As jornadas de outubro exigem um governo de novo tipo, por Wilson Muller

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As jornadas de outubro exigem um governo de novo tipo por Wilson Luiz Muller

O resultado do 1º turno da eleição presidencial de 2026, acenando com a ameaça do retorno neofascista bolsonarista, com toda a sua carga de maldades e malefícios, pôs o povo em marcha. O povo pôs Lula em seus ombros e o carregou até o pódio da vitória, numa campanha épica só comparável com a ascensão das lutas populares da década de 1980, que culminaram com a feitura da Constituição cidadã de 1988.

Milhões de homens e mulheres, adolescentes e velhos e velhas de todas as décadas, abandonaram a letargia e se colocaram em movimento. Não foram idosos, na acepção do corolário que lhes dispensa tratamento diferenciado.

 Foram mesmo velhos e velhas que sacudiram a poeira; levantaram-se de onde estavam, apesar de suas dores e seus dissabores, inconformados mais pelo futuro que se pretendia roubar das gerações vindouras do que pela promessa de melhoras de curto prazo para sua própria geração, a qual para muitos já finda.

Velhos e velhas tem consciência. Sabem que foi com luta que conquistaram melhorias para sua vida.

Que sempre foi preciso ter coragem: para enfrentar o patronato, para desafiar a mídia empresarial, para contestar os dogmas da hegemonia burguesa. E muitos, milhares, não hesitaram mais uma vez em provar  a coragem de fazer o que consideravam certo, muitos certamente com o sentimento de que era uma das últimas coisas importantes que estavam fazendo em vida.

Coragem também não faltou aos mais jovens para empreender as jornadas de outubro, uma façanha de manifestações de massa que por 21 dias sacudiu a carcomida política de futricas do país. Vinte e um dias que mudaram os rumos da campanha eleitoral, invertendo ao final o prognóstico saído das urnas do 1º turno, onde o favorito, cantado em verso e prosa pelos veículos burgueses, saiu fragorosamente derrotado por uma virada sensacional de Lula.

É no significado desses momentos, na grandeza dos sentimentos dos verdadeiros atores em movimento, que a história opera seus saltos de qualidade. Como explicar a virada sensacional?

Foram as jornadas de outubro de 2026. É preciso nominar, batizar.

Temos que tomar posse do simbolismo desse grande evento popular do campo progressista. Se deixarmos passar em branco, as elites dominantes se encarregarão de elaborar  a narrativa para a história, dizendo que as grandes manifestações espontâneas de massa de outubro de 2026 não passaram de comícios convocados com uso de muito dinheiro público.

Os jovens mostraram de forma cabal que querem um país melhor, que estão dispostos a lutar pelo futuro. Mas antes de qualquer coisa, mostraram a consciência de que não haveria futuro se não fossem derrotados os agentes do retrocesso a serviço do imperialismo estadunidense.

 Mostraram coragem os jovens, disseram para quem quisesse entender: estamos aqui e não pretendemos arredar pé. Todos, de alguma maneira, ao longo das jornadas de outubro, demonstraram que nenhum sonho se realiza sem o concurso da coragem.

Enquanto milhões de jovens marchavam pelas ruas do país inteiro, milhões de velhos  e velhas, não podendo mais contar com a força de suas pernas, aceitaram o desafio de serem guerrilheiros digitais; com dificuldade de entender a lógica das redes sociais, anotaram em bilhetes, como crianças aprendizes, para que ficasse ao alcance da mão e da memória que facilmente trai, o abecê de amei, comentar, salvar e compartilhar.

Todos queriam fazer a sua parte. Ou melhor, todos queriam fazer parte dessa grande jornada – que compreenderam como batalha decisiva – para evitar o retorno do mal, para derrotar uma visão onde o futuro se apresenta como névoa sombria,  onde se tenha que aceitar como inevitável a ideia de uma vida sem direitos, sem segurança, sem solidariedade; enfim, uma vida indigna do nome.

O que tornou possível que ocorressem as jornadas de outubro? Em primeiro lugar, a extraordinária biografia de um nordestino retirante que há mais de 40 anos protagoniza as lutas do povo mais precisado do país.

Em segundo lugar,  a consciência – que parecia morta, ou amortecida – de que qualquer avanço digno de nota nunca foi possível sem que houvesse participação e pressão popular. Falar isso agora parece uma obviedade.

E obviedades, por belas que sejam, não tem o condão de mudar as coisas. Nada disso tem interesse histórico se não se puder, a partir disso, mudar as coisas.

Diria Belchior: “amar e mudar as coisas me interessa mais”. Feito o preâmbulo, para conceder  os créditos a quem de direito pela vitória extraordinária, é preciso estabelecer que tudo isso se revelará como um desperdício no futuro  – belo, grandioso, beirando as raias do impossível – se o governo Lula não aproveitar a energia revolucionária emanada das jornadas de outubro para superar o modo de fazer política e os métodos da gestão do governo Lula 3.

Não é aceitável mais do mesmo depois das jornadas de outubro, por mais que se reconheça os avanços promovidos por Lula 3 depois de destruição promovida pelos governos Bolsonaro e Temer. É preciso reconhecer que que a rejeição ao neofascismo bolsonarista constituiu o móvel principal dessas jornadas.

