O médico que conduziu a execução frustrada de Christa Pike rompeu finalmente seu silêncio neste sábado (31) e diz esperar que outra tentativa seja feita, já que "não tem dúvidas" de que detentos como ela merecem a morte. À revista New York Magazine, Mark Fowler, de 69 anos, ainda justificou que a execução de Pike traria "um sentimento de justiça" à mãe de sua vítima — Colleen Slemmer, torturada e assassinada aos 19 anos por Christa Pike em 1995 — que também estava presente no momento da injeção letal falha.
O profissional contou que sua certeza de que os detentos que ajudou a executar mereciam suas mortes vem do hábito de estudar seus casos. — Geralmente pesquiso seus históricos e procuro o que eles fizeram e assim por diante — revelou, sem arrependimentos.
Eu lamento apenas que eu tenha que lidar com Christa Pike, que espancou outra mulher até a morte. Ela é o que ela é.
Fowler, que também dá aulas de estudos bíblicos em sua igreja evangélica, acredita que o Estado tem direito à impor a pena de morte em casos brutais. — [O sexto mandamento] 'não matarás' não tem nenhuma aplicação para ações legítimas do governo em termos de executar assassinos, nem tem nenhuma aplicação [em casos] de legítima defesa, e não tem nenhuma aplicação moral em uma guerra.
Quando o Estado diz 'acreditamos que há algumas coisas tão hediondas que devemos efetuar a punição máxima', acredito que é legítimo — justificou à publicação. Ele também disse se ver como alguém que faz o "serviço sujo".
— Como você pode dizer moralmente: 'sou a favor da pena de morte contanto que outra pessoa faça o trabalho'? Eu faço as coisas que ninguém quer fazer — destacou. Médico está ligado a casos de execuções falhas consideradas "tortura"
Nos últimos anos, o nome de Fowler não ficou associado apenas às suas visões políticas conservadoras — a favor do ICE (a polícia de imigração americana) ou de Israel — ou às execuções de que participou, mas principalmente àquelas que deram errado como a de Pike. Em 2025, ele deu a injeção letal de Byron Black com seu desfibrilador cardíaco ligado, um caso denunciado pelos advogados do criminoso como "tortura" já que o método teria causado dor e prolongado sua agonia; ele levou cerca de 10 minutos para morrer, segundo registros oficiais.
Em maio de 2026, Fowler também esteve envolvido na execução frustrada de Tony Carruthers. Depois que paramédicos falharam em insertar o acesso intravenoso para a administração das drogas letais, o médico tentou realizar um procedimento "semi-cirúrgico" para instalar um em uma veia próxima à clavícula, que levaria o veneno direto ao coração.
O advogado do detento relatou ter visto "muito sangue" e Fowler interrompeu o procedimento, segundo ele, não porque não conseguiria fazê-lo, mas porque não havia anestésicos adequados e estava se tornando doloroso demais para Carruthers. — Sem falar no fato de que havia advogados ali anotando e rabiscando furiosamente — alfinetou.
Ele admite que houve erros no caso de Pike As execuções no Tennessee seguem um protocolo em que diferentes pessoas realizam cada etapa do processo, para diluir responsabilidades sobre a morte do detento.
No caso de Pike, paramédicos instalaram o acesso intravenoso e Fowler só entrou em cena depois, para injetar efetivamente a droga pentobarbital. Ela recebeu duas injeções, mas o médico foi chamado de volta só 45 minutos depois.
Ele esperava voltar à sala cerca de 10 minutos após a injeção, para confirmar o óbito, mas foi alertado de que Christa Pike estava respirando com dificuldade na maca. Para Fowler, neste momento, ficou claro que algo aconteceu com o acesso.
— Estava levando a droga para o tecido subcutâneo —, explicou, em vez da corrente sanguínea da condenada. O médico disse ter se preocupado, neste momento, que ela sobrevivesse com dano cerebral irreversível.
— Ela ficará em um estado vegetativo permamente com uma conta de gastos médicos de um quarto de milhão de dólares — confessou ter pensado. Por isso, Fowler acredita que as execuções precisam mudar.
— As pessoas que colocam os acessos intravenosos devem posteriormente ficar observando o que está acontecendo [com os condenados] enquanto a droga entra. [Pike] reclamou de dor no seu braço.
Eles deveriam ter parado e reavaliado, mas eles não fizeram isso — criticou. 'Não sou cruel'
Ele ainda defende que execuções sejam retomadas com um coquetel de três drogas que inclui cloreto de potássio, proibido em alguns estados americanos por ser "doloroso demais". Para Mark, a combinação é mais eficiente.
Apesar disso, ele não se vê como um homem cruel e rejeita as críticas que recebeu pela condução das execuções. — Gostaria de ser lembrado como um homem da Renascença.
Alguém que tem um apreço avançado pela vida. Não sou uma pessoa má, perversa.
Não sou inescrupuloso. Não sou insensível ou incompetente.
Não estou envergonhado. As pessoas disseram coisas ruins sobre Jesus, não disseram? — comparou.
Fowler insiste que não vai abandonar as execuções porque acredita estar correto no que faz. — As pessoas dizem 'por que você não deixa isso pra lá?' e a resposta é que isso é exatamento o que os que advogam contra a pena de morte querem.
Eles acharam que podiam me humilhar e eu me afastaria disso, porque eu prometo a vocês, não há ninguém mais no Tennessee que vai se candidatar a fazer isso agora, e a resposta é: eu não posso ser empurrado de um caminho que acho certo. Eu me recuso a ceder — garantiu.
O Globo