O resultado das eleições de domingo (4) para o governo do Rio de Janeiro deve ser interpretado menos como um fenômeno ligado à figura de Douglas Ruas (PL) e mais como uma manifestação da história e estrutura política do Estado, segundo Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Para o cientista político e historiador, a votação expressiva em Ruas no 1º turno, que levou 49,27% dos votos contra 42,76% de Eduardo Paes (PSD), foi impulsionada pela associação com a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência e pela força da rede política do partido no Estado.
“O eleitor votou no conjunto da chapa, razão pela qual me parece precipitado falar em ‘fenômeno Ruas’. Houve uma transferência de votos de Flávio, reforçada pela rede de prefeitos do PL na Baixada e em São Gonçalo, município governado pelo pai do candidato”, afirma.
Capitão Nelson, pai de Ruas, é atual prefeito do município de São Gonçalo. Na avaliação de Lynch, o Rio tem uma característica histórica que ajuda a explicar por que eleições estaduais são frequentemente influenciadas pela disputa nacional.
Segundo ele, o Estado nunca consolidou uma identidade política própria comparável à de outras unidades da federação. “O Rio de Janeiro é um ''estado Frankenstein'', criado pela ditadura militar mediante a fusão de uma Guanabara que era cidade sem interior com um antigo Estado do Rio que era interior sem capital.
Reuniram-se duas sociedades políticas que se olhavam com desconfiança desde o Império. Dessa história resultou uma unidade federativa sem elite política consolidada, sem tradição compartilhada de governo próprio e sem um sentimento de pertencimento fluminense capaz de mediar a influência da política nacional”, diz Lynch.
Esse histórico, diz ele, faz com que o eleitor fluminense frequentemente vote em sintonia com a disputa presidencial, seja para apoiar ou rejeitar o governo federal de turno. O padrão teria aparecido em diferentes momentos da história, de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas a Wilson Witzel alinhado a Jair Bolsonaro em 2018.
Lynch afirma que a campanha de Ruas também conseguiu explorar uma divisão territorial antiga entre a capital e as demais regiões do Estado, ao apresentar o discurso do “Rio Real” em contraposição ao “Rio das novelas”, associado à Zona Sul carioca. “O resultado mostra essa divisão.
Paes venceu na capital por 410 mil votos e perdeu no Estado por 564 mil, o que significa que os demais municípios deram a Ruas uma vantagem próxima de um milhão de votos. Ruas venceu em 79 dos 92 municípios, chegou a 60% em São Gonçalo e teve percentuais ainda maiores na Região dos Lagos, além de avançar na Zona Oeste da capital, cujo comportamento eleitoral se aproximou do da Baixada”, afirma.
Para o pesquisador, esse cenário também explica por que a boa avaliação de Eduardo Paes (PSD) como prefeito do Rio não foi suficiente para garantir uma vitória estadual. “O eleitor da Baixada ou do interior não reconhecia em Paes o seu prefeito, mas o prefeito dos cariocas”, diz.
A investigação envolvendo Ruas às vésperas do primeiro turno também teria tido impacto limitado na avaliação do cientista político. O Ministério Público do Rio (MPRJ) abriu investigação, em sigilo no Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), a partir de denúncia sobre o crescimento patrimonial de empresas ligadas ao candidato.
“Quando o voto é determinado principalmente pela identificação nacional, as acusações contra o candidato local têm menor capacidade de alterá-lo. No eleitorado bolsonarista, uma denúncia do Ministério Público apresentada a cinco dias da eleição foi interpretada como perseguição do sistema”, avalia Lynch.
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