Força de trabalho, ontem; marginalizados, hoje

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

Os avanços no desenvolvimento social e econômico, assim como na saúde, reduziram a taxa de mortalidade, especialmente entre as pessoas idosas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas nesse setor está aumentando e já supera o dos mais jovens, o que demonstra o envelhecimento gradual da população em nível global.

Em 2024, a expectativa de vida era de 73,3 anos, um aumento significativo de 8,4 anos em comparação com 30 anos antes. Se a tendência continuar, até 2030 esse setor poderá alcançar 1.4 bilhões de pessoas, ou seja, 300 milhões a mais do que em 2023.

Outro fator não menos importante para explicar o fenômeno do “envelhecimento” relativo da população mundial é a redução da taxa de natalidade. Nas sociedades mais desenvolvidas isso se deve, principalmente, ao acesso à contracepção e à educação superior dos casais.

Nas menos desenvolvidas, é devido ao impacto severo das constantes crises sociais e econômicas que, de fato, desencorajam a expansão familiar. Em resumo: quanto menos nascimentos, menor é a população jovem em momentos em que a população adulta está crescendo rapidamente.

Essa dinâmica do envelhecimento da população em massa tem impacto não apenas na saúde e no cuidado das pessoas idosas, mas também nos seus novos papéis e desafios em suas próprias comunidades, onde os recursos para responder às suas necessidades específicas costumam ser escassos.

Inevitavelmente, essas “pessoas idosas” tornam-se um fardo social e econômico, competindo com as demandas das gerações mais jovens. Em muitos países, acabam sendo os “velhos” que não produzem mais e, em muitos casos, são considerados material social descartável.

Rostos e vozes humanas Cecilia Vitelli, 65 anos, aposentada argentina do setor de comunicações, atualmente recebe uma pensão equivalente a quase 800 dólares por mês.

(Essa pensão inclui um bônus que não se ajustou ao aumento do custo de vida há dois anos.) Embora esse valor seja próximo do de uma aposentadoria profissional no país —quase o dobro da mínima—, para Cecília e seu marido, um trabalhador independente sem aposentadoria própria devido às poucas ou muito irregulares contribuições para a previdência social, representa a única renda familiar.

Além das despesas habituais, esse casal deve assumir o custo adicional de cuidar dos próprios netos durante boa parte da semana. “Temos que sobreviver o melhor que pudermos”, diz Cecilia Vitelli.

“Os gastos com eletricidade, gás, água, telefone e serviços de Internet aumentam a cada mês. Existe uma inflação real que excede a do índice oficial, que é totalmente fictício.

Muitos aposentados precisam abrir mão de parte ou de todos os seus remédios e têm acesso a uma única refeição por dia”. Segundo ela, “é óbvio que, nessas circunstâncias, temos privações significativas”.

Se uma família típica em um subúrbio de Buenos Aires mora de aluguel, precisa receber uma renda mínima de 1.800 a 1.900 dólares. A isso deve ser somado o custo de uma cesta básica de alimentos, cerca de 1.000 dólares.

Para um casal aposentado com apenas 800 dólares por mês é praticamente impossível, o que leva Cecilia Vitelli a comentar que, embora os aposentados enfrentem situações muito difíceis há muitos anos, “elas nunca foram tão difíceis quanto hoje… e não há saída no curto ou médio prazo, já que tudo está em deterioro: saúde, educação e trabalho, que não está fácil de conseguir”.

Uma situação muito preocupante, com o fator agravante de que “o poder abusa das necessidades de muitos, especialmente das pessoas idosas… porque temos um governo de ricos, para os privilegiados”. Pedro Quispe*, 72 anos, aposentado peruano, trabalhou a vida toda no setor de serviços.

No entanto, sua pensão mensal é a básica em seu país, um valor que varia entre 150 e 320 dólares. “Existem diferentes escalas de acordo com a profissão ou ocupação, dependendo se vem do setor estatal ou privado”, explica Quispe, acrescentando que “a renda não cobre o preço da cesta básica para a família, já que tudo é muito caro, especialmente a comida [e é por isso] que há muita pobreza e o crime organizado agora é um perigo para a sociedade”.

