“Não procede. Eu nunca defendi tabelamento de juros.
Não tenho absolutamente nenhuma identidade com isso.” Foi assim que o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, respondeu nesta segunda-feira (2/10) às informações de bastidores que o apontavam como o principal articulador da tese de André Lara Resende dentro do governo. Mercadante entrou em contato com a coluna e negou também que Lula tenha um encontro marcado com o economista.
“O presidente não tem nenhuma agenda com André Lara marcada”, disse. Ele não descartou uma conversa mais adiante, mas só depois que a nova equipe econômica estiver definida.
“Eu não vejo nenhum problema de conversar com André Lara Resende. Assim que o presidente definir qual é a equipe econômica, a equipe senta, ouve, conversa com ele, com outros economistas.
É um economista renomado.” O ponto central, para ele, é outro.
“Não existe nenhuma discussão, não teve durante a campanha e não tem no governo, nenhuma proposta de tabelamento de juros.” E completou: “Não pode colocar nas minhas costas o que não procede.” Mercadante deixou claro de quem é a palavra na economia.
“Quem define, quem fala pela economia é a equipe econômica. Eu sempre fui muito disciplinado nisso, durante todo o período do Haddad, e tenho sido com o Dario, dado todo o apoio.” Disse ainda que passou o domingo em contato com o ministro da Fazenda.
“Ontem conversei várias vezes com o Dario. Estamos totalmente alinhados nessa questão.”
E resumiu o próprio papel numa frase. “Eu não sou senador, eu sou presidente de um banco público.
Tem o ministro da Fazenda, é ele que fala sobre economia. Eu falo pelo BNDES.”
A frase cabe na boca de poucos com a tranquilidade com que ele a disse, porque poucos têm tanto a mostrar no cargo que ocupam. Em 2025, o BNDES registrou lucro recorrente de R$ 15,2 bilhões, o maior da história da instituição.
No mesmo ano, o banco bateu recorde na concessão de crédito, com R$ 366 bilhões injetados na economia, avanço de 32% em relação ao ano anterior. Isso equivale a cerca de R$ 1 bilhão por dia irrigando empresas, infraestrutura e projetos pelo país.
A carteira de crédito chegou ao maior patamar desde 2016, e os ativos bateram recorde histórico. O ritmo não diminuiu em 2026.
O lucro recorrente do primeiro semestre foi de R$ 9,2 bilhões, alta de 25% sobre o mesmo período de 2025. Em 12 meses, chegou a R$ 17,1 bilhões.
O dado mais eloquente, porém, é o que mede a qualidade da gestão. A inadimplência do BNDES está em 0,05%.
A do sistema financeiro nacional é de 4,68% no geral e de 0,66% para grandes empresas. O banco empresta mais do que nunca e quase ninguém deixa de pagar.
Não há banco privado no país com esse resultado. Mercadante costuma dizer que a presença do Estado na economia não é uma excentricidade brasileira.
Há 558 bancos públicos de desenvolvimento no mundo, com US$ 23 trilhões em ativos, o equivalente a 10% do PIB global. Para ele, o desafio nunca foi ter um banco público, e sim tê-lo eficiente.
“Uma empresa 100% pública pode ser muito bem administrada, com muita eficiência e produtividade”, disse ao apresentar o balanço de agosto. A crítica mais frequente ao banco é o crédito subsidiado, e a resposta está na própria carteira.
Dois terços dos recursos são emprestados a taxas de mercado. O subsídio fica concentrado onde o setor privado não entra sozinho, como inovação, transição energética e áreas de maior risco.
“Não tem inovação se o Estado não correr risco”, repete Mercadante. A Embraer, construída ao longo de décadas com o apoio do BNDES, do ITA e do Inpe, é o exemplo que ele mais gosta de citar.
Depois das enchentes no Rio Grande do Sul, o BNDES colocou cerca de R$ 29 bilhões na economia gaúcha e passou a coordenar o estudo de reconstrução do estado, segundo Mercadante. O Rio Grande do Sul voltou a crescer acima da média nacional.
Na agenda ambiental, o banco abriu uma linha de R$ 14 bilhões para restauração florestal e plantio de espécies nativas, com meta de chegar a 350 milhões de árvores. Na fronteira tecnológica, diversificou a carteira para inteligência artificial, minerais críticos e terras raras.
Mercadante chegou ao BNDES sob desconfiança. O mercado temia a volta de um banco usado para escolher campeões e queimar dinheiro público.
Quatro anos depois, o resultado é o contrário: o banco lucra como nunca, cobra como poucos e devolve ao Tesouro em vez de pedir ao Tesouro. Nesta segunda, Mercadante também mostrou que sabe o tamanho do próprio papel.
Desfez em poucas frases um ruído que poderia ter custado caro na véspera do Copom e reafirmou a disciplina com a equipe econômica. Num governo que precisa de quadros capazes de entregar resultado sem criar problema, ele entrega as duas coisas.
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