De Pero Vaz de Caminha a Getúlio, passando por Jânio Quadros e Flávio Bolsonaro, como as cartas ajudaram a construir a História política do Brasil

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A esta altura, em pleno 2026, quando todo mundo só conversa por mensagens curtas no celular, muitas dessas escritas por inteligência artificial, parece anacrônico que o tema da semana tenha sido uma... carta.

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Mas é importante lembrar que a carta escrita por Flávio Bolsonaro é mais uma missiva entre tantas da história política brasileira. O senador, candidato derrotado à Presidência, divulgou seu texto após fugir para os Estados Unidos, a fim de evitar investigações de corrupção contra ele.

O seu tom foi golpista: acusou fraudes na eleição em que perdeu para Lula, mas sem apresentar uma única prova, e numa primeira versão ainda disse que ele era o verdadeiro presidente do Brasil. Essa carta de Flávio Bolsonaro foi bastante criticada, até mesmo por aliados, e provavelmente não terá nenhum efeito prático no país — além de um desserviço literário a uma tradição epistolar rara, intensa e contínua, como tem o Brasil.

Ele é bem diferente da coleção de cartas que percorrem nossa História já a partir de 1500 e que são lembradas ao longo dos séculos. — A carta é talvez o principal documento de nossa história política, que revela o que está diante dos nossos olhos, mas não temos coragem de ver — diz Paulo Roberto Pereira, historiador, doutor pela UFRJ e autor de “Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil”.

— Ela traduz a ânsia do povo de querer esse destino. Certidão de Nascimento do Brasil

Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, falou para Pero Vaz de Caminha, escrivão de sua frota, avisar ao Rei Dom Manuel I. Datada de 1º de maio de 1500, a célebre correspondência enviada por Caminha descreveu a terra encontrada pelos navegadores e, especialmente, seus habitantes.

No trecho mais famoso, ele mostrou sua surpresa diante da nudez dos indígenas, “sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.” — Caminha escreveu a certidão de nascimento do Brasil.

O nosso documento fundador é uma carta, que é também o primeiro texto literário, atento aos detalhes — diz Pereira. Porém, na época, como a tipografia era controlada pelo governo, a carta foi para Portugal e ficou guardada.

Foi apenas em 1817 que Manuel Aires de Casal transcreveu e a publicou pela primeira vez. O original do documento, em sete folhas de papel manuscritas e um total de 27 páginas de texto, encontra-se guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

O texto de Caminha, para Elizama Almeida, pesquisadora de literatura epistolar, tem um grau de legitimação, a fim de adquirir um espaço de controle e de domínio em prol dos portugueses: — A carta de Caminha monta um mito de fundação do Brasil pelos portugueses.

Ele faz uma espécie de relatório e, por essa escrita, é como se o Brasil começasse ali. Mas isso não é verdade.

A gente tem todo um repertório de costumes e hábitos que não estavam escritos, mas que já estavam lá — diz Elizama Almeida. Três séculos depois, em setembro de 1822, outras correspondências tiveram influência mais imediata.

Quando Dom Pedro I estava em São Paulo, sua mulher, Maria Leopoldina, assumiu temporariamente a regência no Rio de Janeiro e participou das decisões que levaram à ruptura com Portugal. Em uma carta atribuída à futura imperatriz, ela alertava o marido para a gravidade da crise política e a necessidade de agir rapidamente.

“O pomo está maduro, colhei-o já”, escreveu Leopoldina. Busto de José Bonifácio

Divulgação / Museu Imperial Também naquela época, José Bonifácio, um dos principais articuladores da Independência, foi outro a escrever a Dom Pedro defendendo uma reação às exigências portuguesas.

A carta foi levada por um mensageiro e alcançou o regente em 7 de setembro de 1822 às margens do Ipiranga, ajudando a convencê-lo de que a separação era inevitável. E daí veio o “Independência ou morte”.

Aquelas cartas de Leopoldina e Bonifácio tiveram a função de encurtar distâncias, algo extremamente relevante num país continental como o Brasil. É por isso que as epístolas se tornaram tão populares e relevantes, inclusive para marcar o início da colônia, defender a República e, a partir do século XX, debater a democracia.

— São cartas que aproximaram os tantos Brasis que existiam. E, pensando num laço mais utópico, na construção de um mundo mais fraterno, todas foram produzindo memórias e ideias de futuro — explica Marco Lucchesi, presidente da Biblioteca Nacional e membro da Academia Brasileira de Letras.

