Os aplicativos de relacionamento entraram em crise? As plataformas, que viraram febre e transformaram a dinâmica dos encontros amorosos, estão cada vez mais sendo deixadas de lado por um público que se cansou de encontrar um amor deslizando a tela. As causas para isso são variadas, mas o fato é que muitos usuários reclamam da falta de profundidade nas conexões estabelecidas depois do 'match'.
É o caso do Pedro Teixeira, que acha que o imediatismo atrapalha a dinâmica dos aplicativos."O grande problema é que eles deixaram de ser aplicativos de relacionamento, porque as pessoas têm procurado mais coisas casuais. Essa é a verdade.
Antes você construía um relacionamento, hoje pessoas estão cada vez mais rápidas, estão cada vez mais exigentes umas com as outras e isso desanima muito", diz. Pedro não é o único: 40% dos usuários apontam dificuldade de encontrar conexões genuínas nos apps.
O dado é de uma pesquisa da Forbes Health publicada em 2025, que revela um cenário de desgaste emocional entre usuários de aplicativos de relacionamento. Quase 8 em cada 10 entrevistados sentem algum nível de esgotamento emocional, mental ou físico ao utilizar essas plataformas.
O reflexo disso pode ser visto até no meio econômico. O Bumble, uma das maiores plataformas de namoro, aceitou uma proposta de aquisição por US$ 1,3 bilhão após perder mais de 90% do valor de mercado.
O principal desafio apontado é a dificuldade de transformar interações digitais em conexões satisfatórias. O problema são os aplicativos ou as pessoas?
Para a psicanalista e pesquisadora de relações, Carol Tilkian, a ansiedade por uma conexão imediata atrapalha a construção das relações nas plataformas: "Eu vejo que a principal queixa em relação aos apps é que as conversas não aprofundam, que não vira encontro... só que na maioria das vezes a pessoa que se queixa disso também não faz movimentos efetivos para aprofundar conversas.
A gente espera um imediato que não é da lógica do aplicativo, porque muitas vezes você está on-line e a outra pessoa não está. Se ela demora para responder, você toma isso como descaso.
A gente quer aprofundamentos imediatos, e conexão tem um tempo", ressalta. "Eu acho que mais do que cansado dos apps, a gente está muito ansioso, imediatista e muito machucado no amor"
Para o Wellington Dias, que usava as plataformas antes de iniciar um relacionamento, o segredo era não esperar algo sério antes de sair e conhecer a pessoa de verdade. "Sempre que eu procurei foi em busca de coisas mais casuais, um encontro mais casual, conhecer para ver no que dava.
Mas nunca esperei muita coisa. É tudo muito plástico, muito digital, então é complicado esperar algo a mais começando dessa forma", conta.
Diante desse cenário, os aplicativos buscam se reinventar. Um dos mais tradicionais, o Tinder, caiu de um pico de 65 milhões de usuários ativos mensais em 2021 para pouco mais de 50 milhões no ano passado, de acordo com dados da Senso Tower.
Ghosting e frustração O desinteresse crescente pode ser explicado pela dificuldade em sair do primeiro 'oi'.
É o que conta a Mariana Levi, que se diz cansada dessa dinâmica. "Eu comecei a usar os aplicativos de namoro depois que eu terminei o relacionamento, justamente para conhecer pessoas novas e ter relações casuais, sem expectativa de achar um relacionamento.
Mas hoje em dia nem para isso está funcionando. No início, eu cheguei a sair com algumas pessoas, mas hoje em dia eu sinto que as conversas não evoluem.
Você dá match com alguém, a pessoa te manda um 'oi', um 'tudo bem', e mesmo se você responder, às vezes também a pessoa não te responde ou fica aquela conversa super espaçada. E desse jeito não dá para desenvolver uma conversa nem para relação casual", analisa.
A psicóloga Renata Azevedo, especialista em relacionamentos amorosos, alerta que as dificuldades encontradas nos aplicativos podem abalar a autoconfiança e o equilíbrio emocional das pessoas: "Uma coisa que eu percebo muito no consultório é esse cansaço de começar várias conversas e elas não irem pra frente.
A pessoa conhece alguém, começa a conversar, cria uma expectativa, aparentemente está tudo indo bem e do nada o outro desaparece. Só que isso acontece várias vezes.
A pessoa começa a se questionar: 'será que tem alguma coisa errada comigo? Será que eu não sou interessante? Por que ninguém me escolhe?". Essa experiência, que é compartilhada por muitos usuários atualmente, tem nome: ghosting.
De acordo com a Forbes, mais de 40% dos usuários se cansaram de tentar conhecer pessoas nos apps pelo simples 'desaparecimento' dos eventuais parceiros. Aplicativos apostam em encontros fora das telas
Mas as empresas estão se reinventando. O próprio Tinder passou a promover diversos eventos presenciais para que o match aconteça ao vivo, olho no olho.
Um deles foi o 'Run & Date', um evento de corrida no Rio de Janeiro. Em várias cidades do mundo, a empresa também oferece outros tipos de encontro cara a cara, em eventos de Yoga, de jogos, de drinks e opções para todos os gostos.
Para a especialista Carol Tilkian, esse modelo híbrido é saudável. "O Hinge, por exemplo, que é o maior aplicativo dos Estados Unidos que veio para o mercado brasileiro recentemente, o posicionamento deles é 'designed to be deleted'.
Ele é desenhado para ser deletado. É como eu crio uma lógica que favoreça conversas mais profundas, onde ali seja só o primeiro passo para um encontro presencial.
Então, a gente já vê muitos aplicativos também tendo eventos de corrida, bares, clubes do filme. Eu acho que esse modelo híbrido pode ser um caminho interessante para os aplicativos", avalia.
Na busca por um amor, os aplicativos podem ser um atalho. Mas para que o relacionamento prospere, o encontro é inevitável.
CBN