Poucos percebem isso agora. As manchetes alarmistas sobre petróleo e diesel ofuscam a visão de quase todos.
Mas, discretamente, adaptações em larga escala estão surgindo e em breve tornarão o Estreito de Ormuz irrelevante. Os preços do petróleo estão altos agora.
Isso não vai durar, com consequências boas e ruins para o Brasil. Desde março, analistas do mundo todo previam um desastre se a guerra com o Irã não terminasse...
rapidamente. Mas ela continua.
O Estreito de Ormuz era frequentemente visto como decisivo: era tudo ou nada. Proliferaram previsões de petróleo a US$ 250.
O Brasil reduziu drasticamente os impostos sobre combustíveis e subsidiou o gás de cozinha. Para garantir o abastecimento interno, seu governo instituiu impostos insensatos sobre a exportação de petróleo bruto e diesel.
(Os preços são definidos globalmente, e essas medidas desestimulam o aumento da oferta.) Mas o desastre global que tantos temiam não aconteceu.
Por quê? Os preços transmitem sinais. E o petróleo caro sinaliza aos produtores que eles precisam se adaptar.
Agora, multiplicam-se adaptações positivas que poucos imaginam. Em junho, expliquei que as disparadas do petróleo provocadas pela guerra perdem força rapidamente, pois os mercados já incorporam aos preços consequências menores que as temidas.
Foi o que aconteceu. O petróleo caiu do pico de US$ 138, em 7 de abril, para US$ 69 (nível anterior à guerra) em 2 de julho, antes de voltar a subir.
O quê, por quê e como? Adaptação. Oleodutos transportaram enormes volumes de petróleo dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, contornando o estreito até o porto de Fujairah e o terminal de Yanbu, no Mar Vermelho.
A produção fora do Golfo aumentou em todo o mundo. Então, quando rebeldes houthis apoiados pelo Irã interromperam o tráfego no Mar Vermelho, os temores voltaram, intensificando-se após ataques iranianos a navios.
Em setembro, cresceram ainda mais, quando drones paralisaram o Oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, que leva petróleo até Yanbu. Os preços do petróleo voltaram a subir, aproximando-se das máximas de abril.
O diesel disparou. O que ainda falta considerar? Os preços altos incentivam o aumento da oferta por meio de adaptações inovadoras.
Essas adaptações já estão surgindo, enquanto as exportações de petróleo do Golfo se aproximam de 85% dos níveis anteriores à guerra, sem que haja paz. Em breve, Ormuz será uma preocupação do passado.
Como? Os sauditas, mestres em infraestrutura energética, restabeleceram 80% da capacidade do Oleoduto Leste-Oeste em apenas três semanas. Eles aprenderam a atravessar Ormuz discretamente.
Petroleiros de pequeno porte cruzam o estreito sem chamar atenção e transferem o petróleo para navios maiores fora dele. Eles evitam os houthis transportando petróleo de Yanbu ao Egito e, de lá, enviando-o a outros destinos.
Outras adaptações estão a caminho. Em breve, a Arábia Saudita poderá ampliar as exportações de petróleo em 3 milhões de barris por dia por meio da modernização das estações de bombeamento e da conversão engenhosa de um gasoduto existente para transportar petróleo bruto.
Essa conversão poderá permitir o transporte de mais de 1 milhão de barris por dia até o fim do ano. A produção dos Emirados Árabes Unidos acaba de bater recorde.
O país está duplicando a capacidade dos oleodutos que contornam Ormuz. Comboios de caminhões cruzam os desertos levando mercadorias aos portos.
Até o gás do Catar já é transferido entre navios, seguindo depois para aquecer residências europeias. O Iraque retomará em breve a operação de seus oleodutos em direção ao oeste.
E há também as Américas. A produção de energia brasileira cresceu 18% em agosto em relação ao ano anterior, atingindo um novo recorde.
Com o aumento da produção de gás e da demanda asiática, a Petrobras já avalia exportar gás natural liquefeito. Juntos, Estados Unidos, Argentina, Brasil, Canadá, Guiana e Venezuela elevaram a produção em mais de 2 milhões de barris por dia desde o início da guerra.
A produção de gás dos EUA bateu recorde em julho, impulsionando as exportações. E vem mais por aí.
Tudo isso logo vai recompor os estoques esgotados, fazendo os preços voltarem aos patamares de julho e de antes da guerra. As implicações para sua carteira de investimentos são claras.
As ações de petroleiras são mais sensíveis aos preços do que ao volume produzido. Os preços altos beneficiam os mercados brasileiros, com forte peso do setor de energia.
Por isso, a alta de 28% do Ibovespa até meados de outubro supera de longe a valorização de 4,5% das ações globais. Mas essas adaptações discretas e ainda não refletidas nos preços estão prestes a produzir efeitos.
Diversifique agora seus investimentos globalmente para se proteger da queda dos preços do petróleo. Ken Fisher é o fundador, presidente executivo e codiretor de investimentos da Fisher InvestmentsE-mail: ken@fi.com
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