Livros para não ler

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Numa passada por uma livraria em Botafogo, vi duas jovens moderninhas com um punhado de livros nas mãos na fila do caixa. A proximidade não me livrou de ouvir a conversa.

As duas seguiam presas a um dilema: se equilibravam para sustentar a pilha de títulos selecionados, mas o peso maior estava na cabeça. Elas sabiam que, apesar da vontade, tão cedo não teriam tempo disponível para dar conta das novas aquisições.

Até que uma delas resolveu o problema: “Fica tranquila. A gente aprende até por osmose.”

De supetão, eu me lembrei de uma entrevista recente da escritora Rosa Montero. Como se não desse a mínima para a divisão natural entre os humanos que entendem de números e os outros, que só sabem das letras, a espanhola se meteu a fazer contas diante dos olhos do público.

Sem titubear, disse-se lisonjeada com o afeto desmedido dos fãs brasileiros. Afinal, sabe que cada escolha de leitura tem um valor imenso.

Todas as vezes que alguém decide ler um de seus livros e enfrenta a viagem literária até o fim, essa pessoa faz uma dupla renúncia. No ato, abre mão de ler qualquer um dos cerca de 45 mil títulos que as editoras brasileiras põem para circular todos os anos.

E, como se não fosse suficiente, no longo prazo, gasta uma das poucas vagas da cota de livros que cabem numa vida. Com a calma dos sábios, explica o enigma aritmético.

Se lêssemos um livro por semana, dos 10 aos 80 anos, não daria tempo de ler mais do que uns três mil livros em uma encarnação. O número já seria surpreendente se o mundo produzisse leitores com tempo, atenção e voracidade como outrora.

Quem de nós ainda pode se orgulhar de tal ritmo de leitura? A maioria de nós se interessa mais pelo pace da corrida matinal, o ritmo dos batimentos cardíacos e a sequência dopaminérgica de vídeos no TikTok do que o caminhar lento das páginas dos livros. Vira e mexe, novas pesquisas sobre hábitos de compra e leitura dos brasileiros tomam as páginas dos jornais e confirmam aquilo que se vê pelas ruas.

A mais recente, a “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, dá o tom do que vem por aí. Nos próximos anos, será mais fácil encontrar cabelo em cabeça de careca do que leitores.

Pela primeira vez desde que a pesquisa começou, em 2007, quem não lê é maioria: 53% dos brasileiros não se apegaram nem a um pequeno trecho de livro nos três meses anteriores à entrevista. No entanto, apesar do fastio, eles seguem comprando.

Puxado pelo sucesso dos livros de colorir e dos “cafés com Deus”, o varejo de livros faturou mais de R$ 3 bilhões em 2025, quase 9% a mais do que no ano anterior. E 2026 segue no mesmo embalo.

Eu, dono de mais de sete mil livros que repousam na tranquilidade da biblioteca de casa, continuo acreditando na ideia de que tais objetos, para além do uso, são ótimas companhias. Como aprendi com Daniel Miller, antropólogo britânico, a nossa relação com as coisas é sempre dialética.

Nós as inventamos na mesma medida em que elas nos inventam. Os livros espalhados pela casa (mesmo aqueles que jamais foram abertos) seguem nos ensinando como professores silenciosos.

Só o fato de estarem lá, mudos, nos lembra do tamanho da própria ignorância, nos impulsiona a procurar saber e reforça a ideia de que todo conhecimento é coletivo. Sendo assim, não é exagero: aprende-se até por osmose.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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