Dois anos depois de entregarem a Donald Trump mais um turbulento mandato presidencial, os eleitores dos EUA voltam às urnas na terça-feira, em uma votação que definirá os dois últimos anos do republicano na Casa Branca e também o que virá depois. Estarão em jogo a Câmara dos Deputados, um terço do Senado, além de milhares de cargos em governos estaduais.
Sob impacto da impopularidade crônica do presidente, as pesquisas apontam que os democratas podem, no melhor dos cenários, dominar todo o Congresso, seguindo uma tendência histórica: desde 1936, o partido que estava no poder perdeu espaço, ou o controle de ao menos uma das Casas, em 20 das 22 ocasiões.
A lista inclui o próprio Trump, que em 2018, em seu primeiro mandato, sofreu uma derrota que abriu caminho para dois processos de impeachment. A dias das eleições: Governo Trump abre investigação criminal sobre supostos eleitores estrangeiros na Califórnia
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Na pauta de temas eleitorais, a economia manteve a primazia. Trump disse recentemente que os EUA “estão mais ricos agora” e que “não há inflação”, ignorando os números oficiais e as queixas dos cidadãos com o custo de vida.
O avanço das big techs sobre a política, traduzido nos cada vez mais impopulares data centers, impulsionou campanhas do Oregon até a Pensilvânia, e a oposição à guerra no Irã fez com que até aliados “escondessem” o presidente. Em uma provável repetição das bravatas de 2020, Trump dá sinais de que não reconhecerá outro resultado que não seja a vitória dos governistas, abrindo espaço para uma nova crise institucional.
O GLOBO explica alguns dos temas nas urnas na terça-feira, assim como cenários depois que as cédulas forem contabilizadas. Quais cargos estão em jogo?
A cereja do bolo é a disputa pelo controle do Congresso. Na Câmara dos Deputados, todas as 435 cadeiras estão em disputa.
No Senado, são 35 assentos do total de 100. No sistema bipartidário dos EUA, a divisão não depende de acertos com siglas menores, e mesmo os candidatos que concorrem como independentes — o mais notável deles é o senador Bernie Sanders — têm alianças antigas com democratas ou republicanos.
Além de Washington, 36 estados escolherão governadores e em 46 estados haverá disputas para Assembleias Legislativas e Senados locais, com mais de 6.100 cadeiras em jogo. Os eleitores ainda serão consultados, em 39 estados, sobre 146 projetos de lei, propostas de emendas constitucionais, referendos e iniciativas populares.
O que dizem as pesquisas? Entre os principais estrategistas, há um consenso: os democratas têm caminho aberto.
A dúvida é o tamanho da vitória. Projeções de portais como Decision Desk, Sabato Crystal Ball e Cook Political Report apontam que a oposição vai controlar a Câmara dos Deputados a partir de 2027, e tem chances de assumir o Senado, mas sem a maioria necessária para, por exemplo, aprovar o impeachment do presidente.
Uma projeção do portal Real Clear Polling mostra, ainda, que os democratas podem conquistar entre três a cinco governos estaduais hoje sob comando do Partido Republicano. Pesquisas sobre as eleições de meio de mandato nos EUA
Editoria de Arte Quais foram os principais temas da campanha?
Ao contrário da prosperidade prometida por Trump antes de assumir o segundo mandato, a economia não é, nem de longe, um mar de rosas. Pesquisas recentes mostram que mais de 60% dos americanos condenam as políticas econômicas e reclamam do elevado custo de vida.
A guerra contra o Irã, que ajudou a turbinar a inflação, tampouco é popular (tem desaprovação média de 63%), e tem sido abafada por candidatos republicanos. Na esteira das insatisfações, nomes democratas apostaram na longa lista de pontos frágeis do presidente, que inclui ainda o avanço dos data centers pelos EUA, a violência contra imigrantes e as ameaças recorrentes às instituições.
Críticas internacionais: Pesquisa mostra erosão da imagem global de Donald Trump e queda da confiança nos EUA; rejeição no Brasil aumenta Se Trump perder na terça-feira, o que pode acontecer em Washington?
Hoje, mesmo com maioria nas duas Casas, Trump tem dificuldades com seus planos — vide o “Projeto Grande e Bonito”, que aumentou o volume de gastos e da dívida federal — e agora terá que lidar com a oposição se quiser aprovar algo. Mas o que mais preocupa o entorno do presidente é a disposição dos democratas para lançar investigações sobre Trump em temas sensíveis, como a amizade dele com o financista Jeffrey Epstein, acusado de comandar uma rede de tráfico humano e morto em 2019.
Deputados e senadores prometeram aprovar medidas para reduzir seus poderes para lançar operações militares e querem responsabilizar membros do governo, como o secretário de Defesa, Pete Hegseth, cujo impeachment tramita no Legislativo. Indicações para cargos de alto escalão, de chefias de agências a embaixadas, também poderão ser bloqueadas ou retardadas caso os democratas conquistem o Senado.
O Sr. Trump e o Sr.
Epstein apareceram em Mar-a-Lago, na Flórida, durante uma reportagem da NBC em 1992 Reprodução
Uma derrota mudaria o rumo da guerra no Irã ou das relações com Israel? O Congresso já aprovou medidas para brecar o gatilho de Trump, mas, se controlarem o Legislativo, os democratas teriam uma arma mais eficaz: o controle do dinheiro.
