A morte de Maricarmen Abascal, de 87 anos, símbolo da crise habitacional da Espanha após ser despejada da casa em que viveu por 70 anos, continua provocando homenagens em Madri e intensifica a pressão por mudanças na política de moradia do país. A idosa morreu na quarta-feira em um hospital da capital espanhola, onde estava internada desde que foi retirada de casa.
Proposta rejeitada: Governo da Espanha anuncia suspensão de despejos até 2030 em pacote para conter protestos por crise de habitação O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Aitana López, de 25 anos, se uniu aos jovens que há dez dias mantêm um acampamento improvisado com cerca de 100 barracas na Puerta del Sol, local simbólico dos protestos na Espanha. — Foi ela quem começou tudo isso — explica a estudante de moda, referindo-se à onda de protestos pelo país desde o despejo de Maricamen, em 23 de setembro. A aposentada foi retirada do apartamento depois que a empresa que havia comprado o imóvel tentou elevar em 275% o aluguel que ela pagava. Diante de um pequeno altar com flores e cartazes, Aitana questionou a falta de respostas das autoridades: — O que mais precisa acontecer para haver uma mudança de verdade? Parece que todos nós precisamos morrer para que algo comece a mudar por aqui — disse.
Mensagens como "A avó de um país inteiro" e "A luta continua" estão espalhadas pelo local. Durante a manhã, pessoas emocionadas ficam diante do memorial para prestas suas homenagens à Maricarmen, enquanto turistas circulam entre as barracas do acampamento. 'Mais uma vítima' Luis Rodríguez, de 64 anos, considera "inadmissível" que uma mulher que viveu 70 anos na mesma casa tenha sido expulsa de seu lar. — Os preços das moradias chegaram a um ponto tão absurdo, não apenas para os jovens, mas para a população em geral, de qualquer idade — denuncia. Maricarmen foi hospitalizada em estado de extrema fragilidade após o despejo, em 23 de setembro. Segundo Rodríguez, sua morte era esperada e temida. Na avaliação dele, o caso de Maricarmen foi "a gota d'água" para provocar uma onda de indignação na Espanha diante da crescente insatisfação com o mercado imobiliário espanhol. — Ela foi uma vítima, mais uma vítima. Contexto: Primeiro-ministro da Espanha convoca eleições antecipadas em meio à crise da habitação no país Na última sexta-feira, o Congresso espanhol rejeitou um pacote de medidas apresentado pelo governo do presidente Pedro Sánchez para conter a crise habitacional. Entre as propostas estava a suspensão de despejos de pessoas em situação de vulnerabilidade. Diante do impasse parlamentar, o líder socialista convocou eleições antecipadas para 29 de novembro. A aposentada Juana Sotillos, de 68 anos, diz que Maricarmen foi "uma mulher politicamente usada por uns e outros". Meses antes de sua morte, Maricarmen afirmou ao site espanhol elDiario.es seus anos de batalha para evitar ser despejada do imóvel onde vivia, depois que a propriedade foi adquirida por uma empresa imobiliária que aumentou consideravelmente o valor do aluguel. — Essa luta me custou a saúde. Já não consigo nem ficar em pé — denunciou na ocasião. Na manhã de quinta-feira, inúmeras velas, flores e mensagens de homenagem já haviam sido colocadas aos pés do prédio onde Maricarmen morava.
O Globo