Angela Alonso: professora diz que esquerda saiu do marasmo e aprendeu a usar as táticas da direita nas redes Anna Carolina Negri/Valor
O resultado desfavorável nas urnas no 1º turno, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o temor da volta da direita à Presidência fizeram a esquerda despertar de um marasmo e ocupar não só as ruas, mas também as redes sociais. O “Exército de Lula”, canal no WhatsApp do deputado André Janones (Rede-MG), com mais de 8,5 milhões de seguidores, deu ao presidente um alcance digital inédito.
“Mudou o jogo eleitoral”, diz Angela Alonso, professora titular do Departamento de Sociologia da USP. A direita, no entanto, também está nas ruas e nas redes, em uma disputa por protagonismo que manterá a tensão no país mesmo depois do fim da eleição.
O próximo presidente, seja qual for o resultado nas urnas, terá um início de mandato difícil, marcado por conflitos e pela pressão das ruas. Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Alonso diz que a direita avançou ao se manter mobilizada e ao vender o “futuro”, com a perspectiva de prosperidade.
Nos últimos anos, a esquerda perdeu parte do “pulso” das ruas e enfrentou problemas para se comunicar com a população - e vender futuro. Alonso avalia que se Lula for eleito, terá que mudar o governo e dar uma guinada à direita, ao mesmo tempo em que precisará das ruas para governar.
Se Flávio vencer, pode-se esperar um governo de extrema-direita, mais radical do que o de seu pai, Jair Bolsonaro (PL), e com um caráter autoritário. [Mobilização nas ruas e nas redes] Mudou o jogo, seja quem quer que ganhe a eleição”
“Está em jogo se você vai votar num candidato democrático ou num candidato antidemocrático.” A seguir, trechos da entrevista ao Valor:
Valor: A esquerda e a direita disputam as ruas e redes. Que peso as mobilizações podem ter nas urnas?
Angela Alonso: A esquerda saiu de um marasmo longo. Teve uma sequência de ciclos de protestos, desde o governo Dilma.
Primeiro, teve esquerda e direita ao mesmo tempo na rua, em 2013. Depois, apenas a direita em 2015.
Durante o impeachment, houve duas organizações, uma à esquerda e outra à direita, sucessivamente, nas ruas. A direita continuou nas ruas nos anos Bolsonaro.
Nos anos Bolsonaro, por causa da sua própria contingência - teve dois anos de pandemia-, ele não sofreu tanto a contestação das ruas. A esquerda se recolheu, em parte pela pandemia.
Mas a direita não se recolheu. Valor: O que mudou com Lula?
Angela Alonso: Muitos movimentos da esquerda saíram das ruas porque o governo representava esse campo. A direita não fez isso.
Manteve no mandato do Bolsonaro a mobilização nas redes e nas ruas, com manifestações menores, no 7 de setembro, motociatas. E Bolsonaro fez um governo mobilizador, com suas falas públicas, indo a esses eventos, com uma postura quase que como se estivesse fora do governo.
A esquerda mobilizou-se, mas pouco. No governo Lula 3, não vimos grandes mobilizações de nenhum dos lados.
A esquerda se recolheu um pouco e a direita também não produziu manifestações muito grandes. No início do governo Lula, a tentativa de golpe foi uma mobilização violenta da direita, mas não foi grande em número de pessoas.
Os movimentos vinculados a uma liderança não apareceram com tanta força nesses anos, mas a direita continuou mobilizada nas redes. Valor: E agora, com essa mobilização da esquerda pelo Janones?
Alonso: O efeito Janones não é fenômeno isolado. Tem lideranças importantes se constituindo na esquerda, como Erika Hilton.
Mas com Janones é o primeiro movimento à esquerda usando as mesmas táticas da direita, com exceção de “fake news”. Usa táticas de se concentrar em uma “hashtag” em uma pessoa, de muitas pessoas postando ao mesmo tempo as mesmas coisas.
Valor: Isso ajuda na renovação de lideranças da esquerda? Alonso: Agora é uma grande rede de movimentos, a maioria pequenos, como os “fandoms”.
Nas redes e nos eventos, há lideranças de uma nova geração, coisa que a esquerda não vinha produzindo, como Ana Elisa, Erika Hilton, Janones, Guilherme Boulos, João Campos, Tabata Amaral. É uma geração mais nova, que maneja melhor as redes.
Eles transformaram o uso distante que o PT teve das redes, ou o uso tradicionalista. Valor: As redes ajudaram a encher as ruas?