Analistas dizem que projetos de financiamento extra para a guerra no Irã e um orçamento recorde para o Pentágono, de US$ 1,5 trilhão, correm o risco de naufragar. O presidente tem sinalizado a intenção de retomar os bombardeios depois das eleições, mas as recentes idas e vindas põem em xeque suas palavras.
Sem dinheiro e com os arsenais depauperados, ele se veria obrigado a negociar uma saída para o conflito. Já o apoio militar a Israel, criticado por parte dos democratas, é um tema mais complexo, devido ao apoio bipartidário ao país, não importa o governo.
Por outro lado, a oposição poderia autorizar novos pacotes de ajuda militar para a Ucrânia e novas sanções contra a Rússia. Hoje, o apoio a Kiev é majoritário até entre os republicanos.
Um Congresso democrata pode reverter o tarifaço trumpista? A Constituição dá ao Legislativo o poder de aplicar tarifas, mas, ao longo das décadas, o Executivo ganhou algumas ferramentas.
Mesmo que um Congresso democrata derrubasse o tarifaço, seguindo o caminho da Suprema Corte, mecanismos como a Seção 301 da Lei do Comércio — aplicada contra o Brasil, a União Europeia e outros países — ainda estariam à disposição. Em último caso, o presidente poderia barrar ações antitarifas, e não há votos suficientes para derrubar o veto.
De acordo com um compilado de pesquisas feito pelo Cato Institute, 75% dos eleitores dizem que as tarifas são importantes na hora de definir o voto, e uma sondagem do New York Times, publicada há 10 dias, mostra que 60% dos americanos aptos a votar rejeitam a forma como Trump trata o tema.
Impacto nas contas: Com novo tarifaço de Trump, exportações para os EUA caem quase 10% no ano até agosto Em 2018, no primeiro mandato, Trump perdeu a Câmara.
O que veio depois? Meses depois de a nova legislatura assumir, foi aberto o primeiro processo de impeachment contra Donald Trump, ligado à pressão sobre o governo da Ucrânia para encontrar “sujeiras” contra então ex-vice-presidente Joe Biden, e o filho dele, Hunter.
O processo avançou pela disputa presidencial de 2020, mas Trump foi salvo pelo Senado, comandado pelos republicanos. Em janeiro de 2021, o presidente voltou ao banco dos réus pela incitação a seus apoiadores na invasão do Capitólio, quando se recusou a aceitar a derrota para Biden.
Mais uma vez, o número mínimo de senadores favoráveis — 67, ou dois terços do Senado — não foi atingido, mesmo com votos pela destituição entre os republicanos. Se os democratas vencerem, Trump pode sofrer novo impeachment?
Há uma divisão sobre o tema. A “velha guarda” democrata é mais cautelosa, apontando para a falta de votos suficientes no Senado, mas a ala progressista considera que há motivos de sobra para o afastamento.
Segundo analistas, o cenário mais provável é que os esforços sejam concentrados na abertura de frentes de investigação contra o governo, desde a guerra no Irã até a proximidade entre Trump e os bilionários das big techs. Nas semanas finais de campanha, o presidente disse a apoiadores que, se os democratas vencerem, ele sofrerá novo processo de impeachment.
Trump vai reconhecer o resultado? Essa é a grande pergunta da eleição.
Na semana passada, o presidente disse a jornalistas que, sim, reconheceria, desde que o processo “fosse honesto”. Em outra frente, ofereceu uma recompensa de US$ 1 milhão para quem fornecesse informações que levassem a uma condenação por fraude eleitoral.
Até o momento, nada foi encontrado e, mesmo entre os aliados do republicano, há dúvidas se ele aceitará uma derrota. Precedentes não faltam.
Em 2020, ele não aceitou a vitória de Joe Biden e buscou, até de formas pouco honestas, moldar o resultado ao seu gosto. No ano seguinte, incitou seus apoiadores a invadir o Capitólio no dia da certificação dos resultados.
E há um certo toque brasileiro nas incertezas do atual pleito: Trump questionou, mais de uma vez, a lisura da votação que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva — dentro dos EUA há quem leia tal discurso como uma forma de respaldar a recusa diante de uma eventual vitória democrata. Quais mensagens a eleição desta terça pode mandar para a disputa presidencial de 2028?
Pelo lado republicano, ainda é difícil de escapar da sombra de Trump, como ficou evidente nas primárias, quando seus críticos, mesmo os mais experientes, foram derrotados por candidatos ligados ao trumpismo (e, por vezes, com um impulso milionário nas campanhas). Na prática, o Partido Republicano escolherá quem receber a bênção de Trump.
Do lado democrata, o cenário é mais complexo: o crescimento dos Socialistas Democratas (DSA) encurralou a “velha guarda” e mostrou uma disposição maior dos eleitores para abraçarem ideias consideradas progressistas nos EUA, como o acesso universal à Saúde. Vitórias de lideranças do DSA, como as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez, são esperadas, mas triunfos de novos nomes, como os postulantes ao Senado James Talarico (Texas) e Abdul El-Sayed (Michigan) mexeriam em uma corrida já acirrada à vaga na eleição presidencial.
O Globo