“Aos vinte e nove dias do mês de outubro do ano de dois mil e vinte e seis, na sede social do Sindicato Nacional dos Cronistas de Jornal, sito à Rua Barão da Torre 42 — na cobertura que serviu de morada a Rubem Braga, presidente vitalício desta amena instituição de fins recreativos — realizou-se, na forma estatutária, esta Assembleia Geral Extraordinária.”
Sim, você já leu isso: foi a abertura da coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, na segunda-feira. A continuação explicava que o único item em votação era o pedido de “retomada imediata das atribuições originais dos cronistas — as de abrir a porta e a janela e deixar o Sol nascer — provisoriamente suspensas pelo discurso político durante o recente período eleitoral.”
Pois quero dizer que eu estava lá e fui a primeira a votar. Não abro mão do meu direito de escrever sobre a vã instabilidade da matéria, livre do calendário e das pressões ideológicas.
Sempre foi difícil escrever coluna no Segundo Caderno durante as eleições, mas este ano superou tudo o que tinha visto até aqui. Que alívio respirar de novo e poder olhar para o mundo sem precisar salvar a Pátria!
Antes da reunião dos cronistas angustiados, eu já tinha estado na cobertura agrária de Rubem Braga algumas vezes. Millôr e ele eram amigos, e volta e meia íamos lá tomar um uísque ao cair da tarde.
Eu era feliz com a minha Coca-Cola e sabia: Ipanema a meus pés, a praia logo ali, os últimos raios de sol no horizonte e aqueles dois conversando. Uma vez dois livros infantis nossos, um dele e um meu, ganharam um desses prêmios de incentivo à leitura.
Haveria uma cerimônia no começo da tarde na Biblioteca Nacional da qual eu estava determinada a fugir; mas chegou o dia e o Rubem me ligou. — Nós temos que ir, eles compraram os nossos livros.
— Depois você vai. Vou pegar um táxi e passo aí para te pegar.
Tentei argumentar, mas que nada. Naquela época, no Jornal do Brasil, eu podia me dar ao luxo de mandar a coluna de casa; não precisava ir a lugar nenhum, mas foi a desculpa que encontrei na hora.
Devia ter dito que tinha dentista marcado. Rubem me pegou na hora aprazada e lá fomos nós.
Quando chegamos, fiquei até contente de ter ido: o dia estava lindo, e eu ainda poderia flanar pelo Centro, terminada a coisa. Saí aliviada, planejava passar na Livraria Da Vinci e de lá tomar meu rumo, mas o Rubem disse que me dava carona até o jornal.
O trânsito da época ainda permitia esse tipo de gentileza. Tentei contra-argumentar, mas o homem era teimoso, e era Rubem Braga, e o que Rubem Braga dizia a gente fazia.
Assim é que fui parar na Avenida Brasil 500, na tarde de um dia que teria sido lindo para ficar em paz. Obrigada pelo mote e pelos parágrafos, querido Joaquim.
O Globo