247 – O ativista Júlio Ritta, coordenador há 11 anos da iniciativa comunitária Cozinheiros do Bem, tornou-se alvo de boicote econômico e ataques virtuais após declarar voto e celebrar a reeleição do presidente Lula (PT). O cenário de pressão contra o projeto social, que distribui alimentos a populações vulneráveis em Porto Alegre, ganhou forte repercussão depois que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ironizou nas redes sociais o cancelamento de contratos e a perda de apoiadores sofridos pelo influenciador e cozinheiro.
Ao expor trechos das declarações de Ritta, o parlamentar bolsonarista questionou: “afinal, por que receber o dinheiro de quem é miliciano, extremista, fascista e genocida?”, escreveu o deputado mineiro, acusando o líder comunitário de estar “xingando a direita”. A investida ocorreu após o cozinheiro publicar imagens comemorativas do resultado eleitoral e afirmar que “nenhum miliciano vai ter direitos” no país.
Em resposta à série de ofensas e à perda de sustentação financeira da entidade, Ritta gravou dois vídeos no Instagram para rebater a postura do congressista e reafirmar o caráter apartidário de seu trabalho social. No primeiro registro, enquanto orientava a equipe antes do preparo de uma refeição com picanha e risoto à parisiense, o coordenador pediu que os voluntários não alimentem a polarização na internet.
“Sejam bem-vindos, galera. Olha só, hoje vai ter picanha.
E nem tem presidente aqui, viu? Quero alertar vocês que todo mundo sabe o que aconteceu aí, que essa semana a gente caiu na boca suja de muitas pessoas, de pessoas que querem atacar o projeto. Um projeto que entrega comida, entendeu? Se eu me posicionei, que eu votei em alguém, é a minha vontade pessoal, mas infelizmente na internet as pessoas não sabem separar o CPF do CNPJ.
E aqui tem pessoas que votaram no Bolsonaro. Eu não quero nem perguntar quem votou no Bolsonaro ou quem votou no Lula, porque aqui, no Cozinheiros do Bem, há 11 anos a gente faz comida para quem tem fome.
E só”, declarou o ativista. Ritta ressaltou que a entidade segue a filosofia africana “Ubuntu” — “sou quem sou porque somos todos nós” — e reforçou que a entrega de marmitas não exige qualquer alinhamento político ou religioso.
“E eu só votei em alguém – tinha que votar em alguém. E agora, porque eu não votei em um cara que tu votou, eu não posso ser teu amigo? Eu não presto? Eu fui lá e falei ‘fora a milícia’.
Eu ali ofendi o Bolsonaro e a milícia. Só que muita gente comprou aquilo para si.
O que importa é que hoje a gente vai fazer uma ação foda. Hoje, mais de 500 pessoas não vão precisar botar a mão numa lata de lixo para comer.
A porra da comida é só a ponte. Para a gente poder levar dignidade para essas pessoas, trocar uma ideia, olho no olho.
E aqui a gente não tem ligação nem religiosa, nem partidária. ‘Cozinheiros do Bem’ é livre de qualquer amarra”, completou.
No segundo vídeo, gravado diretamente no viaduto da Conceição antes da distribuição dos alimentos, o influenciador rebateu Nikolas Ferreira de forma incisiva, apresentando dados sobre o histórico do projeto — que inclui o atendimento a 96 comunidades na pandemia, socorro a mais de 1,2 mil desabrigados nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul e um total de mais de 8 milhões de refeições servidas.
“Vocês acharam mesmo que vocês iam me calar? Eu poderia ficar horas aqui discursando sobre a fome, debatendo sobre os números da insegurança alimentar… Há 11 anos eu faço isso. Só que o Brasil não tem apenas 20 anos de governo de esquerda.
São mais de 500 anos de sofrimento. Vocês acharam que vocês iam derrubar, seu moleque, Nikolas Ferreira? Eu nem conheço a tua história.
Sabe por quê? Porque eu não tenho tempo para isso. Eu acho que tu ainda estava nas fraldas quando eu comecei a servir comida nesse viaduto.
Tu é novo ainda, tem muito o que aprender. Então ao invés de propagar fake news, viajar com jatinho emprestado, eu resolvi servir a tal da picanha que vocês falavam que era a ‘picanha do Lula’”, afirmou Ritta.
Ao encerrar a manifestação, o líder comunitário fez uma provocação de cunho religioso ao parlamentar. “Então, tu gosta tanto de falar sobre dados, hein cristão? O que o teu Cristo faria se estivesse vivo hoje? Andaria só com quem tem dinheiro? Com os empresários que vocês disseram que eu ataquei? Ou iam estar aqui embaixo desse viaduto? O meu Cristo é esse, e ele não carrega uma cruz.
Ele carrega um monte de cooler cheio de comida. Risoto à parisiense, picanha ao molho demiglace, tomate cereja, alfacezinha picadinha, suco gelado, cuca e toda essa galera aqui.
Mais de 500 pessoas hoje aqui no viaduto da Conceição não vão precisar meter a mão numa lata de lixo para comer. E essa é a porra da nossa vitória! Eu sou o que eu sou porque somos todos nós.
Pau no cu, Nikolas Ferreira! Moleque!”, concluiu. Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por Julio Ritta (@julioritta)
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Brasil 247