Em certo sentido, isso pode inclusive ter uma dimensão política maior do que se toda essa movimentação tivesse ocorrido apenas para defender o Lula. Pois a consciência demonstrada em relação aos riscos do retorno do bolsonarismo demonstrou uma consciência política avançada presente em amplos segmentos da população brasileira.

Mas isso aumenta a responsabilidade do governo Lula 4, porque agora soará como muito pequeno se Lula fizer um governo morno, sem sal, nem quente nem frio, como foi o governo Lula 3. O povo mostrou que está disposto a lutar.

Mas quer lutar por coisas que valham a pena, não por migalhas, mas por coisas grandes; acima de tudo, o povo está disposto a lutar por uma ideia de futuro,  um futuro de que se possa fazer propaganda, que empolgue as multidões, um futuro do qual os velhos possam dizer aos seus que valeu a pena ficar tuitando sem cessar o que o comandante ordenava, que valeu a pena levantar da cama, e acompanhado de suas dores ir votar no 2º turno; um futuro que empolgue os moços, para que  possam falar depois aos filhos e netos da façanha épica de que participaram, e que depois mudou a história do país.

Depois das jornadas de outubro nada poderá continuar como antes. Se continuar igual, sairá frustrada a esperança dos milhões que lutaram por mudanças.

Chegou o momento de pensar grande. A fome do país foi superada nos governos petistas anteriores.

Chega de pensar em conceder apenas migalhas. O salário mínimo está sendo corrigido acima da inflação.

É pouco. Mas tudo foi importante.

Mas é preciso muito mais agora. Precisamos querer, povo e governo, como se vontade única fosse, querer um país onde todos prosperam, onde se supere com a rapidez possível todos os traumas que ainda carregamos por conta do nosso histórico subdesenvolvimento.

Lula 4 não tem porque continuar se submetendo a essa política escorchante de juros altos.  Lula não tem porque continuar refém de capitais estrangeiros (ou capitais nacionais disfarçados de estrangeiros) especulativos que exigem os juros mais altos do mundo para enriquecer por aqui sem produzir um parafuso sequer.

Lula tem aliados poderosos em todo mundo, há capitais disponíveis no mundo dispostos a investir aqui em coisas produtivas que não dependem desses juros abusivos. Lula não tem porque ficar refém de um congresso majoritariamente reacionário e pró-mercado.

As jornadas de outubro mostraram que o povo está com Lula, que o povo aceitará o desafio de comparecer à luta quando for convocado para as causas que beneficiam a população. Os jovens recolocaram na ordem do dia uma antiga utopia: a vida só faz sentido se houver luta.

Porque a luta só é efetiva porque é coletiva. É onde se revelam as virtudes maiores da condição humana, a que nos afasta da opressão a que o capitalismo impõe a cada um individualmente, para nos apequenar, para nos conformar com a ideia de um mundo injusto tendente a cada vez ser mais injusto.

A luta coletiva rompe esse ciclo nefasto que faz os indivíduos submergirem na indiferença e na depressão. Lula 4 precisa abrir um debate público para discutir os principais problemas do país, seu programa de governo e um projeto de país pensado e forjado coletivamente.

A política econômica não pode continuar sendo tratada como uma questão técnica sobre a qual não teria o que se fazer a não ser seguir a velha cartilha de burocratas e acadêmicos. É preciso incorporar a participação popular,  simplificar o debate, levar os grandes temas para todas as camadas da população, aprender com o povo e ensinar o povo a governar.

 É preciso criar mecanismos de interlocução orgânica e permanente entre o governo e sua imensa base social, para que o povo tencione constantemente o governo na direção dos interesses maiores da sociedade brasileira, para que tencione o governo a se afastar das pressões do mercado.

O Governo Lula 4 tem o desafio de elevar a disputa política ao seu mais elevado nível. Isso também passa pela disputa ideológica com a extrema direita, mas esse não deve ser o eixo central, pois priorizar a disputa com a extrema direita deixará eternamente as coisas no mesmo lugar.

A disputa central deverá ser em torno de um projeto de desenvolvimento do país onde a absoluta maioria da população se sinta contemplada. A própria montagem do governo Lula 4 deve sinalizar nessa perspectiva.

Deve apontar para o novo, romper os métodos de loteamento do governo com quadros inexpressivos e aliados de última hora que não agregam nada, nem na luta política nem na boa governança. Lula 4 deve se apoiar essencialmente na força popular que lhe deu a vitória.

Lula 4 tem tudo de que precisa para fazer um governo de superação e de grandes avanços. Lula tem a coragem, a virtude mais importante dos grandes líderes.

Coragem demonstrada ao longo de toda sua trajetória política. Ninguém lidera um povo por 40 anos se não tiver muita coragem.

Lula é hoje um líder inconteste, no Brasil e no mundo. Lula assume o 4º mandato podendo fazer o melhor mandato da história.

Wilson Luiz Muller – Auditor-Fiscal da Receita Federal aposentado O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN.

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