O delegado Marcelo Martins, da Polícia Civil do Amazonas, responsável pelo inquérito que investiga a produção e a divulgação de um vídeo envolvendo a filha do governador eleito do Amazonas, Omar Aziz (PSD), afirmou nesta sexta-feira (6 de novembro) que já considera comprovada a ocorrência de crime e que as investigações agora procuram estabelecer o grau de participação de cada pessoa envolvida.
“O crime já está comprovado, é um crime que é de comprovação evidente. Apenas agora estamos determinando o nível em que cada autor do crime cometeu esse fato”.
A afirmação foi feita durante entrevista ao jornalista Charles Fernandes, no programa “Manhã de Notícias”, da Rede Tiradentes, após o cumprimento de um mandado de busca e apreensão na residência da empresária e ex-candidata ao Governo do Amazonas Maria do Carmo Seffair (PL), em Manaus.
Na entrevista, Martins foi além da avaliação sobre a existência do crime. Classificou o episódio como um fato gravíssimo e afirmou ter ficado estarrecido ao assistir ao vídeo que deu origem à investigação.
“Porque quem assiste o vídeo percebe o nível de perversidade sexual da pessoa que produziu aquela peça audiovisual deletéria”, afirmou. O delegado disse que, inicialmente, acompanhava o caso pelas notícias divulgadas na imprensa e não tinha conhecimento da dimensão do conteúdo.
“Eu fiquei estarrecido quando assisti. No momento inicial, quando acompanhava de longe essa investigação pela imprensa, eu não tinha noção do nível de perversidade.
Só quando eu vi o vídeo é que eu pude perceber o nível de perversidade sexual” As afirmações representam a avaliação da autoridade policial responsável pelo inquérito.
A identificação dos responsáveis e a eventual responsabilização criminal dependem da conclusão das investigações e das etapas posteriores do processo judicial. Leia mais
Polícia Civil cumpre mandado de busca e apreensão na casa de Maria do Carmo Delegado promete novas revelações
Outro ponto da entrevista foi a sinalização de que a Polícia Civil poderá apresentar novas informações sobre as circunstâncias em que o vídeo foi produzido. Martins não antecipou quais elementos estão sendo investigados, mas afirmou que o aprofundamento das apurações permitirá compreender melhor o conteúdo e as circunstâncias de sua elaboração.
“As investigações vão revelar muita coisa ainda, muita coisa importante que vai fazer muito sentido para quem assiste esse vídeo, vai entender por que esse vídeo foi feito dessa forma”, afirmou. O delegado também procurou afastar qualquer interpretação de que o empenho da Polícia Civil esteja relacionado à identidade ou à posição política das pessoas envolvidas.
Segundo ele, a atuação policial decorre da gravidade dos fatos investigados. A investigação teve origem na divulgação de um vídeo durante o segundo turno das eleições estaduais, em outubro, que associava acusações relacionadas à chamada CPI da pedofilia a imagens de Omar Aziz ao lado de sua filha, ainda criança.
O material foi distribuído durante a campanha eleitoral e motivou uma denúncia apresentada por Aziz e sua família. A Polícia Civil investiga possíveis crimes contra criança e adolescente, além de procurar identificar quem produziu, financiou e distribuiu o conteúdo.
Leia mais Com receio de ser presa, Maria do Carmo pede novo habeas corpus
Operação encontrou resistência na casa de Do Carmo Na mesma entrevista a Fernandes, Martins relatou os detalhes da operação realizada na manhã desta sexta-feira na residência de Maria do Carmo, localizada à rua Acre, no bairro Vieiralves, zona centro-sul de Manaus.
Segundo o delegado, os policiais chegaram cedo ao endereço para cumprir o mandado judicial de busca e apreensão, mas encontraram dificuldades para entrar no imóvel. “Nós chegamos aqui bem cedo, como manda o protocolo, batemos na porta, encontramos alguma resistência no momento de entrar, houve uma certa demora”, relatou.
Martins afirmou que, depois da entrada dos policiais, os advogados da empresária chegaram ao local e ocorreram discussões sobre o cumprimento da ordem. “Foi uma diligência difícil, com uma série de tentativas de obstaculizar o cumprimento da ordem judicial”, disse.
Apesar dos entraves, o delegado afirmou que a determinação judicial foi executada integralmente. Os policiais realizaram buscas em todos os cômodos da residência, examinaram gavetas, objetos pessoais e abriram um cofre pertencente à ex-candidata.
Leia mais TJ-AM derruba liminar e libera busca e apreensão contra Maria do Carmo
Celular e computador apreendidos Ao final da operação, a Polícia Civil apreendeu dois equipamentos eletrônicos de uso pessoal de Do Carmo: um aparelho celular e um computador.
Segundo Marcelo Martins, ambos serão submetidos à perícia para extração e análise de dados. O objetivo é identificar eventuais informações que possam esclarecer a participação da empresária na produção ou na divulgação do vídeo investigado.
O delegado explicou que os dados obtidos serão confrontados com outras provas reunidas durante o inquérito. “Agora nós vamos extrair os dados desses dispositivos eletrônicos, vamos avaliar esses dados juntamente com as provas que nós estamos utilizando para produzir, e aí nós vamos adotar todas as providências cabíveis”, afirmou.
Martins acrescentou que a investigação será conduzida com rigor, diante da natureza dos fatos. Leia mais
Maria do Carmo é esperada a depor hoje na DEPCA Do Carmo chegou depois da polícia
O delegado também esclareceu que Do Carmo não estava na residência quando os policiais chegaram para cumprir o mandado. Segundo ele, após contato com os advogados, a empresária foi chamada ao endereço e compareceu durante a diligência, por volta de 6h20.
A ausência inicial da ex-candidata já havia sido informada pelo BNC Amazonas nas primeiras notícias sobre a operação. O delegado foi questionado ainda sobre a possibilidade de provas terem sido apagadas ou ocultadas, considerando que a realização das buscas já vinha sendo comentada publicamente.
Martins lembrou que, na quinta-feira (5), Do Carmo divulgou um vídeo afirmando que estava em casa e aguardava a chegada da Polícia Civil. Segundo ele, essa circunstância também será examinada durante as investigações.
O delegado não confirmou, entretanto, que tenha ocorrido destruição ou ocultação de provas. Investigação avançou após o segundo turno
O inquérito é conduzido pela Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca) e teve origem em denúncia apresentada por Omar Aziz e sua família após a circulação do vídeo durante a campanha eleitoral. No dia 29 de outubro, a Polícia Civil realizou buscas em endereços relacionados a profissionais de marketing que trabalharam na campanha de Do Carmo, incluindo diligências em Manaus e São Paulo.
Na terça-feira (3), o desembargador Paulo Feitoza, do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), revogou uma liminar que havia suspendido a realização de buscas contra a empresária. A decisão permitiu a continuidade das medidas judiciais destinadas à obtenção de provas.
Na quinta-feira (5), a defesa de Do Carmo ingressou com um segundo pedido de habeas corpus, desta vez para tentar impedir uma eventual prisão preventiva ou temporária. A ex-candidata nega participação na produção do vídeo investigado e sustenta ser vítima de perseguição política.
O procedimento tramita sob segredo de Justiça por envolver uma pessoa menor de idade. A Polícia Civil deverá prosseguir com as investigações a partir da perícia dos equipamentos apreendidos nesta sexta-feira.
Foto: reprodução/vídeo
BNCamazonas