Mais de 70% dos 3,5 terawatts de energia eólica e solar já instalados no mundo precisarão de uma decisão na década de 2040, entre modernizar os equipamentos, estender a vida útil ou desativar os parques. O levantamento é da consultoria Wood Mackenzie, que coloca a repotenciação como a principal barreira ao avanço do carvão e do gás natural sobre o espaço das renováveis.
Quase 50 gigawatts de capacidade eólica já tinham mais de 20 anos de operação em 2025, idade para a qual as turbinas mais antigas foram projetadas. A consultoria projeta que esse volume passe de 230 gigawatts até 2040.
Na geração solar, a expansão em larga escala começou mais tarde. A capacidade com mais de duas décadas de uso, porém, deve superar a eólica antes de 2040.
Repotenciar aproveita a conexão elétrica que já existe e evita a fila de acesso à rede, hoje um dos maiores gargalos das renováveis em qualquer país. Em muitos casos, o licenciamento também corre mais rápido do que o de um projeto construído do zero.
A vantagem econômica aparece mesmo quando o custo de instalação e operação se equipara ao de uma usina nova. A tecnologia atual entrega mais energia sobre a mesma estrutura, e a troca de uma turbina antiga por um modelo recente multiplica a geração no mesmo ponto de conexão.
A Alemanha oferece o exemplo mais claro. Áreas de usinas desativadas têm vento médio 4% mais forte que o de projetos novos, o que eleva a produtividade e derruba o custo nivelado da energia entregue ao consumidor.
A potência média das turbinas eólicas quadruplicou nas últimas duas décadas, e a eficiência dos módulos solares cresceu quase 70%. Um parque solar novo precisa de cerca de um terço menos área de terreno para entregar a mesma capacidade instalada.
A vida útil também mudou. As turbinas passaram de uma expectativa de 20 anos para mais de 30, e as garantias dos módulos solares ganharam cinco anos, acompanhando a melhora nos índices de degradação dos painéis.
O risco está no que acontece se nada for feito. Sem a modernização dos ativos existentes, o crescimento anual das instalações eólicas e solares perde força e a oferta não acompanha a demanda por eletricidade.
Nesse cenário, carvão e gás natural entram para completar o abastecimento. É a porta pela qual o passado energético tenta voltar, e ela abre justamente pela inação de quem já tem usina no chão.
A conta aparece com força na Europa. A Comissão Europeia quer 500 gigawatts de capacidade eólica até 2030, o que exige cerca de 37 gigawatts por ano até o fim da década.
Boa parte desse volume pode sair de parques que já chegaram ao fim da vida útil, sem ocupar novas áreas. O calendário de decisões não é técnico, é contratual.
Contratos de venda de energia, regras de outorga e condições de financiamento definem quando vale a pena trocar a turbina, e cada país tem a sua própria régua. O Brasil entra nessa agenda com o parque que ergueu a partir dos leilões da década passada, concentrado no Nordeste.
Trocar equipamentos sem construir novas linhas de transmissão é o caminho mais barato para produzir mais energia onde o escoamento já é apertado. A escolha também pesa sobre quem paga a conta da rede.
Cada usina modernizada ocupa capacidade de conexão já contratada, o que reduz a pressão por novas linhas e pelo custo que elas repassam à tarifa. A análise trata dos ativos em operação até 2025 e não projeta capacidade nova, o que limita a leitura a um retrato do parque que envelhece.
A decisão precisa ser tomada antes do desgaste virar falha, porque um parque que para de repente perde receita e contrato. O que está em jogo é quanta energia fóssil o mundo ainda vai precisar queimar.
Com 3,5 terawatts esperando decisão, essa resposta começa a ser dada agora, muito antes de 2040.
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