O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como uma “aberração” o anunciado “tesouraço” de Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário nas eleições, caso ele seja eleito presidente no próximo dia 25. O petista disse que esses cortes vão afetar diretamente as pessoas pobres do país.
Em declaração à imprensa nesta quinta-feira, o presidente citou dados do Orçamento que o seu governo herdou da gestão Jair Bolsonaro (PL), criticando a redução de repasses para programas sociais, e disse que quando um governo fala em corte, ele fala para prejudicar pobres e não ricos.
—Uma aberração do ponto de vista de proposta política que é a ideia do ‘tesouraço’ (...) No Brasil, toda vez que um governo fala em corte, quando faz teto de gastos, quando fala de ajuste fiscal, ele não fala tentando fazer com que os ricos percam alguma coisa. Eles fazem essa proposta para tirar do pobre.—afirmou o presidente.
Em seguida, Lula disse que é preciso os eleitores ficarem “atentos” para “não permitir que a sociedade brasileira seja enganada mais uma vez” e afirmou que os cortes anunciados significam "meter a mão no bolso do trabalhador". O presidente também rebateu a fala de Flávio sobre reajuste da aposentadoria acima da inflação e questionou os jornalistas se eles acreditam na declaração do adversário.
—Não tem experiência, a não ser nós, desde 2003, não tem presidente que conceda aumento aos aposentados acima da inflação. Eles não aumentarão, nunca aumentaram. O único precedente histórico é com o governo do Lula e da Dilma de aumentar o salário mínimo para os aposentados acima da inflação. Os outros nunca fizeram isso— disse Lula. O presidenciável do PL disse mais cedo nesta quinta que pretende conceder reajustes de aposentadorias acima da inflação caso seja eleito, apesar de defender um ajuste nas contas públicas.Questionado sobre a possibilidade de desvincular benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, o senador descartou economizar com aposentados, mas não detalhou como pretende conciliar a promessa de aumento real com a contenção dos gastos federais. Pesquisa eleitoral O presidente foi questionado ainda sobre o resultado da primeira pesquisa Datafolha nesta segunda rodada da eleição, divulgada nesta tarde. O levantamento mostrou que Flávio tem 52% dos votos válidos, ante 48% de Lula. O petista, no entanto, evitou comentar o resultado: —Não avalio pesquisas. Não trabalho assim. Eu trabalho sabendo que preciso ter mais votos que o Flávio para ganhar as eleições.Tenho 17 dias para isso, é minha obrigação trabalhar para ganhar esses votos.
No primeiro turno, Lula ficou atrás de Flávio no resultado das urnas, o que provocou uma série de questionamentos internos na campanha do petista com críticas, sobretudo, à comunicação, e ao comando da equipe, chefiada por Edinho Silva, presidente do PT. Na quarta, em conversa com parlamentares do PT, o presidente afirmou que essa foi a campanha mais “mal organizada” que ele já participou em sua carreira política.
Diante do resultado, o presidente incorporou mais aliados políticos ao núcleo de sua coordenação, dando espaço para os ex-ministros Camilo Santana e Rui Costa, além do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Além disso, o marqueteiro Otávio Antunes, que trabalhou em campanhas de Fernando Haddad, também participará da coordenação.
Ao ser questionado nesta quinta sobre as mudanças na equipe, Lula disse que “mudanças na coordenação não são minhas”, já que ele é o candidato. Ele afirmou que a coordenação é “dos partidos, dos aliados”.
O presidente também voltou a cobrar a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho 6x1 no Senado. Ele criticou estratégia da oposição de esvaziar a sessão de votação para impedir o avanço da proposta.
—Soube pelo noticiário que o meu adversário está propondo ao partido dele abstenção. Ele está com vergonha de dizer que estará no plenário, mas está pedindo ao PL para se abster e não assumir compromisso com a redução da jornada de trabalho— afirmou.
Em sua fala, o petista também voltou a defender o fim das bets e criticou postura contrária de times de futebol. Ele narrou um encontro que teve com uma mulher que perdeu o filho após ele se suicidar por conta de dívidas com as apostas e afirmou que as bets viraram “uma desgraça ao povo pobre”. Ele afirmou que, enquanto estiver na Presidência, “não vamos permitir que o dinheiro do leite, do pão, do feijão da família seja utilizado para enriquecer e lavagem de dinheiro”.
Ao encerrar a declaração, o presidente foi questionado sobre encontro que teve mais cedo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ele respondeu que o parlamentar vai “me ajudar a ganhar as eleições”. O partido do deputado anunciou apoio a Flávio Bolsonaro nesta segunda etapa, mas governistas dizem que o parlamentar seguirá ao lado de Lula. Motta declarou apoio público ao petista antes do primeiro turno e participou de eventos eleitorais favoráveis ao presidente na Paraíba, seu reduto eleitoral.
Além do Republicanos, Flávio conseguiu apoio dos partidos PP, União Brasil, Podemos e Novo, além de endosso dos ex-candidatos Augusto Cury, Romeu Zema e Ronaldo Caiado. A maioria dos diretórios do MDB deverão apoiar Flávio, em anúncio previsto para a próxima semana. O PSD ficou neutro, assim como o PSDB.
O Globo