O mundo corporativo e governamental enfrenta uma grande enxurrada de incidentes de segurança cibernética impulsionada pelo avanço da inteligência artificial (IA). Segundo a revista The Economist, analistas da área já batizaram o período recente de "Outubro Sombrio" (outro nome é "The Hackening"), disparando entre empresas uma corrida contra o tempo para reforçar suas defesas digitais.
Em outubro, a IA foi utilizada para descobrir uma vulnerabilidade crítica no PHP, linguagem de programação utilizada em cerca de 70% dos sites do mundo. A falha foi revelada antes que as correções de segurança pudessem ser distribuídas, obrigando inúmeros portais, incluindo serviços governamentais brasileiros, a saírem do ar temporariamente para reparos.
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Na sequência, criminosos roubaram cerca de US$ 6,3 bilhões da corretora de criptomoedas Binance. Em novembro, os incidentes continuaram.
Na Europa, um ataque cibernético alterou remotamente as temperaturas dos congeladores de redes de supermercados, destruindo milhões de euros em alimentos. Já banco francês Crédit Mutuel Arkéa teve fundos desviados por meio de uma rajada rápida de transações fraudulentas.
Segundo a Economist, estruturas governamentais também viraram alvos constantes. Aplicativos de alerta de ataques aéreos foram hackeados tanto na Ucrânia quanto na Rússia.
Além disso, cibercriminosos violaram bases de dados do registro populacional da Dinamarca, do Departamento de Segurança Interna dos EUA e do FBI, o que levou o governo do Japão a declarar estado de emergência em cibersegurança. A publicação lembra que essa ameaça já vinha se acumulando devido à expansão do trabalho remoto, ao aumento de dispositivos conectados à internet e à popularização das criptomoedas.
No entanto, a IA surgiu como um catalisador para esse cenário. Em abril, a empresa Anthropic decidiu não liberar publicamente seu modelo Mythos, restringindo seu acesso a um grupo seleto de parceiros financeiros e de tecnologia para que pudessem fechar brechas defensivas — iniciativa similar à adotada posteriormente pela rival OpenAI.
A Economist, porém, apontou para os "perigos" dos modelos de código aberto, que podem ser baixados por qualquer pessoa na internet. Segundo, a publicação, ele estão evoluindo rapidamente, permitindo que até hackers inexperientes descubram falhas com facilidade.
Perda de produtos: Hackers invadem supermercados europeus e elevam temperatura de freezers a 50ºC Sistemas de IA reduziram drasticamente o tempo entre a descoberta de uma vulnerabilidade e a criação de um código de ataque (exploit): o processo que antes levava dias ou semanas agora é concluído em poucas horas, deixando os profissionais de TI com uma janela quase nula para aplicar correções.
A tecnologia também tem potencializado golpes de engenharia social, automatizando o envio de e-mails de phishing e permitindo a clonagem de voz de executivos e funcionários. Para complicar a situação das companhias, o uso não autorizado de ferramentas de IA pelos próprios colaboradores no dia a dia (shadow AI) transformou as empresas em "alvos fáceis".
Proteção corporativa Diante do ataque em escala, a corrida corporativa por proteção se intensificou.
Segundo a Economist, grandes instituições financeiras e corporações já estão redirecionando até um quinto (20%) de seus recursos de TI exclusivamente para rastrear e corrigir falhas de segurança Roubo do século': especialistas afastam uso de IA e explicam fator humano em desvio recorde de R$ 34 bi na Binance
Além disso, as empresas vêm implantando modelos de IA para varrer redes em busca de atividades suspeitas, neutralizar ameaças em tempo real e interceptar fraudes. O banco de investimento Goldman Sachs, por exemplo, ampliou de forma expressiva a fatia de seu orçamento de IA destinada à cibersegurança.
A reportagem explica que essa nova dinâmica impõe desafios operacionais inéditos para a gestão executiva. Muitas firmas começaram a reservar cotas computacionais para emergências e a estabelecer processos de aprovação orçamentária expressa para responder a incidentes.
Porém, barreiras históricas continuam a minar os esforços de defesa. A primeira é o elo humano da cadeia: o roubo bilionário na Binance teria sido iniciado quando um funcionário baixou um arquivo malicioso em seu computador corporativo ao participar de uma falsa entrevista de emprego organizada por hackers.
Mercado Bitcoin tem perdas de US$ 40 milhões com ataque hacker, estima empresa de segurança A segunda barreira é a tecnologia usada em fábricas e instalações industriais, que rodam com softwares antigos, negligenciados há muito tempo, mas que agora podem ser facilmente quebrados e manipulados por IA.
Por fim, a reportagem destaca a vulnerabilidade das pequenas e médias empresas na cadeia de suprimentos. Sem orçamento para investir em defesas robustas, esses fornecedores tornam-se portas de entrada para invasões a grandes corporações, como ocorreu no ataque à plataforma Polymarket — ele ocorreu após uma falha em uma ferramenta de monitoramento terceirizada chamada DebugBear.
Embora grandes provedores de serviços em nuvem, como Amazon e Cloudflare, tenham começado a implantar defesas automáticas para proteger clientes menores, a Economist afirma que os atacantes ganharam temporariamente a vantagem em relação a sistemas de defesa.
O Globo