O presidente Lula anunciou que vai recriar o Ministério da Segurança Pública. A promessa é antiga.
Foi apresentada na campanha de 2022 e levou quatro anos para começar a sair do papel. A pasta só existiu nos últimos dez meses do acidentado governo de Michel Temer.
Com a posse de Jair Bolsonaro, suas atribuições voltaram ao guarda-chuva do Ministério da Justiça, onde permanecem até hoje. Em mandatos anteriores, Lula resistiu a puxar para si a encrenca da segurança.
A exemplo de outros presidentes, era aconselhado a manter distância de chacinas, rebeliões e outras crises que desgastam a imagem de governadores. O cenário mudou quando a extrema direita abocanhou a pauta para ganhar votos e demonizar adversários.
O inquilino do Planalto passou a ser responsabilizado por todas as formas de violência, das guerras do tráfico ao roubo de celular. A aprovação da PEC da Segurança criou instrumentos para o governo federal passar do discurso à ação.
Ainda assim, sobram incertezas sobre o desenho e os poderes do novo ministério. “A questão é saber quem botar lá”, resume o ex-ministro Nelson Jobim.
Quando a pasta for criada, seu titular receberá uma estrela de xerife e ganhará papel de destaque no governo. Além de competência técnica, precisará de habilidade política para contornar conflitos anunciados.
Assim que a PEC foi enviada ao Congresso, Ronaldo Caiado liderou uma grita de governadores de oposição. “Quem manda na segurança pública no meu estado sou eu”, desafiou.
O homem do cavalo branco perdeu a eleição, mas personagens em ascensão na direita, como Tarcísio de Freitas e Douglas Ruas, tendem a protagonizar embates com o novo ministro. Se a pasta for bem avaliada, terá potencial para projetar um sucessor para Lula em 2030.
Se fracassar, pode virar uma sepultura de presidenciáveis. O risco ajuda a entender a preferência de Camilo Santana e Fernando Haddad pela chefia da Casa Civil, na cozinha do Planalto.
Nos próximos dias, o governo decidirá o que levar para o novo órgão e o que deixar no Ministério da Justiça. No passado, Jobim brincava que as atribuições da pasta iam “da toga à tanga”.
A Funai já migrou para o Ministério dos Povos Indígenas, e agora será a vez de a Polícia Federal mudar de endereço. Criado no Império, o Ministério da Justiça ficará com tarefas como defesa do consumidor, cooperação jurídica internacional e recuperação de ativos.
Seu titular terá menos poder e menos visibilidade do que o xerife da Esplanada. O convite para Gadi Eisenkot formar um novo governo abre caminho para a normalização das relações entre Brasil e Israel.
O diálogo está congelado desde maio de 2024, quando o chanceler de Benjamin Netanyahu destratou o embaixador Frederico Meyer e declarou Lula persona non grata por criticar a matança em Gaza. O petista não pode reclamar da sorte.
Em dez dias, conquistou o quarto mandato e saboreou derrotas de Netanyahu e Donald Trump.
O Globo