, deixa a chuva molhar; acho que a chuva ajuda a gente a se ver, a se lavar.
Mas olha, está chovendo na roseira, na Maré, na Lagoa, no Rio Comprido, no Riachuelo, na Ribeira. Mais um pouco e, como se fôssemos curitibanos, privados de serotonina, de betaendorfinas e de vitamina D, deixaremos de nos falar no elevador e passaremos a nos cumprimentar só com um quarto de beijo.
Como em Belém do Pará, marcaremos os compromissos para antes ou depois do toró. Nos converteremos em chatos de galocha, reféns dos boletins da meteorologia.
A um passo de entender o que Drummond quis dizer nos versos em que descobre que a chuva era maria: chuvadeira, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha. Cada pingo ensopando sábado e domingo — e a aguaceira de segunda a sexta-feira.
Cariocas não gostam de dias nublados, e só escaparam quatro em setembro e outro tanto em outubro, sem nimbostratus, estratocúmulos e outros monstrengos nos sobrevoando. Vem aí dezembro, com os temporais “atípicos” de todo ano, e então o Rio se verá sob os pés-d’água que chegam para saudar Iemanjá e só vão embora com as águas de março.
Se não estiar, os fluminenses estarão em via de se tornar pluvienses. Quanto aos cariocas — habitantes das ocas dos carijós ou dos acaris — basta trocar a oca pelo y de água e rio para que se transformem nos ainda mais empapados cariys.
Até o outono o céu estava tão lindo. Já é primavera — e vai chuva! Em vez do Setembro Amarelo, tivemos um setembro molhado; no lugar do Outubro Rosa, um outubro encharcado.
Será que novembro vai conseguir ser, enfim, azul?
O Globo