Alonso: As mobilizações de rua são um pouco o efeito da reação das redes, mas também é efeito do resultado eleitoral. O medo do retorno dessa direita golpista - porque tentou golpe de Estado - trouxe um susto, um choque.
E produziu um efeito surpreendente no seu volume. No país inteiro tem manifestações.
Tem efeito de multiplicação e de reforço mútuo entre o que está acontecendo nas redes e nas ruas. O Exército do Lula, de Janones, com mais de 8 milhões de inscritos, ninguém na esquerda nunca tinha conseguido.
Isso realmente mudou o jogo eleitoral. Muda o jogo independentemente de quem ganhar a eleição.
Valor: Como ficará o pós-eleição, com tantas manifestações? Alonso: Os dois campos estão muito mobilizados, mas a esquerda, neste momento, está mais mobilizada, em pequenos grupos.
Foi isso que a direita fez em 2013, em 2015, durante o impeachment, quando congregou na mesma coalizão muitos pequenos movimentos. Não vejo na direita tantos movimentos novos, mas tem lideranças novas, como os jovens deputados eleitos, que usam muito as técnicas digitais.
Não tem uma vertebração como já teve antes, até porque eles estavam no governo há pouco. Isso desorganiza um pouco, não precisa ficar fazendo tantos protestos.
Mas os dois campos irão para rua, qualquer que seja o resultado da eleição. Um vai para comemorar e o outro, para protestar.
É difícil que não haja manifestações contrárias. Será uma situação tensa, qualquer que seja o resultado.
Valor: Ao longo de 2027? Alonso: A tensão vai continuar.
Tem mais de uma década que tem essa mobilização, ora à esquerda, ora à direita. O país é muito politizado, as pessoas estão se manifestando o tempo inteiro.
A tendência é que as ruas fiquem mobilizadas, com manifestações a favor e contra o governo. Quem quer que ganhe, vai passar por um tempo difícil.
Não vai ser simples. Como não foi o começo do terceiro mandato do Lula, foi terrível.
Esse tipo de manifestação contrária pode se reapresentar. Valor: E a violência política?
Alonso: Fizemos um estudo sobre casos de tentativa de assassinato e assassinatos por razões políticas. Entre 2003 e 2023, foram quase 800 assassinatos.
Destes, 27% foram nos anos do Bolsonaro, 369 casos. Em média, 51 assassinatos por ano.
Nos governos Lula, foram 18 por ano. A diferença é grande, quase três vezes maior no governo Bolsonaro.
Valor: Em 2023 teve tentativa de golpe por Bolsonaro, e mesmo assim Flávio tem apoio de quase metade dos eleitores. O que esperar de eventual governo Flávio?
Alonso: [Os eleitores] Estão votando na marca Bolsonaro. Quando eles chegaram ao governo, eram muito despreparados.
Não tinham quadros, não tinham experiência de gestão, pessoas sem qualificação assumiram órgãos federais e políticas foram simplesmente abandonadas. Agora eles têm quadros, formaram gente nesse período.
Podem fazer agora uma gestão realmente mais de extrema-direita. Se Flávio for eleito, terá apoio do eleitorado, do Congresso.
E poderá indicar ministros do Supremo de maneira a fazer maioria. Estará em situação como o [Donald] Trump está.
Não tem muito onde a oposição buscar protagonismo e, por isso, terá muito mais espaço para governar nessa direção. Eles deixam claro que é a direção da força.
O discurso é do cada um por si, do empreendedorismo. Cada um é responsável pelo seu sucesso.
Cada um, com armas, é responsável pela sua defesa. Tem um discurso autoritário.
É preocupante que, mesmo se ele perder a eleição, quase metade do país deposita confiança nesse tipo de líder político, que se apresenta apenas como um personagem. É como se a própria figura dele bastasse.
Valor: O que está em jogo agora? Alonso: Está em jogo se você vai votar num candidato democrático ou num candidato antidemocrático.
Bolsonaro desrespeitou as instituições democráticas, tinham um plano de execução das lideranças do Executivo. Não dá pra brincar de que depois a pessoa se modera.
Bolsonaro não se moderou. Não é por acaso que Lula que tem tanto apoio internacional.
Não é só pelo Lula, é também pela democracia, que está em risco no mundo. O Brasil é importante na conjuntura internacional.
E se o Brasil se tornar uma democracia de face, será terrível, não só aqui. Valor: A direita avançou no Congresso e nos Estados.
