A entrevista que deveria funcionar como vitrine internacional para Flávio Bolsonaro virou mais um capítulo de constrangimento para o senador. Publicada nesta quinta-feira (5) pelo The New York Times, a reportagem feita em Miami trata o filho mais velho de Jair Bolsonaro como um político que fugiu do Brasil para escapar de investigações e que insiste em alegações infundadas de fraude contra a vitória de Lula.
A expectativa no campo bolsonarista era outra. Na véspera, Paulo Figueiredo, aliado próximo da família Bolsonaro, anunciou no X que a conversa com o jornal americano seria “a entrevista que a Globo teve medo de fazer” e prometeu que ela seria “totalmente red pill”.
Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que também fugiu para os Estados Unidos e foi condenado no Brasil, publicou uma foto do irmão sentado diante da equipe do jornal. O resultado foi resumido pelo influenciador Felipe Neto, que destacou trechos da reportagem nas redes.
“Mais uma derrota humilhante”, escreveu. Segundo ele, um “assessorzinho” de Flávio havia anunciado que a entrevista seria excelente, mas “o jornal HUMILHOU o Flávio”.
Os trechos destacados por Felipe estão de fato na reportagem. Logo no subtítulo, o New York Times afirma que Flávio insiste em alegações infundadas de fraude eleitoral e planeja influenciar a política brasileira à distância, mesmo sem o apoio do próprio partido, o PL, que não contesta o resultado.
O texto descreve a saída do senador como uma fuga espetacular de 8 mil quilômetros para escapar de investigações criminais e lembra que ele é alvo de apurações ligadas a lavagem de dinheiro e corrupção. Flávio deixou o país em 27 de outubro, dois dias depois de perder o segundo turno, quando o ministro Alexandre de Moraes já havia determinado a entrega de seus passaportes.
Atravessou a fronteira com a Argentina, voou para o Equador e desembarcou em Miami no dia seguinte. Hoje está nos Estados Unidos com uma autorização de permanência de caráter humanitário concedida pelo governo Trump.
Na conversa de 75 minutos, o senador disse ter feito tudo sozinho. “Não houve ajuda absolutamente de ninguém, de nenhum governo”, afirmou.
Sobre como chegou aos Estados Unidos, disse que vai levar a resposta “para o túmulo”. O próprio jornal desmonta a versão.
Segundo autoridades americanas ouvidas pela reportagem, o jato que levou Flávio a Miami foi providenciado por um funcionário da Casa Branca, e a entrada dele no país foi autorizada diretamente por Donald Trump. Na Argentina, um dos principais assessores do presidente Javier Milei o encontrou em um aeroporto.
A reportagem também confronta as suspeitas de fraude levantadas pelo senador. Flávio chamou a derrota de “matematicamente impossível” e voltou a falar em manipulação de votos.
O jornal registra que o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou as acusações, que observadores internacionais atestaram a integridade da eleição e que dezenas de países reconheceram o resultado. A prorrogação do horário de votação, alvo preferido das queixas do senador, havia sido pedida pelas duas campanhas por causa de chuvas e atrasos no transporte, afetou cerca de 34 mil votos e não mudou nada numa disputa vencida por Lula com 4,4 milhões de votos de vantagem.
Diante das perguntas, Flávio recuou para o terreno da dúvida. “Tenho minhas suspeitas”, disse.
Admitiu ainda que a contestação judicial que pretende apresentar tem poucas chances e resumiu a derrota com uma frase que diz muito sobre o bolsonarismo. “Perdi para o sistema.”
O momento também não ajuda. A entrevista saiu dias depois das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em que os democratas, segundo as projeções, conquistaram a maioria na Câmara e no Senado, impondo um revés ao presidente Donald Trump.
Toda a articulação internacional de Flávio e de Eduardo se apoia na extrema direita americana, no acesso à Casa Branca e aos republicanos do Capitólio. O próprio jornal relata que o entorno do senador ainda espera um encontro com Trump em Mar-a-Lago, embora o presidente americano tenha dito que não tinha planos de recebê-lo.
Flávio esperava usar um dos jornais mais influentes do mundo para se apresentar como líder perseguido. Saiu retratado como um candidato derrotado que fugiu da Justiça, repete teorias desmentidas sobre as urnas e não consegue explicar a própria fuga.
Ele ainda diz que, se houver novas eleições, será candidato de novo. Pelo visto, vai continuar cavando.
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