'A IA não tem humanidade', diz Travis Knight, diretor da animação 'Wildwood'

'A IA não tem humanidade', diz Travis Knight, diretor da animação 'Wildwood' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Travis Knight chama de “artigos de fé” os filmes de animação em stop-motion que o estúdio Laika produz, um quadro meticuloso de cada vez. Presidente e CEO da Laika, ele dirigiu o projeto mais recente e ambicioso da empresa até agora: “Wildwood: o bosque selvagem”, em cartaz nos cinemas.

Baseado no romance de 2011 de Colin Meloy, o filme acompanha Prue McKeel, adolescente que entra num reino mágico escondido na floresta ao redor de Portland, no estado americano do Oregon. Depois do apoio, a cobrança: classe artística pede mudanças e aprimoramento nas políticas do MinC

Instituto Superior de Cinema: Nomes do audiovisual brasileiro lançam espaço para debater políticas culturais e formação profissional A jornada de “Wildwood” começou em 2010, quando Knight leu um rascunho inicial do texto de Meloy.

— Foi empolgante e aterrorizante, porque eu não fazia a menor ideia de como realizá-lo — disse Knight sobre “Wildwood” em entrevista em Los Angeles. — O que a história exigia de nós estava além da nossa capacidade.

Travis Knight, presidente dos estúdios Laika e diretor de 'Wildwood' Alex Welsh/The New York Times

A narrativa apresenta batalhas em grande escala, um elenco numeroso e cenários grandiosos. Mas, anos mais tarde e após incontáveis horas de um trabalho artesanal minucioso, o estúdio deu vida à história.

Knight refletiu sobre a escala impressionante de “Wildwood”, as escolhas criativas por trás de sua classificação indicativa e por que o stop-motion continua sendo essencial na era da inteligência artificial. Abaixo, seguem trechos editados da conversa.

Como você compararia 'Wildwood' aos filmes anteriores da Laika? Ele vai muito além de tudo o que já fizemos.

É duas vezes maior que “Kubo e as Cordas Mágicas” — que, na época, foi o projeto mais épico que já tínhamos enfrentado. Mas, agora, aquele parece um curta-metragem perto do que tivemos que realizar neste filme.

Por exemplo, a sequência de batalha no final é, de longe, o desafio técnico mais complexo que já encaramos. Durante a batalha, Prue chega a sofrer um arranhão no rosto.

Precisamos escolher o fotograma exato em que aquele corte atravessa o rosto dela, porque, nos 15 minutos seguintes do filme, esse arranhão precisa ser acompanhado — já que gravamos essas cenas fora de ordem. A violência e a maturidade de alguns temas em 'Wildwood' podem surpreender algumas pessoas.

Por que foi importante preservar esses aspectos na narrativa? É o primeiro filme com classificação PG-13 que fizemos na Laika.

Acredito, inclusive, que essa classificação seja apropriada, pois a obra aborda temas complexos e profundos para os quais os membros mais jovens da família provavelmente ainda não estão preparados. Mas, vale ressaltar, digo isso vindo de alguém que assistiu a “O Exorcista” aos 5 anos de idade.

O cinema moderno, em geral, tende a subestimar o público jovem. No entanto, os jovens vivenciam perdas.

Eles sabem o que é sentir medo. Não queríamos que a violência fosse como em um filme de ação desenfreada, ao estilo “John Wick”.

Um de nossos personagens precisa cometer um ato de violência, mas não é algo triunfante; é trágico. Por que foi importante que 'Wildwood' incorporasse Portland e seus pontos turísticos?

Lugares têm personalidades, e Portland é um local bastante incomum e singular. “Wildwood”, como cenário, reúne o que há de mais marcante no Oregon.

Buscamos inspiração em diversos locais incríveis por todo o estado para conferir a esse ambiente uma atmosfera bela e fantástica. Até mesmo os menores elementos em 'Wildwood' — como o chantilly em um chocolate quente — são criados fisicamente, fotograma por fotograma.

O que tamanha atenção aos detalhes traz para o filme? Cada elemento que você vê na tela é uma escolha artística.

Você começa com uma tela em branco; nada existe. Tudo precisa ser pensado, projetado e manipulado pelas mãos de um artista.

Alguns dos recipientes na cozinha da família McKeel estão cheios de pequenos pedaços de macarrão do tipo fusilli. Alguém percebeu que, ao furar um balde, surgiam pequenas espirais de plástico que lembram macarrão.

Não é algo em que você vá prestar atenção especificamente, mas o acúmulo de todos esses detalhes faz com que o mundo pareça habitado e vivo. A animação em stop-motion — e o trabalho artesanal que ela exige — parece ser o oposto da IA generativa.

Qual é a sua opinião sobre o uso dessa tecnologia em áreas criativas? Com a IA, toda a história da arte e da criatividade que nós, como Humanidade, inventamos coletivamente está sendo absorvida por máquinas e devolvida a nós como se fosse algo novo, algo criado.

É plágio. É roubo.

É preciso admirar o quão extraordinariamente sofisticada é essa tecnologia, mas ela não tem alma. Uma máquina não sabe como é perder alguém.

Uma máquina nunca se apaixonou. A IA não tem humanidade.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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