Coro em autódromo, gesto copiado na Espanha e na França e elogios da imprensa americana mostram o peso do petista Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria.
Uma semana depois de virar o jogo contra Flávio Bolsonaro (PL), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou de ser assunto só da política brasileira. O nome dele ecoou num autódromo da Cidade do México, virou slogan de comício do premiê espanhol Pedro Sánchez e passou a ser imitado com o “L” nos dedos por candidatos e militantes na Espanha, na França e no México.
O movimento consolida Lula como a principal referência de uma esquerda que vinha perdendo terreno na América Latina e na Europa e que agora tenta copiar a fórmula da campanha brasileira para enfrentar a direita nas urnas. No embalo, também voltaram a circular conteúdos fora de contexto: um vídeo antigo de discurso na Espanha apresentado como se fosse atual e postagens que colocam o presidente em viagens que não aconteceram.
Lula foi reeleito em 25 de outubro com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. Foi a primeira vez que o Brasil elegeu um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar, resultado que a imprensa internacional tratou como virada inédita.
A cena que roubou a atenção dos brasileiros aconteceu no domingo (1º), no Autódromo Hermanos Rodríguez. Logo após o fim do Grande Prêmio da Cidade do México de Fórmula 1, quando a FIA abriu os portões para o público invadir a pista antes da festa do pódio, o tradicional “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” tomou o circuito.
O gesto do “L” chegou à Espanha, ao México e à França, e Cristina Kirchner recebeu em Buenos Aires o estrategista digital da campanha petistaVídeo: Redes Sociais/X O canto foi captado pela transmissão da TV Globo e viralizou em poucos minutos.
Os relatos divergem sobre a origem: parte dos veículos fala em coro vindo da arquibancada; a Revista Fórum afirma que a música também saiu do sistema de som do autódromo. A corrida já tinha peso histórico por outro motivo: foi nela que o italiano Kimi Antonelli, da Mercedes, garantiu o título mundial de 2026 ao terminar em terceiro.
Ainda assim, nas redes brasileiras, o jingle virou o assunto do GP. A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) compartilhou o vídeo e leu a cena como reconhecimento internacional da vitória do petista sobre a extrema direita.
O uso político mais explícito veio da Espanha. Um dia depois da eleição brasileira, na segunda-feira (26 de outubro), Pedro Sánchez subiu ao palanque do PSOE em Gijón, nas Astúrias, e transformou a vitória de Lula em combustível para a própria disputa.
“Se o Brasil pôde, a Espanha pode”, disse o premiê, que enfrenta eleições gerais em 29 de novembro. No mesmo ato, Sánchez afirmou que o que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha e pediu aos militantes que se orgulhassem de ser a “aldeia gaulesa” da Europa, numa referência à resistência ao avanço da direita no continente.
A campanha socialista também passou a usar o gesto do “L” e o lema “A força da gente”, e Sánchez chegou a convidar o deputado André Janones (Rede-MG), estrategista digital da campanha petista, para colaborar. Lula retribuiu o aceno nas redes.
Afirmou que o Brasil seguirá ao lado da Espanha na defesa da democracia, da justiça social, do multilateralismo e da paz, e chamou os dois países de aliados no progressismo global. A parceria não é de agora.
Lula e Sánchez criaram em 2024 o Fórum em Defesa da Democracia e dividiram o palco em Barcelona, em abril deste ano, no principal encontro da centro-esquerda mundial em 2026. O gesto que marcou a campanha petista atravessou o oceano antes mesmo do resultado.
Horas antes da apuração, no domingo (25), a ex-prefeita de Barcelona Ada Colau, líder da coalizão de esquerda Frente Ampla, pediu que o público de um comício em Madri levantasse o braço com o “L” de Lula. No México, a presidente Claudia Sheinbaum fez o “L” com os dedos ao parabenizar o petista e também convidou Janones para uma visita de trabalho.
Na França, apoiadores de Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, passaram a gravar vídeos que começam com o “L” e terminam com as mãos invertidas formando um “M”. Na Argentina, o efeito Lula ganhou contornos de disputa interna do peronismo.
Na noite da eleição, a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner cumprimentou o “companheiro presidente” e comparou a vitória a um “17 de Outubro eleitoral”, data fundadora do peronismo. Lula respondeu no dia 27, chamando-a de “querida amiga”.
A aproximação subiu de patamar nesta segunda-feira (2). Cristina recebeu Janones e integrantes da equipe digital da campanha petista no apartamento da rua San José 1111, em Buenos Aires, onde cumpre prisão domiciliar desde que a Suprema Corte argentina confirmou sua condenação, em junho de 2025.
Antes, o grupo esteve com Sergio Massa, que articula uma frente contra Milei. O encontro coincidiu com entrevista de Cristina ao Washington Post, na qual ela questionou a condenação e não descartou voltar à disputa eleitoral.
Parte do peronismo lê a vitória de Lula como estímulo direto para 2027. O contraste com a Casa Rosada é evidente: o governo Milei não reconheceu publicamente a vitória do petista, e as relações diplomáticas entre os dois países foram rebaixadas, com os embaixadores chamados de volta.
O peso simbólico de Lula cresce justamente porque ele está cada vez mais isolado. Brasil, Espanha e México estão entre os poucos países grandes governados hoje pela esquerda.
Na América Latina, a guinada à direita ganhou reforços em 2026 com as vitórias de Keiko Fujimori, no Peru, e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, além de Kast no Chile, Milei na Argentina e Santiago Peña no Paraguai. O teste do “efeito Lula” fora do país começa agora.
A Espanha vai às urnas em 29 de novembro, a França escolhe o sucessor de Emmanuel Macron em abril de 2027 e a Argentina tem eleições no mesmo ano. Em todas, a esquerda aposta no nome do brasileiro, e a direita, no desgaste de um governo que começa o quarto mandato pressionado por um Congresso adverso.
Joice Gonçalves é repórter do ND Mais em Brasília, de onde acompanha de perto as movimentações do Congresso Nacional, os bastidores dos Três Poderes e os rumos das Eleições 2026. Possui sólida experiência política, tendo acompanhado ativamente os pleitos eleitorais, tanto municipais quanto gerais, nas edições de 2018, 2020 e 2022.
Além de escrever matérias sobre política, processo legislativo, sociedade e comportamento, produz conteúdos que explicam decisões do governo e seus impactos na vida do leitor. Formada em Comunicação pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), atua no jornalismo desde 2021 e tem experiência em grandes redações multimídia de TV e portais de notícia, com produção multiplataforma e projetos especiais que envolvem articulações políticas e o poder público.
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