Quispe também alude ao papel do governo em seu próprio país: “Uma realidade lamentável, já que o Peru é um país muito rico, mas tudo está marcado pela corrupção dos governos no poder, o que agrava ainda mais a precariedade econômica da maioria”. Anna Bianchi*, italiana, até conseguir a sua aposentadoria, trabalhou como funcionária profissional em uma instituição oficial dedicada a questões sociais.

“Minha pensão equivale a 1.450 dólares por mês”, ela diz, “mas para aquelas pessoas que não trabalharam regularmente ou que o fizeram sem contrato, a chamada pensão ‘social’ é de 840 dólares”. Quanto à cesta básica na Itália, está custando cerca de 376 dólares por mês, o que ajuda a explicar a situação crítica das pessoas idosas na terceira maior economia da União Europeia.

Embora Anna viva sozinha e não precise pagar aluguel, ela diz, “nos primeiros dias do mês, grande parte da minha renda é gasta para pagar serviços básicos: água, eletricidade, gás e telefone… Se eu tivesse que pagar aluguel, seria impossível”. Sylvia C*., 76 anos, aposentada estadunidense que vive no Estado de Maryland, trabalhou até os 73 anos na esperança de aumentar seu “cheque” da seguridade social em mais alguns dólares, mas a inflação desencadeada pela guerra contra o Irã evaporou esse benefício extra.

“Além disso”, ela diz, “o Estado não me ajuda mais por causa do corte brutal do subsídio federal de saúde feito pelo presidente Donald Trump, que nos afetou muito”. Severamente limitada por osteoartrite severa e diabetes, Sylvia também cuida de um irmão com deficiência mental em uma casa muito humilde e bastante decadente.

“Preciso consertar o telhado, preciso consertar os degraus de concreto, e o que me mantém acordada agora são o equipamento de aquecimento. Não sei se ele vai aguentar mais um inverno, sempre tão frio e com temperaturas congelantes por várias semanas”.

Sylvia fala dos milhões de pessoas idosas que precisam sobreviver em “um país como este, com tanto dinheiro para cortar impostos dos ricos e das grandes corporações enquanto nos aterrorizam dizendo que, em apenas quatro ou cinco anos, o fundo da seguridade social estará vazio… Será que esqueceram que fomos nós que os deixamos ricos?”.

Cecilia, Pedro, Anna, Sylvia: raios-x semelhantes de marginalização de tantas pessoas idosas, apesar de viverem em países tão distantes quanto díspares em termos de recursos e oportunidades. O drama latino-americano

Em poucos anos, 20% da população latino-americana com mais de 65 anos se aproximará dos níveis atuais da Europa, onde uma em cada 5 pessoas já pertence a esse grupo etário. Com um elemento preocupante: atualmente, 35% das pessoas idosas latino-americanas não têm nenhuma pensão ou renda regular ao se aposentar.

De acordo com a Comissão Econômica da América Latina (CEPAL), se essa projeção for estendida para 2050, a proporção de pessoas com mais de 60 anos na América Latina dobrará, passando dos atuais 98 milhões para 183 milhões: nada menos que 25% da população total desse grupo etário.

Nesse contexto, outro fator a considerar é o crescimento do setor de pessoas com 80 anos ou mais. Até meados do século, esse grupo terá triplicado, representando 5% da população total.

Esse processo de “envelhecimento do envelhecimento”, como aponta a CEPAL, produzirá um aumento permanente na demanda por apoio às atividades diárias básicas e, especialmente, aos cuidados de longo prazo e aos serviços de saúde especializados. Segundo a CEPAL, até 2037 a população idosa ultrapassará a de crianças e adolescentes; e até 2053, quando o grupo de pessoas com mais de 60 anos superar numericamente o de qualquer outro grande grupo etário, isso transformará o planeta em uma “sociedade envelhecida”.

Como ocorre globalmente, a taxa de fertilidade também caiu na América Latina. De 5,8 filhos por mulher em 1950 para 1,85 filhos em 2022.

