No dólar global, a sensibilidade à reação de Trump às ‘midterms’

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Fonte da notícia: Valor Valor

O efeito das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos na orientação do dólar não é uma ciência exata. Bancos e gestores de ativos divergem na leitura sobre o movimento da moeda americana após a formação do Senado e do Congresso.

Uma percepção, no entanto, é comum: a divisa irá responder a como o presidente Donald Trump vai atuar após a disputa deste ano. O Commerzbank, por exemplo, vem ressaltando há algum tempo que os maiores problemas para a moeda americana estarão concentrados nas áreas de política comercial e política externa.

“Os riscos para o dólar decorrentes de uma política americana errática dificilmente serão neutralizados mesmo com uma vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato. Pelo contrário: como Trump não poderá concorrer à reeleição em 2028, poderá até adotar medidas mais duras”, diz o chefe de pesquisa em moedas do banco alemão, Thu Lan Nguyen.

O executivo aponta que diante deste cenário, Trump pode se mostrar ainda mais volátil com as Casas mais democratas. Leitura similar sobre a força de Trump vem de analistas do J.P.

Morgan. A avaliação é de que a Casa Branca continuará a exercer maior controle sobre alguns dos principais pontos de discordância nas campanhas republicana e democrata, como tarifas, inteligência artificial e política externa, ainda que o Legislativo pertença ao Partido Democrata.

“Grandes pacotes de impostos/gastos, geralmente feitos por meio de reconciliação orçamentária, seriam, portanto, improváveis??e limitariam os riscos de prêmios de prazo para o dólar (a menos que os republicanos mantenham ambas as casas do Congresso)”, dizem os analistas em nota. “Além disso, os riscos de que o controle democrata interrompa materialmente a expansão da inteligência artificial de forma que afete o dólar também parecem bastante limitados.”

Já o Wells Fargo tem uma leitura um pouco diferente. Para o banco, a moeda americana pode enfraquecer, caso os democratas se tornem maioria.

“Esperamos uma reação imediata limitada do mercado, mas vemos o balanço de resultados favorecendo uma alta dos títulos de longo prazo e um dólar mais fraco, especialmente se as eleições reforçarem a consolidação fiscal ou desafiarem a narrativa de excepcionalismo americano impulsionado pela inteligência artificial.”

Nos quase dois anos do segundo mandato de Trump, o movimento global do dólar foi muito orientado pelas políticas adotadas pelo republicano, seja em relação às tarifas comerciais contra uma série de países, seja em relação a questões geopolíticas, como o desejo de anexar a Groenlândia e a guerra contra o Irã.

O índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos e que serve como uma referência para a dinâmica global da divisa americana, passou por um sobe e desce no período. Logo após Trump ter sido eleito, o índice bateu seu pico recente em 109,6 pontos, e seis meses depois caiu para 96,9 pontos.

De lá para cá, a oscilação ficou mais contida, entre 98 e 100 pontos, até voltar a ganhar tração em meio a dados mais fortes da economia americana e o tom mais “hawkish” (favorável a juros altos) do Federal Reserve (Fed). Na sexta-feira, o índice rondava 101,9 pontos no fim do pregão.

Para o banco suíço Lombard Odier, não é simples cravar o efeito da composição do Congresso no câmbio, mas e possível pensar como as políticas podem ser conduzidas daqui em diante. A clareza sobre a política fiscal, segundo o banco, poderia retirar parte da pressão sobre os rendimentos dos Treasuries e reduzir o diferencial das taxas dos títulos soberanos de outras nações, pressionado o dólar.

Por outro lado, o banco aponta que um Legislativo democrata traria um maior controle e equilíbrio sobre futuras nomeações para o Fed, reduzindo a probabilidade de políticas prejudiciais à credibilidade monetária. Já o estrategista de ações do ASA Estados Unidos, Ralph Davidson, afirmou ao Valor que o controle do Senado e do Congresso americano pelos Democratas pode ser positivo para o dólar, visto que a oposição poderá trazer mais resistência às políticas fiscais expansionistas de Trump.

“Reconhecemos que diversos fatores influenciam a dinâmica relativa das moedas. De modo geral, consideramos que uma divisão entre o Executivo e o Legislativo seria, na margem, um fator positivo para o dólar”, diz.

Há quem atrele o movimento do dólar menos ao cenário eleitoral e mais à política monetária. É o caso do economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral.

Para ele, um Congresso composto por maioria democrata pode limitar as medidas ruidosas de Trump, mas isso tem um efeito muito limitado na dinâmica da moeda americana. “Me parece ser um fator mais secundário.

O que é mais importante é o que ocorre com os juros e com a economia do país”, diz. “A meu ver, o movimento dos juros de longo prazo é melhor entendido pelo movimento dos juros de curto prazo.

Não compro a ideia de prêmio fiscal. Nesse sentido, quando o juros de curto prazo pararem de subir, os longos também irão cair, o que tende a se refletir no movimento do dólar.”

Sobral, portanto, diz ver a moeda americana sem muito mais espaço para apreciação, dado que a economia forte e a inflação alta não devem durar muito mais do que dois ou três trimestres, uma vez que as taxas estão elevadas no país. “No meio do ano que vem, provavelmente a inflação vai ter voltado a desacelerar, e os juros de curto prazo poderão começar a cair, com o dólar perdendo força.”

Para o economista da Neo Investimentos, o ambiente global vem se mostrando há algum tempo favorável para moedas de mercados emergentes, mas não tão vantajoso para divisas de mercados desenvolvidos. “E se estamos perto do pico do dólar, a perspectiva é que continue benéfico para essa classe de moedas”, afirma, acrescentando, porém, que o real tem uma história própria que pode fazer mais preço neste momento.

“Por incrível que pareça, estamos com a volatilidade [das moedas] relativamente baixa, com o dólar perto de um pico”, diz. “Mas aqui há muitas questões em aberto.

Não descarto uma piora como vimos em 2024, quando o real se descolou bastante dos pares.” Até sexta-feira antes das eleições, o dólar caía 9% ante ao real, enquanto passou a recuar 0,81% uma semana depois, após frustração do mercado com o resultado eleitoral.

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