Lula mudou estratégia após fechar 1º turno em desvantagem

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Fonte da notícia: Valor Valor

Lula em campanha: petista passou a ouvir jovens com forte presença digital, como a deputada federal eleita Ana Elisa Santos (PT-MG) Domingos Peixoto/Agência O Globo —16/10/2026

No dia 4 de outubro, quando a apuração dos votos da região Nordeste não foi capaz de dar o impulso necessário para fazer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ultrapassar o senador Flávio Bolsonaro (PL), o silêncio tomou conta de toda a equipe petista que acompanhava a apuração em um hotel em São Paulo.

O resultado mudou o rumo da noite, que contava até com planos de ir para a Avenida Paulista comemorar a eventual vitória no primeiro turno, e fez com que Lula, enfim, vestisse o chapéu de candidato, cedesse aos conselhos de aliados e utilizasse, de forma mais acentuada, a máquina federal.

Cético em relação ao alcance das redes sociais, também aceitou fazer selfies e lives. A derrota na primeira fase mostrou que a biografia que a campanha tanto explorou - a de um presidente experiente, eleito três vezes - não seria capaz, por si só, de derrotar o sentimento de mudança da população.

No dia seguinte, 20 dias antes de segundo turno, Lula reuniu seus aliados e deu início a um freio de arrumação para reverter o placar. Em um encontro feito no final da tarde de 5 de outubro, em Brasília, o presidente ouviu dicas de aliados e se dispôs a mudar algumas abordagens que, na visão desses parceiros, precisavam de uma reformulação urgente - algo que deveria ter acontecido já durante o primeiro turno.

O núcleo duro da campanha foi um dos principais alvos das mudanças, até então restrito a aliados antigos. Na segunda etapa, Lula abriu espaço para novos estrategistas e outros quadros do PT, em uma tentativa de renovar a comunicação e preencher lacunas, sobretudo na atuação nas redes.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), o líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE), e o senador eleito pela Bahia Rui Costa (PT) foram alguns dos principais nomes incorporados ao grupo. Se, em um primeiro momento, os conselheiros mais próximos evitavam expor o presidente diante da crise política envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e das acusações contra seu filho mais velho, o Lulinha, o segundo turno foi marcado por uma campanha mais ostensiva.

Segundo relatos de interlocutores, Lula subestimou Flávio e a força do bolsonarismo, e isso fez com que o petista se recusasse a descer da cadeira de presidente e se portar como candidato. Até então resistente a gravar vídeos para as redes sociais, Lula reservou um espaço diário na agenda, geralmente no início da manhã, para produzir conteúdos em formato de selfie.

Também ampliou o círculo de interlocutores e passou a ouvir jovens com forte presença digital, que o orientaram sobre linguagem e abordagem, a exemplo da deputada federal eleita Ana Elisa Santos (PT-MG), de apenas 21 anos. Com mensagens que iam de pedidos de mobilização nas ruas a ataques mais contundentes ao adversário, os vídeos viralizaram.

Para reforçar a atuação digital, até então dominada pela direita, o PT também retomou uma fórmula utilizada na campanha vitoriosa de 2022 e acionou o deputado André Janones (Rede-MG) para mobilizar a militância. O canal “Exército do Lula”, que soma quase 8,5 milhões de inscritos, tornou-se uma das principais ferramentas de mobilização para uma possível virada no domingo (25).

Combinado a essa estratégia, a campanha apostou no discurso do medo para fragilizar Flávio. Lula passou a explorar o receio de que programas sociais fossem descontinuados em um eventual governo de direita.

“Tesouraço”, passou a sugerir a equipe petista. Diante da repercussão considerada positiva, interlocutores admitiam, nos bastidores, que a comunicação da campanha “finalmente” havia encontrado um rumo.

Equipe estabeleceu como prioridade reduzir abstenção e conquistar os indecisos Em meio a esse sentimento, Lula manteve o anúncio de uma série de bondades.

Mas evitou aprofundar a discussão sobre o plano de governo. O foco foi bater no adversário e explorar os feitos de suas administrações, sem olhar no detalhe para frente, em uma estratégia calculada para evitar cobranças em um eventual quarto mandato.

Internamente, a equipe estabeleceu como prioridade reduzir a abstenção, que superou 30 milhões de eleitores no primeiro turno, e conquistar os indecisos. Para isso, passou a privilegiar caminhadas e agendas de rua em detrimento de atos tradicionais, com palcos, em uma tentativa de aproximar o presidente da população.

Na quarta-feira (21), em um ato em Minas Gerais, Lula subiu em um carro, amparado pelas pernas por aliados, para balançar uma bandeira do Brasil. Ele vai completar 81 anos no fim de outubro.

Em outra frente, a campanha distribuiu emissários pelos Estados para regionalizar o discurso e buscar apoios locais, sobretudo depois que uma parcela expressiva dos partidos anunciou apoio a Flávio no segundo turno. O Nordeste, principal reduto eleitoral do presidente, ganhou atenção especial.

A região registrou uma migração para Flávio de parte dos votos que haviam sido destinados a Lula em 2022. No primeiro turno, o petista obteve 63,77% dos votos válidos nordestinos.

Agora, a meta é elevar esse percentual para pelo menos 70%. Determinado a evitar que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) chegue ao Planalto, Lula intensificou o uso da máquina e ampliou o anúncio de medidas com apelo eleitoral, numa tentativa de dialogar com diferentes segmentos.

Nas últimas semanas, lançou, por exemplo, a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana, medidas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs) e regulamentou o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos. Especialistas criticam o uso da máquina e a ampliação de gastos, diante da situação preocupante das contas públicas.

Paralelamente, Lula passou a rever posições históricas do PT. Pressionado a adotar um discurso mais incisivo sobre segurança, o presidente mudou de posição sobre a maioridade penal e defendeu a redução da idade de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos.

Na tentativa de se aproximar do eleitorado religioso, também lançou cartas a evangélicos e católicos, repetindo uma estratégia usada em 2022. Outra cartada de Lula foi tentar neutralizar as tradicionais vinculações feitas a seu nome e sua família a escândalos de corrupção: desafiou o senador Flávio Bolsonaro (PL) a abrir os seus sigilos bancário e fiscal e de parentes.

A avaliação interna é que a campanha conseguiu encontrar seu rumo no segundo turno, mas há um ceticismo se isso será o suficiente para vencer Flávio no domingo (25). Mesmo que a equipe petista avalie que a mobilização popular e a promulgação do fim da escala 6x1 favorecem Lula, a leitura é que vazios acumulados na gestão e durante o período eleitoral podem ser determinantes para colocar um fim à vida pública do petista.

Nos bastidores, o presidente relata estar indignado com a situação e ainda demonstra dificuldade em aceitar a possibilidade de ser derrotado pelo candidato do PL que, até então, era considerado o nome menos forte entre os herdeiros políticos do bolsonarismo.

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