Antifascistas de última hora se levantam nas ruas e nas redes sociais, olham ao redor e identificam: lá está ela, a cadela do fascismo, como alertou Brecht, sempre no cio. Ou, quem sabe, já prenha e prestes a dar à luz.
'Fora da Bolha': Onda azul decreta fim de Trump? Quem vai ser o ministro da Fazenda de Lula? A ameaça fascista parece espreitar em toda parte, no Brasil e fora dele.
Curiosamente, porém, torna-se indetectável em territórios dominados pelo extremismo islâmico. Ali, governos autoritários atropelam direitos humanos, protegidos das críticas pelo relativismo cultural e por uma guerra fria imaginária, em que o antiamericanismo vale mais que a solidariedade às vítimas.
Disputa no Senado: candidatos trocam farpas e calculam apoios e traições no Centrão e no PL Se houvesse coerência, manifestações pelos direitos humanos pronunciariam também os nomes das iranianas perseguidas pelo regime.
Najmeh Amini, presente. Marziyeh Ebrahimi Shamsabadi e Diana Bahador, presentes também.
Aos 23 anos, Najmeh foi condenada à morte por uma publicação considerada ofensiva ao profeta Maomé. Alegou ter escrito sob efeito de substâncias que alteraram sua consciência, hipótese prevista na legislação para afastar a pena capital.
A defesa foi recusada, segundo o juiz, porque a ré poderia, em vez de insultar o profeta, dirigir-se contra inimigos do Estado, como Estados Unidos e Israel. Marziyeh, blogueira de 33 anos, recebeu outra sentença de morte, sob acusações que incluem insultar o líder supremo e agir contra a segurança nacional.
Diana Bahador, a Baby Rider, influenciadora de 19 anos, foi morta durante protestos contra o regime, em janeiro, segundo relatos publicados pela imprensa. Pessoas próximas à família denunciaram pressão para que sua morte fosse atribuída a um acidente de trânsito.
O inimigo externo e o culto ao líder são instrumentos recorrentes dos movimentos fascistas. Mussolini e Hitler eram considerados infalíveis diante dos adversários e do povo.
Para o Irã de hoje, os Estados Unidos são o Grande Satã; Israel, o Pequeno Satã. Mojtaba Khamenei, líder supremo, reúne em si o poder total, da terra e do céu, sobre a vida e a morte.
Em “O fascismo eterno”, Umberto Eco recorda como o fascismo italiano conciliava elementos aparentemente incompatíveis, inclusive privilégios à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência. A fusão entre autoridade religiosa, coerção estatal e espetáculo punitivo também aparece em Aceh, província da Indonésia autorizada a aplicar a Sharia.
Ali, pessoas são açoitadas publicamente por comportamentos sexuais considerados ilícitos. Como em Gilead, a sociedade imaginada por Margaret Atwood, a punição não atinge apenas quem recebe os golpes, serve para disciplinar quem assiste.
A humilhação pública transforma o corpo do condenado em advertência coletiva. E que lugar se aproxima mais do pesadelo de Gilead que o Afeganistão governado pelo Talibã? Em relatório divulgado em 15 de outubro, a missão da ONU no país documentou 443 prisões e detenções arbitrárias entre julho e setembro, ligadas a regras sobre hijab, barbas, cortes de cabelo, orações obrigatórias e proibição de música.
Registrou ainda 97 episódios de maus-tratos. Irã, Indonésia e Afeganistão têm histórias distintas.
Nem todo autoritarismo religioso é idêntico ao fascismo histórico. Mas a perseguição ao dissidente, o controle sobre mulheres, a sacralização do poder e a pedagogia do medo revelam afinidades que nenhum antifascista coerente deveria ignorar.
Quando a indignação depende da identidade do opressor, já não se defendem direitos humanos universais. O que se faz é escolher que vítimas merecem solidariedade.
*Sabrina Abreu, jornalista, é diretora de operações da StandWithUs Brasil
O Globo