A queda na taxa de mortalidade e na taxa de fecundidade estão mudando radicalmente a estrutura etária nesta região, resultando em um aumento significativo na faixa demográfica das pessoas idosas. No entanto, hoje não há extensão dos serviços sociais e de assistência social para contrabalançar essa tendência marcada ao envelhecimento.

Repressão em vez de assistência A tendência continental dominante, por outro lado, consiste no congelamento de aposentadorias e pensões de acordo com a lógica dos ajustes estruturais prescritos pelas organizações financeiras internacionais para reduzir o “gasto social”, quitar a dívida pública e refinanciar novos empréstimos.

O panorama é agravado pelo aumento das deficiências na área da saúde e quase não existem instituições públicas decentes que ofereçam serviços de longo prazo. A isso se somam, segundo a CEPAL, padrões crescentes de abandono e solidão, embora as redes familiares regionais ainda desempenhem um papel importante na integração e no cuidado das pessoas idosas do que em outros continentes, como a Europa.

Apesar dessa situação muito difícil das pessoas idosas, uma boa parte delas continua resistindo por todo o continente. Os aposentados da Argentina, por exemplo, com seus protestos semanais quase ininterruptos desde a chegada de Javier Milei à presidência, tornaram-se um dos principais atores de oposição ao governo.

A deterioração do sistema de pensões é profunda. Segundo o Centro de Economia Política da Argentina (CEPA), durante o trimestre de agosto-outubro de 2026, as pensões (com um bônus complementar congelado em 45 dólares desde 2024) estão 19,2% abaixo do último trimestre do governo anterior (2023).

E de acordo com o Índice Global de Aposentadoria (GRI, em inglês) de 2026, a Argentina está em último lugar entre as 9 nações latino-americanas avaliadas, com uma classificação muito baixa (apenas 43 pontos de 100), enquanto a média continental oscila em torno de 62 pontos. No México, em maio passado, aposentados promoveram marchas em massa em defesa de seus direitos, mesmo que esse país ocupe, também segundo o GRI 2026, o segundo lugar em nível continental, apenas atrás do Chile e com uma boa pontuação.

No Equador, as pessoas idosas têm se juntado gradual e ativamente aos massivos protestos contra as políticas neoliberais do presidente Daniel Noboa. Um dos principais eixos dessas mobilizações, intensas em setembro e outubro, tem sido a defesa do Instituto Ecuatoriano de Seguridad Social (Instituto de Previdência Social do Equador) contra a tentativa do governo de reduzi-lo e privatizá-lo.

Em setembro, organizações de 12 países da região, com o apoio da Federação Mundial dos Sindicatos, realizaram a Primeira Reunião de Aposentados das Américas, na Argentina, com o objetivo de fortalecer a unidade e coordenar a luta para conquistar os direitos que garantam uma velhice decente.

Dignificando a velhice Não faltam ideias e iniciativas, como o consenso das Nações Unidas tem evidenciado ao declarar a década de 2021-2030 como a “Década do Envelhecimento Saudável”.

A defesa das pessoas idosas, segundo as Nações Unidas e suas diversas agências, envolve combater o “idadismo”, ou seja, promover uma mudança na forma como pensamos, sentimos e agimos em relação à idade e ao envelhecimento. Além disso, estimular todos os meios possíveis para promover as capacidades das pessoas idosas.

No campo da saúde, a ONU recomenda que os Estados forneçam cuidados integrados e serviços de saúde primária que respondam às necessidades das pessoas idosas. E que ampliem o acesso desse setor social aos cuidados de longo prazo.

Sem subestimar, é claro, a luta contra seus maus-tratos, isolamento e solidão As pessoas idosas, construtoras da sociedade mundial atual, são confrontadas com a realidade do atual sistema econômico hegemônico no Ocidente: aquele que não produz, não conta.

E em muitos lugares elas lutam para sempre ser, apesar da idade, seres humanos em sua totalidade e não apenas ex força de trabalho marginalizada. *Os nomes reais são conhecidos pelo redator.

Tradução: Rose Lima.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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