Escrever para o futuro Já no século XX, poucas cartas brasileiras tiveram repercussão tão intensa quanto a Carta-Testamento de Getúlio Vargas, divulgada após seu suicídio, em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

É aquela em que ele escreveu: “Saio da vida para entrar na História”. O museólogo André Angulo arruma o pijama que Getúlio Vargas vestia quando se matou.

Revólver usado no suicídio e máscara mortuária também estão em exposição no Museu da República Custódio Coimbra

O suicídio e suas razões justificadas naquela carta ajudaram a transformar Vargas, que enfrentava pressões para deixar o poder, em símbolo de uma causa popular. Multidões saíram às ruas em manifestações de luto e revolta, e aquelas palavras póstumas alteraram profundamente o ambiente político do período.

— Uma carta é uma espécie de deslocamento. Eu escrevo agora para um futuro em que já não estarei, que ainda não existe.

Mas, quando o futuro chegar, eu de alguma forma poderia estar nos olhos de quem lê a minha carta e me contempla — diz Lucchesi. — É o caso da carta de Getúlio.

Ele não escreveu só para os contemporâneos, ele escreveu principalmente para o futuro. Sete anos depois, outra carta presidencial provocou mais uma crise institucional.

Em 1961, Jânio Quadros comunicou ao Congresso Nacional sua renúncia após sete meses no cargo. Na justificativa, expressa numa carta, o presidente apresentou-se como vítima de adversários que impediam seu governo alegando que “forças terríveis levantam-se contra mim”.

A renúncia surpreendeu o país e abriu uma disputa sobre a posse do vice-presidente João Goulart, rejeitada por setores militares. A crise desencadeou a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, e terminou com a adoção de um regime parlamentarista que limitava os poderes de Jango.

Depois disso, veio o golpe militar. Em 1977, uma missiva se tornou símbolo de resistência à ditadura.

Escrita por Goffredo da Silva Telles Jr. e lida no pátio da Faculdade de Direito da USP para duas mil pessoas, a Carta aos Brasileiros foi uma crítica ao regime, que reverbero u pelo Brasil, com frases como: “Para nós a ditadura se chama ditadura, e a democracia se chama democracia”.

Em 2002, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva escreveu o documento conhecido como “Carta ao povo brasileiro”, em que se comprometia com os progressos do anos Fernando Henrique Cardoso e tentava tranquilizar setores empresariais. — Foi um documento importante para tentar uma conciliação nacional.

Foi um pensamento universalizado de união para acabar com os males, como várias tantas cartas fizeram ao longo do século XX para tratar de fome, miséria e reparação histórica dos negros escravizados — lembra Paulo Roberto Pereira. Mais recentemente, em 2015, o vice Michel Temer também usou o recurso para expressar sua mágoa com a presidente Dilma Rousseff.

Numa carta em que rompia com uma Dilma já ameaçada pelo impeachment, ele disse se sentir um “vice decorativo”. Temer abriu a mensagem com uma expressão em latim, verba volant, scripta manent, que significa “as palavras voam, os escritos permanecem”.

No entanto, o mesmo gênero literário que foi usado para falar verdades também foi utilizado para mentiras. Hoje, o termo fake news é bastante comum, mas no passado o recurso apareceu em cartas, sobretudo em dois momentos marcantes.

O primeiro, em 1921, foram cartas publicadas pelo jornal Correio da Manhã atribuídas a Artur Bernardes, então candidato à Presidência, que chamavam o marechal Hermes da Fonseca de “sargentão sem compostura”. As ofensas, comprovadamente falsas, quase fizeram ele perder a eleição.

Em 1955, o texto conhecido como Carta Brandi foi divulgado a menos de 20 dias da eleição para sabotar João Goulart, candidato à vice-presidência. A suposta carta era assinada pelo deputado argentino Antonio Brandi, sugerindo uma mobilização de “brigadas de choque operárias”, para a implementação de uma “república sindicalista” no Brasil.

O texto forjado foi amplamente divulgado por Carlos Lacerda, gerando uma grave crise política a poucos dias da votação. As investigações provaram que a carta era uma farsa.

Todas essas cartas não servem apenas para olharmos o passado, como lembra Elizama Almeida: — Existe uma ideia sobre o arquivo ser um lugar passivo.

Mas os arquivos têm muito movimento. Neles há menos descobertas e mais releituras do que já foi e do que pode ser.

Eles demonstram a comoção coletiva com o que é escrito. * Estagiária sob supervisão de Marcelo Balbio

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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