Flávio teve mais votos que o pai. Analistas dizem que a esquerda está no passado e não aponta para o futuro.
O que mais ajuda a explicar esse cenário? Alonso: Tem os erros da esquerda.
Janones está produzindo um terremoto porque colocou todo mundo para trabalhar, e o eleitorado lulista agora é engajado. Mas durante esses anos, a esquerda vem se comunicando mal.
E tem outro fator: a direita está vendendo um futuro. Não é um futuro coletivo, mas é futuro.
A bandeira mais clara é a da segurança. A polícia vai ser a cara desse governo.
O restante é a ideia de que cada um pode ter sonho individual de futuro. Valor: A proposta de Ministério da Prosperidade contempla isso?
Alonso: Prosperidade acena para os lados econômico e religioso. Do econômico, vai na linha de que pode ser empresário de si mesmo, da ilusão do empreendedorismo.
Do religioso, tem a Teologia da Prosperidade, que faz sucesso entre igrejas evangélicas, da salvação pelas obras. Traz uma espécie de futuro, de sonho.
Não é que o governo vá prover meios, porque é impossível ter só empreendedores, mas projeta um tipo de futuro. O que a esquerda tem dificuldade, há muito tempo, é de produzir sonho coletivo.
Valor: Flávio representa ameaça à democracia maior do que foi com Jair? E como poderia ser um golpe? Alonso: Golpe à maneira antiga, como o Bolsonaro tentou fazer, não.
Mas há várias maneiras de produzir autocracia. Não é, necessariamente, pelo uso das armas.
Se o governo tem controle das instituições políticas, do Supremo, vai passar a legislação num sentido conservador, a agenda de costumes. Vai passar medidas que vão na direção de redução de oportunidades e recursos sociais para parte da sociedade.
Pode ter agendas como o fim das cotas, extinção ou criação de empecilhos para a constituição de famílias entre pessoas do mesmo sexo - como a adoção de crianças por essas famílias, a transmissão de herança. Não precisa ser por meio de uma ditadura tradicional.
Estamos vendo no mundo todo - mesmo nas democracias - a polícia reprimindo quem vai às ruas, como na França, com milhares de pessoas presas. Flávio terá esta linha de política repressiva.
Pode operar por meios não democráticos, usando as instituições democráticas. Valor: Se Lula se reeleger, terá um Congresso desfavorável, além de um STF com crise de credibilidade.
O que esperar de um Lula 4? Alonso: Terá que ter um bom rearranjo, fazer concessões mais à direita e, ao mesmo tempo, terá que ser um governo mobilizador, que vai governar como Bolsonaro governou, constantemente mobilizando apoio nas redes e nas ruas, para aprovar as agendas.
Vai ter que ter pressão da sociedade sobre as instituições. Do contrário, o governo estará sitiado.
Valor: Pesquisas mostram que Flávio tem apoio de 1/3 dos beneficiários do Bolsa Família. O que mudou nessa faixa, que era lulista?
Alonso: As pessoas não votam só por gratidão. O que move é alguma ideia de futuro.
Cada um de nós está pensando no futuro. O que está mais difícil de vender, do ponto de vista da esquerda, é esse futuro.
Pode haver a desconexão entre o que recebe agora e o que projeta para o futuro. Valor: Michelle Bolsonaro teve boa votação, ajudou a mobilizar o PL no país, mas não está na campanha de Flávio.
O que isso sinaliza? Alonso: Ela é a figura de mais inteligência política na família [Bolsonaro].
Apresenta-se bem, fala bem, é calorosa. Consegue, ao mesmo tempo, ser herdeira do Bolsonaro e se descolar dele.
Criou rede nacional admirável, costurou alianças. É uma liderança neste momento, com entrada nos mundos evangélico e feminino.
Se Flávio perder a eleição, é uma potencial candidata [em 2030]. Valor: Na esquerda, não tem uma liderança clara para o pós-Lula.
Como fica esse cenário? Alonso: Quem se fortaleceu nesta eleição foi Janones.
Se Lula ganhar, pode ser ministro, coordenador de comunicação ou ter atuação importante no Congresso. Tem a Erika Hilton, Simone Tebet, Ana Elisa.
Mas tudo isso é futurologia. Política é muito o momento, as conjunturas que são favoráveis a um certo tipo de liderança.
Mas perde quem não embarca na hora que tem oportunidade, porque pode ser que depois o barco não passe mais.
Valor