Lula: presidente busca garantir o futuro da legenda após deixar o poder; PT lançará no dia 13 campanha nacional voltada à filiação de jovens Ricardo Stuckert/08/04/2026
Reeleito para o quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incumbiu o presidente nacional do PT, Edinho Silva, de pavimentar um caminho para garantir o futuro da legenda, em especial, após deixar o poder. Depois de uma campanha tumultuada, que frustrou a militância no primeiro turno, Lula alertou que o PT terá de responder ao desejo de mudança dos brasileiros, se reconectar com a base e atrair a juventude, que ocupou as ruas para alavancar a candidatura lulista.
Para cumprir a missão, entretanto, Edinho terá de administrar disputas internas e conter ruídos entre lideranças que atrapalham o governo. Depois de ouvir críticas de alguns aliados de que o PT “envelheceu mal”, Lula ponderou a Edinho que a sigla tem de abrir espaço para os jovens que saíram às ruas em todo o país, sem convocação partidária ou de sindicatos, em apoio à sua reeleição.
A vitória nas urnas dos novos deputados federais do PT, os jovens mineiros Ana Elisa, de apenas 21 anos, Pedro Rousseff, de 26 anos, e de Ana Júlia, do Paraná, também de 26 anos, deu a Lula a percepção de que há espaço para renovar o partido. Quaquá na mira
Em paralelo, Edinho enfrenta o embate interno com o vice-presidente do PT e prefeito de Maricá, Washington Quaquá. Um dos responsáveis pela aliança do PT com o ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD), derrotado na disputa ao governo fluminense, Quaquá causou mal-estar ao divulgar vídeos criticando os rumos da campanha de Lula, e as decisões da coordenação, encabeçada por Edinho.
Nos bastidores, o presidente do PT disse a interlocutores que dará andamento aos processos contra Quaquá na Comissão de Ética da legenda. No ano passado, o prefeito de Maricá foi representado ao colegiado pela ex-ministra e deputada eleita Anielle Franco (PT-RJ).
Em janeiro de 2025, ele publicou uma foto ao lado dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, que cumprem pena como mandantes do assassinato de Marielle Franco, e defendeu que não haveria provas contra eles. Ao Valor, Quaquá disse que nada que ele tenha feito seria passível de julgamento pela Comissão de Ética, e que não há crime de divergência de opinião no PT.
Segundo o dirigente, ele estaria sendo transformado em “bode expiatório” porque criticou a coordenação de Edinho na campanha. “O Lula mesmo disse que foi a pior campanha desde 1989”, relembrou.
Quaquá acrescentou que Edinho o persegue sem o aval de Lula, e que espera uma audiência com o presidente da República para esclarecer sua situação no partido. Ajuste fiscal
Outro desafio de Edinho é administrar as divergências de lideranças da sigla sobre a política fiscal, que prejudicam o governo. Em um cenário de incertezas e instabilidade econômica após a vitória de Lula, a declaração do ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, em 27 de outubro, de que não havia ajuste fiscal no radar desagradou o mercado.
Diante da repercussão negativa, o ministro se retratou nas redes sociais. Em publicação no mesmo dia, afirmou que a responsabilidade fiscal e o compromisso social “caminham como prioridade no governo”.
Acrescentou que a equipe econômica construirá com o Congresso condições para “manter as contas equilibradas e ampliar os investimentos”. Cerca de uma semana depois, Edinho e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tiveram que colocar panos quentes na crise provocada pela notícia de que Lula iria se encontrar com o economista André Lara Resende, autor de ideias consideradas heterodoxas para reduzir os juros.
A ex-ministra Gleisi Hoffmann, derrotada na eleição para o Senado no Paraná, agravou o quadro ao comemorar a informação nas redes sociais, dizendo que o projeto de Lara Resende era “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”. Depois que Edinho e Durigan foram a público negar a agenda de Lula com o economista, Gleisi voltou ao seu perfil nas plataformas para calibrar a postagem anterior.
Na nova publicação, ela explicou que ouvir uma proposta, “não significa encampá-la”, e enfatizou que Lula tem histórico de responsabilidade fiscal nos mandatos anteriores. A ex-ministra também reafirmou que o presidente não incorrerá em “estelionato eleitoral”.
Um interlocutor de Edinho ressaltou que o dirigente sempre sustentou que quem fala pelo governo sobre economia, além do próprio Lula, é apenas o atual ministro da Fazenda. O resto seria especulação, que não colabora com o país, complementou.
Campanha por filiação de jovens Em atenção especial ao apelo de Lula para ampliar o diálogo com os jovens, o PT lançará, em 13 de novembro, uma campanha nacional voltada à filiação de jovens.
Edinho também se comprometeu a dar mais voz à militância e ampliar os núcleos de base. No mesmo vídeo divulgado no fim de semana, o dirigente afirmou que transformará a sigla em instrumento de organização e de luta social, e que o PT continuará sendo o maior partido de esquerda da América Latina.
Valor