Divergências sobre empréstimos e investimentos já provocaram embates entre os governos e até uma ação no Supremo Tribunal Federal Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria.
A relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve continuar marcada por disputas políticas e cobranças sobre investimentos federais. Mesmo antes das eleições de 2026, os dois governos já acumulavam divergências sobre a liberação de recursos para obras de infraestrutura, financiamentos e a participação da União em projetos estratégicos para o Estado.
Entre as principais demandas do Palácio dos Bandeirantes estão a liberação de operações de crédito com aval do governo federal, o cumprimento dos aportes previstos para grandes obras de mobilidade e a continuidade de parcerias em projetos de infraestrutura. O tema ganhou dimensão durante a campanha eleitoral.
Em agosto, o governo paulista chegou a recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal) para pressionar a União a autorizar um empréstimo de R$ 5,45 bilhões junto ao Banco do Brasil. A Procuradoria-Geral do Estado alegou demora na análise da operação e questionou a diferença de tratamento em relação a financiamentos solicitados por outros governos estaduais.
A cobrança foi direcionada ao Ministério da Fazenda, então comandado por Dario Durigan. No dia seguinte à apresentação da ação, em 12 de agosto, o ministro assinou o despacho que autorizou a garantia da União para a operação.
O episódio expôs o desgaste entre as administrações e a disposição de Tarcísio de judicializar divergências com o governo federal. A principal frente de negociação entre São Paulo e Brasília é a mobilidade urbana.
O governo paulista busca financiamento e garantias federais para tirar do papel projetos de expansão do metrô, modernização dos trens metropolitanos e construção de novas ligações ferroviárias e rodoviárias. A operação de R$ 5,45 bilhões autorizada em agosto contempla seis empreendimentos: a Linha 6-Laranja do Metrô, com R$ 2,26 bilhões; a Rodovia dos Tamoios, com R$ 1,19 bilhão; a extensão da Linha 5-Lilás entre Capão Redondo e Jardim Ângela, com R$ 962 milhões; a expansão das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, com R$ 556 milhões; melhorias nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, com R$ 266,5 milhões; e o sistema de travessias hídricas, com R$ 213,7 milhões.
Outra prioridade é a expansão da Linha 2-Verde do Metrô, que prevê a ligação entre Vila Prudente e a Penha, com oito novas estações nessa primeira etapa. O projeto também integra o pacote de investimentos financiados pelo BNDES.
Em março de 2026, foram assinados contratos de R$ 2,4 bilhões para as obras civis da expansão e de R$ 3,2 bilhões referentes à segunda etapa do financiamento do Trem Intercidades Eixo Norte. O trem deverá ligar São Paulo a Campinas em um percurso de 101 quilômetros, com serviço expresso e parador.
A expectativa é beneficiar municípios da região metropolitana e do interior, além de ampliar as alternativas de deslocamento entre as duas cidades. Os dois contratos, somados, representam R$ 5,6 bilhões em financiamentos do banco público federal.
Um dos projetos mais simbólicos da relação entre os dois governos é o túnel imerso que ligará Santos a Guarujá, no litoral paulista. Orçada em aproximadamente R$ 7 bilhões, a obra é uma parceria entre os governos estadual e federal e integra o Novo PAC, programa de investimentos do governo Lula.
O empreendimento prevê uma ligação de 1,5 quilômetro, sendo 870 metros submersos, com faixas para veículos, transporte público, pedestres e ciclistas. A construção é estratégica para a mobilidade da Baixada Santista e para o funcionamento do Porto de Santos.
Apesar da parceria, os governos já divergiram sobre a participação financeira de cada um e a divulgação do projeto. Em abril de 2026, depois de depositar R$ 561,8 milhões para desapropriações e reassentamentos, o governo paulista enviou um ofício à União cobrando a realização dos aportes federais previstos para a obra.
Do outro lado, o governo federal sustenta que mantém uma política de financiamento e investimentos para São Paulo, independentemente das divergências partidárias. Durante os embates sobre a liberação de empréstimos, o Ministério da Fazenda afirmou que, desde janeiro de 2023, a União havia concedido aval para R$ 250 bilhões em operações de crédito de estados e municípios em todo o país.
Desse total, R$ 30 bilhões foram destinados ao governo paulista. A pasta também argumentou que a média anual de concessões de aval para São Paulo entre 2023 e 2026 foi mais de três vezes superior à registrada historicamente pelo Estado.
Em relação ao empréstimo questionado no STF, a Fazenda alegou que o processo seguia os trâmites regulares e que houve solicitações de complementação de documentos e informações ao governo paulista. Em março, Lula também cobrou publicamente o reconhecimento da participação federal nas obras realizadas no Estado.
Durante agenda em Araraquara, o presidente criticou a ausência de Tarcísio em eventos do governo federal e afirmou que o governador deveria reconhecer os investimentos da União. A declaração ocorreu em meio à disputa sobre a autoria e a participação financeira dos governos no túnel Santos-Guarujá.
Na ocasião, Lula afirmou que o Estado deveria reconhecer que determinadas obras não eram exclusivamente estaduais ou federais, mas resultado de uma atuação conjunta. O governador, por sua vez, já havia defendido publicamente a importância de deixar divergências políticas de lado para viabilizar projetos de interesse da população.
A continuidade das parcerias em infraestrutura deve ser um dos principais testes da relação entre os governos. Embora parte dos financiamentos reivindicados pelo Palácio dos Bandeirantes tenha avançado ao longo de 2026, outros projetos ainda exigem coordenação entre União e Estado.
Tarcísio precisará conciliar a cobrança por recursos e investimentos com a necessidade de manter canais institucionais de negociação. Para Lula, a relação com o maior Estado do país também envolve interesses econômicos e políticos, já que São Paulo concentra projetos estratégicos de mobilidade, infraestrutura e desenvolvimento industrial, além de ter peso expressivo na economia nacional.
Camila Souza é repórter do ND Mais em São Paulo, de onde apura e escreve sobre os principais assuntos da maior cidade do Brasil. Integrante do Núcleo Nacional, cobre política, economia, segurança pública e o que mais impacta a população do estado.
Acompanha especialmente movimentações políticas e o que acontece na Grande São Paulo, incluindo a capital paulista, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco e a região. Formada pela UniRitter, em Porto Alegre, trabalha com comunicação desde 2020 e tem experiência em redação multimídia e edição de conteúdo, com passagens por portais de notícias e jornal impresso.
Foi repórter nas Eleições 2022 e integrou o Projeto Comprova, iniciativa nacional de checagem de fatos. Leia mais ▾
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