A CEO da Anglo American no Brasil afirma que o país deve evitar tomar partido na corrida global por minerais críticos e buscar abastecer nações em todos os blocos geopolíticos. “Temos que negociar com todo mundo.
Não tem porque a gente escolher um lado,” Ana Sanches disse em entrevista na segunda-feira, um dia após Luiz Inácio Lula da Silva ser reeleito presidente da maior economia da América Latina. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de terras-raras — utilizadas em tudo, desde veículos elétricos e turbinas eólicas até drones — ficando atrás apenas da China.
À medida que o país sul-americano busca capitalizar seus vastos recursos minerais, Lula enfrentará o desafio de equilibrar as relações com a China, seu maior parceiro comercial, e com os EUA, que buscam fontes alternativas de minerais críticos para reduzir sua dependência de Pequim.
Sanches instou o Brasil a agir rapidamente para estabelecer regras claras para sua nova política de minerais críticos, a fim de dar às mineradoras maior previsibilidade sobre seus investimentos. O projeto de lei aprovado em setembro dá poderes especiais a um conselho governamental para aprovar M&As e contratos de fornecimento, além de oferecer incentivos para o processamento interno, mas ainda não foi regulamentado.
“O governo tem que exercer seu papel. Não vejo nada de errado nisso”, disse Sanches, que também é presidente do conselho diretor do Instituto Brasileiro de Mineração, ou Ibram.
“Mas temos que ter clareza do que isso significa e como será executado.” Isso quer dizer estabelecer critérios e prazos claros na regulação da nova política mineral, afirmou ela.
Combater a mineração ilegal, expandir o mapeamento geológico e tornar o processo de licenciamento mais previsível também são fundamentais para o setor, cuja agenda “deve avançar independentemente do governo eleito”. Minério Crítico
Como um dos maiores produtores globais, o Brasil deve tratar o minério de ferro de alta qualidade como um mineral crítico, acrescentou ela. Os minérios de alta qualidade, que são escassos, desempenharão um papel cada vez mais importante na descarbonização da produção de aço.
Enquanto a fusão planejada da Anglo com Teck Resources está prestes a criar uma nova gigante do cobre, Sanches afirmou que as operações brasileiras continuarão focadas em minério de ferro de alta qualidade. A Anglo American também vendeu recentemente suas operações de níquel no Brasil para a chinesa MMG, e as duas empresas estão buscando evitar um possível veto da União Europeia ao acordo de US$ 500 milhões.
As operações da Anglo no Brasil estão agora concentradas no complexo Minas-Rio, que reúne uma operação de minério de ferro totalmente integrada, composta por uma mina no estado de Minas Gerais, uma planta de beneficiamento, um mineroduto e um porto no Rio de Janeiro. O projeto de mineração produz minério de alto teor, com cerca de 67% de conteúdo de ferro.
Além da Anglo, o país abriga a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo. A Vale adquiriu uma participação de 15% no projeto Minas-Rio, e tanto a mineradora quanto a Anglo buscam integrar o projeto Serpentina, da Vale, situado em uma área contígua.
Segundo ela, uma decisão de investimento deverá ser tomada após a conclusão dos estudos de viabilidade, que ainda estão em andamento. Embora os preços realizados do Minas-Rio no terceiro trimestre tenham caído 12% em relação ao mesmo período do ano anterior, devido ao aumento dos custos de frete, Sanches afirmou que a Anglo não planeja reduzir a produção e espera que as tarifas de transporte marítimo recuem.
Segundo ela, as interrupções provocadas pela guerra levaram a empresa a redirecionar cargas destinadas à Bahrain Steel para outros mercados, incluindo Ásia, Norte da África, Europa e Japão.
O Globo