Desde Franklin Roosevelt, com as transmissões radiofônicas batizadas de ‘fireside chats’ (conversas ao lado da lareira), a comunicação direta entre um líder político e grandes contingentes da população de um país contribui diretamente para a disseminação de assuntos de interesse oficial, com reflexos diretos na avaliação sobre o mandatário.
No caso do presidente norte-americano, que criou a tendência a partir da necessidade de tirar os Estados Unidos da Grande Depressão, deu tão certo que o ciclo de suas mensagens ao vivo pelo rádio durou de 1933 a 1944. A voz de Roosevelt levada a endereços de todo o país uniu os americanos no caminho da superação econômica e da vitória na Segunda Guerra Mundial.
Na Europa, também em 1933, uma das primeiras decisões do regime nazista recém-instalado foi a de incentivar a produção industrial em massa dos ‘receptores do povo’ – aparelhos de rádio baratos, que formaram a base tecnológica para as transmissões que passariam a ser feitas em benefício de Adolph Hitler, pautadas pelo ministro da Propaganda, Joseph Goebbels.
Na sociedade brasileira, em 1935, durante a vigência do Estado Novo, Getúlio Vargas criou a ‘Hora do Brasil’, que existe até os dias de hoje, sem previsão de descontinuidade, como ‘A voz do Brasil’. Ali estão notícias dos três Poderes.
Naquele início, a transmissão estatal ia ao ar entre 19h e 20h, obrigando as emissoras a suspenderem a programação para a entrada do noticioso que, muitas vezes, trazia pronunciamentos do então ditador. A imagem de ‘pai dos pobres’ associada a Getúlio teve seus alicerces de comunicação firmados ali.
No início do período de redemocratização, ao herdar a Presidência da República com a morte de Tancredo Neves, José Sarney estabeleceu, todas as sextas-feiras, a partir de 1985, a ‘Conversa ao pé do rádio’. Foi mais uma referência direta ao modelo surgido com Roosevelt.
Em suas transmissões gravadas, o vice-presidente eleito pelo Colégio Eleitoral procurava legitimar-se no lugar de Tancredo e, ao mesmo tempo, conduzir o Plano Cruzado, que congelou os preços da economia e contava com os chamados ‘fiscais do Sarney’. Nas gestões de Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer, que vieram nos anos seguintes, nenhuma experiência de comunicação direta entre os governantes e o público em geral teve regularidade ou maior relevância.
A retomada da estratégia se deu com Jair Bolsonaro, que passou a fazer lives semanais, todas as quintas-feiras, no início da noite, a partir de julho de 2019. Ele abria alas na internet, ao lado de ministros e integrantes do governo, para professar propaganda autoritária.
“A estratégia de comunicação do então mandatário (Bolsonaro), marcada por um tom informal e combativo, foi alinhada com práticas populistas de extrema-direita”, lembra a cientista social Mariana Varella, da USP, que fez um estudo em profundidade sobre a iniciativa do então presidente.
“Ele destacava a defesa de princípios conservadores e o antagonismo a autoridades, mídia e instituições científicas”. A pesquisadora agrega que o instrumento de comunicação digital foi estratégico para o presidente comandar o movimento de exposição da população ao vírus da Covid-19.
“A abordagem de Bolsonaro contribuiu diretamente para a disseminação do vírus no Brasil, o que impactou negativamente a gestão da crise sanitária”, registra Mariana. “O Presidente da República estava na contramão de tudo que se fala e conhece sobre comunicação de risco”.
Desde a quinta-feira (5), o presidente Lula tem um veículo de impacto direto no peito da população para chamar de seu. Extensão do ‘Exército do Lula’, formado na campanha presidencial pelo deputado André Janones, a ‘Live da vitória’, que o ‘general’ conduziu na forma de entrevista com o presidente, terá vida longa.
O primeiro a dimensionar a importância da ferramenta foi o próprio Lula, que incluiu Janones e suas estratégias bem sucedidas na comitiva brasileira para a COP31, em Antália, na Turquia, com início na segunda-feira (9). A continuação das lives está garantida.
Lula e Janones têm química. São dois amigos falando à frente das câmeras.
O tom coloquial, que leva o presidente da razão à emoção, deixando escapar palavrões e sendo intimista em closes para o público, explodiu. A conversa acumulou 3,3 milhões de visualizações.
Janones vai cobrar mais audiência, como fez para levar seu exército a mais de 10 milhões de soldados ao final da campanha eleitoral. Mas ele está bastante satisfeito com o conteúdo obtido agora – e já indica como serão as próximas lives.
“Essa primeira estava meio sem roteiro e faltou assunto sério – escreveu Janones em suas redes -, porque o nome era ‘live da vitória’, então o objetivo era mais leve mesmo, comemorar com vocês, bater papo e etc. Mas nas próximas vamos mesclar a leveza com assuntos mais sérios”.
Dirigir é fácil, diz ele. “Não tem segredo, não tem que dar toque no Lula, nem preparar nada, só deixar ele livre para ser quem ele é”, pontuou.
Citado pelo jornal O Estado de Minas, um internauta fez uma avaliação bastante positiva da primeira live de Lula após a vitória eleitoral: “depois da live de hoje, fica difícil criticar o Janones. Ele fez mais pela comunicação do Lula do que muita gente.
Esse tipo de comunicação deixa o presidente Lula muito mais humano e mostra a excelente pessoa que ele é. O governo tem que investir mais em lives e vídeos curtos”.
Com base no exército arregimentado por Janones para Lula na internet durante a campanha eleitoral, o presidente encontrou agora o seu jeito de fazer bem feita a boa e velha conversa ao pé da lareira iniciada por Roosevelt.
Brasil 247