A gestão de compras nas corporações brasileiras vive um momento de inflexão e passa a ocupar papel estratégico nas decisões de negócios. Para mapear essa dinâmica, o Índice de Maturidade em Compras (IMC) 2026, criado pela Live University | Inbrasc, analisou o nível de desenvolvimento do setor de suprimentos em 130 empresas brasileiras de médio porte.
Entre os negócios com faturamento anual na faixa de R$ 50 milhões a R$ 300 milhões, 6% podem ser considerados referência em maturidade de compras. O IMC classificou a maturidade de compras das empresas em cinco níveis: inicial, em desenvolvimento, estruturada, avançada e referência.
Nas empresas com faturamento anual entre R$ 50 milhões e R$ 300 milhões, a metade (50%), apresenta esse setor estruturado. Em 25%, a maturidade de compras é avançada, enquanto em 13% está em desenvolvimento.
Outras 6% estão em estágio inicial. Ainda segundo os dados, o grupo de empresas nos níveis mais elevados (avançada + referência) subiu mais de 12 pontos percentuais: de 19% para 31% na comparação anual.
O índice entabulou os resultados em uma pontuação de 0 a 100, a partir de dez dimensões em processos no setor. No caso de corporações de médio porte, ele chegou a 63,4 pontos.
Ficou abaixo do mercado como um todo (67,4) e das grandes empresas (68,2), contudo. A maturidade de compras foi mensurada pelo nível de evolução dessas áreas no dia a dia operacional, segundo Alex Leite, diretor-executivo da Live University.
“Ou seja, Assim, a maturidade não depende apenas do porte da empresa ou da infraestrutura tecnológica, e sim do desenvolvimento da área com um todo", diz. Para exemplificar os resultados do estudo, Leite cita duas empresas, que fizeram parte da análise e obtiveram resultados distintos, uma alcançou 80 pontos no IMC, enquanto a outra ficou com 48.
O executivo observa que, na de maior maturidade, o setor de compras já ocupa um espaço estratégico. É uma área que participa das decisões e conta com profissionais capacitados, avalia.
Na indústria que ainda está em processo de amadurecimento no que se refere a compras, as atividades desempenhadas por essa área ainda são bastante operacionais. Leite diz que esse perfil foi identificado em quase todos os blocos do IMC (processos, fornecedores, gestão de riscos e competências), giram em torno de 50 pontos, sendo que a sustentabilidade na cadeia alcançou somente 25 pontos.
Gestão de risco e uso de dados “Enquanto uma empresa reconhece compras como função estratégica e investe em capacitação, a outra ainda trata a área como suporte às operações.
Com faturamento, setor e região semelhantes, a diferença de 32 pontos aponta para formas distintas de posicionar e gerir compras”, diz. Na prática, a diferença entre os estágios reflete a governança da empresa.
Em organizações de baixa maturidade, as aquisições ocorrem sem cotações padronizadas ou controle dos gastos por categoria. No nível estruturado, as compras estabelecem-se mediante políticas formais com alçadas por valor, segregação de funções e conferência entre pedido, nota fiscal e recebimento.
No estágio avançado, incorporam-se o planejamento por categoria, o custo total de propriedade (TCO), a avaliação de fornecedores e planos de contingência. Por fim, empresas referência integram o setor de compras à estratégia global do negócio, aplicam inteligência artificial (IA), gerenciam riscos e promovem a sustentabilidade na cadeia.
De acordo com o levantamento, as médias companhias destacam-se pela eficiência operacional, alcançando patamares similares aos das grandes em integração interna e competências da equipe. No segmento, 92% possuem o fluxo de compras formalizado, e 88% realizam a conferência tripla (pedido, nota e recebimento).
Por outro lado, governança e planejamento representam os principais gargalos. A pontuação em governança para as médias ficou em 66,6 pontos (frente a 78,5 nas grandes), enquanto em planejamento atingiu 60,0 pontos (contra 69,2 nas grandes).
Esse cenário é influenciado pela limitação de recursos: 55% das médias não têm áreas especializadas de compras (contra 33% nas grandes), e metade atua com equipes de até quatro pessoas, comparadas à média de 14 profissionais nas grandes. Em decorrência disso, 33% das médias possuem plano de longo prazo formalizado, e 39% avaliam a saúde financeira de fornecedores críticos.
Impactos da reforma tributária Alex Leite ressalta que o ambiente de compras vem sendo pressionado por duas transformações iminentes.
O executivo diz que a reforma tributária exige a revisão de contratos, adequação de sistemas e foco no TCO até 2033; atualmente, 50% das empresas já adaptaram sistemas e 39% realizam treinamentos. Outro ponto de atenção, segundo a Live University, é o avanço da inteligência artificial (IA) no uso individual, que está presente na rotina diária de 79% dos profissionais nas médias empresas.
Leite observa que 25% das corporações mantêm projetos formais de IA (para efeito de comparação, esse índice chega a 56% nas grandes empresas). Essa tecnologia, entretanto, lidera os planos de investimento em 86% das médias para os próximos 12 meses, diz.
Entre as empresas analisadas pelo estudo, 71% pertencem à indústria, 18% ao comércio e 12% ao setor de serviços. No recorte de regiões, 72% estão na região Sudeste, sendo 44% localizadas no estado de São Paulo.
Já o perfil de entrevistados é composto por 56% de cargos de gestão superior (44% gerentes e 11% diretores/head/C-Level), seguidos por coordenadores, supervisores ou líderes (17%), analistas (11%), compradores (11%) e especialistas (6%).
Valor