Levante no Paraguai: queda de Santiago Peña expõe megafraude financeira e guerra na cúpula do Partido Colorado

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 — O Paraguai vive dias de convulsão social e terremoto político após a renúncia forçada do presidente da República, Santiago Peña, sua prisão e o início dos procedimentos para sua destituição no Congresso Nacional. A derrocada fulminante do mandatário foi desencadeada pelo colapso e intervenção do Ueno Bank (Banco Ueno), uma engrenagem financeira fraudulenta que capturou mais da metade da população do país e drenou centenas de milhões de dólares de fundos públicos e previdenciários.

Os bastidores e a gravidade dos acontecimentos em Assunção foram esmiuçados em edição extraordinária do programa Forças do Brasil, transmitido pela TV 247. Conduzido pelo jornalista e âncora Mario Vitor Santos, o programa reuniu diretamente da capital paraguaia os repórteres Guillermo Verón e Diego Verón, da emissora independente RTV, que acompanharam o cerco popular ao Parlamento e a tramitação do processo que sacudiu a política do Cone Sul.

A armadilha do Ueno Bank: cashback e pirâmide de Estado Durante o relato aos correspondentes e à audiência, Diego Verón detalhou a engenharia financeira montada em torno do Ueno Bank.

Em apenas três anos de operação, a instituição financeira migrou de uma modesta financeira para um colosso bancário, abocanhando mais de 3 milhões de correntistas em uma nação de pouco mais de 6 milhões de habitantes. A expansão vertiginosa baseou-se em práticas artificiais e promessas insustentáveis de mercado:

Isca do consumo: Oferta de cartões de crédito com liberação instantânea em totens automáticos 24 horas e programas de cashback com devolução de 40% a 45% do valor de compras no varejo e supermercados; Autofinanciamento piramidal: O lucro da instituição não provinha de linhas de crédito convencionais, mas da compra de empresas e concessão de empréstimos vultosos para firmas controladas pelo próprio conglomerado (o Grupo Vázquez);

Apropriação de fundos públicos: Por meio de privilégios e influência no governo, o banco passou a concentrar depósitos públicos de forma desproporcional, incluindo cerca de US$ 360 milhões do Instituto de Previdência Social (IPS), retendo o pagamento de aposentadorias de milhares de trabalhadores.

A explosão da bolha financeira levou à intervenção compulsória pelo Banco Central do Paraguai, congelando cartões de crédito, contas bancárias e pagamentos em massa. O impacto paralisou o comércio popular e gerou indignação generalizada entre pequenos comerciantes e famílias trabalhadoras, que se viram de uma hora para outra sem recursos para comprar itens básicos de alimentação e medicamentos.

Promiscuidade com o Estado e o manual das licitações Na análise transmitida no programa conduzido por Mario Vitor Santos, o jornalista Guillermo Verón denunciou que o esquema não se resumia a uma instituição privada inconsequente, mas à captura predatória da própria máquina pública paraguaia.

Santiago Peña — economista formado pela cartilha dos chamados Chicago Boys, com passagens pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Ministério da Fazenda — mantinha laços orgânicos com o grupo econômico antes e durante o exercício do poder, assim como membros de seu núcleo familiar.

A promiscuidade institucional ficou ainda mais evidente após buscas policiais que apreenderam, na residência do presidente do grupo controlador do banco, Miguel Vázquez, uma espécie de “manual” que orientava como aparelhar licitações públicas em ministérios e repartições governamentais.

O consórcio atuava desde a gestão tecnológica do Banco Central até a concorrência para fornecimento de radares militares e softwares de interceptação telefônica com tecnologia israelense. Guerra de facções no Partido Colorado: a ruptura Cartes-Peña

Para além da irresponsabilidade financeira, a derrocada de Peña foi acelerada por uma disputa cruenta pelo controle político do governista Partido Colorado. Apontado como herdeiro e afilhado político do ex-presidente Horacio Cartes — hegemônico operador da facção Honor Colorado —, Peña tentou, ao lado de seu vice-presidente Pedro Alliana, estruturar uma base de poder financeiro e eleitoral autônoma de olho na sucessão de 2028:

Afronte ao padrinho: Ao acumularem influência e capital próprio através do Ueno Bank, Peña e Alliana desafiaram a autoridade de Cartes sobre a definição das candidaturas majoritárias; Retaliação parlamentar: Em resposta à dissidência interna, senadores leais a Horacio Cartes protocolaram pedidos de auditoria e relatórios formais sobre o banco junto ao Banco Central, rompendo o sigilo e acionando o pânico bancário;

Corrida bancária: A crise precipitou-se após declarações de Alliana tentando se desvencilhar da candidatura, provocando o fechamento das agências protegidas por tropas de choque e a perda de sustentação de Peña. O embate no Congresso e a sombra da impunidade

Diante da renúncia protocolada por Santiago Peña, a sessão bicameral do Congresso Nacional converteu-se em um campo de batalha institucional. Enquanto a oposição e manifestantes concentrados nas imediações do Palácio Legislativo exigiam a continuidade do juicio político (impeachment) para julgar as responsabilidades criminais do presidente, a maioria governista atuou para aceitar formalmente a renúncia.

O objetivo da manobra é garantir a Peña o estatuto constitucional de senador vitalício, assegurando-lhe foro privilegiado e blindagem contra mandados de prisão da Justiça comum. Com a renúncia aceita, Pedro Alliana assume a presidência do Paraguai, tendo o senador Antonio Barrios — médico de confiança pessoal de Horacio Cartes — como nome apontado para a vice-presidência.

A costura política sinaliza uma nova reacomodação oligárquica no poder, enquanto as ruas de Assunção permanecem mobilizadas contra o confisco de suas economias e o desfecho de mais uma farsa neoliberal no continente.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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