Kalshi, do mercado de apostas preditivas, agora quer apoio de Wall Street para se tornar a ‘bolsa da inflação’ nos EUA

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A Kalshi está abrindo uma nova frente na disputa com as bolsas financeiras tradicionais ao apresentar aos maiores bancos e fundos de hedge do mundo uma proposta de mercado futuro vinculado à inflação dos Estados Unidos. Mercado de previsões: Kalshi quer chegar ao Brasil e promete diálogo com governo após veto a mercados preditivos

NYT: Polymarket fez campanha de marketing com vídeos de apostas falsas nas redes sociais, diz jornal A empresa sediada em Nova York, mais conhecida por seus mercados de previsão, planeja lançar em dezembro contratos futuros negociados em bolsa atrelados tanto ao índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) quanto ao indicador de inflação subjacente, acompanhado pelo mercado, que exclui alimentos e energia, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

A Kalshi foi cofundada pela bilionária brasileira Luana Lopes Lara. Ex-bailarina do Bolshoi e formada no MIT, ela entrou este ano na lista da Forbes como a bilionária mais jovem a ter construído sua própria fortuna, ou seja, que não é herdeira.

A principal concorrente da Kalshi é a Polymarket, outra plataforma de mercados de previsão. A plataforma opera um mercado em que usuários negociam contratos vinculados a eventos futuros, como eleições, decisões econômicas, indicadores de inflação, resultados esportivos e até acontecimentos geopolíticos.

Na prática, os investidores apostam em probabilidades: se o evento ocorrer, o contrato paga; se não ocorrer, perde valor. Esse tipo de mercado ganhou força nos Estados Unidos nos últimos meses, impulsionado pelo aumento do interesse de investidores de varejo e pelo crescimento das apostas relacionadas às eleições americanas e à economia global.

No Brasil, o governo proibiu a atuação de plataformas no mercado preditivo. ‘O cara da inflação’

A empresa contratou Michael Ashton, ex-operador do Barclays conhecido como “o cara da inflação” (Inflation Guy), para desenvolver os contratos e despertar o interesse de grandes instituições de investimento. Michael Ashton, diretor-geral da Enduring Investments LLC

Christopher Goodney/Bloomberg Os contratos seriam os únicos futuros diretamente vinculados ao CPI, dando à Kalshi uma maneira singular de atrair investidores macroeconômicos que atuam nos mercados de trilhões de dólares em contratos futuros de juros e títulos, atualmente oferecidos pelo CME Group e pela Intercontinental Exchange.

A CME tentou lançar contratos futuros de CPI no passado, mas atualmente não oferece esse produto. Riscos: Goldman Sachs proíbe funcionários de apostar em mercados de previsão sobre finanças e política

A Kalshi pretende lançar o produto em um momento em que a inflação se tornou uma preocupação central das mesas de operações, que buscam se antecipar a possíveis aumentos dos juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano. — Não existe nenhuma bolsa que negocie esse produto, e eles querem ser a bolsa da inflação — disse Ashton, sócio-diretor da Enduring Investments LLC.

Um porta-voz da Kalshi confirmou que a empresa está trabalhando em contratos futuros de CPI, mas não quis fornecer detalhes sobre o lançamento. Os contratos futuros de CPI são os mais recentes de uma vertiginosa série de novos produtos financeiros lançados pela Kalshi e por um pequeno grupo de bolsas iniciantes.

O mercado de previsões da Kalshi é dominado por apostas esportivas, mas a plataforma já oferece contratos de eventos que permitem aos clientes apostar se o CPI ficará acima ou abaixo de determinado nível a cada mês. Esses contratos binários, porém, têm atraído principalmente investidores de varejo, porque não oferecem a variedade gradual de resultados de pagamento normalmente buscada por investidores institucionais e operadores profissionais.

Expansão: Meta está desenvolvendo aplicativo de mercado de previsões que não envolverá apostas em dinheiro, diz agência A Kalshi também vem expandindo seus negócios com os chamados contratos perpétuos, ou perps, vinculados a ativos como criptoativos e commodities.

Diferentemente dos novos futuros de CPI, porém, os contratos perpétuos não têm data de vencimento, o que dificulta sua integração à infraestrutura financeira tradicional de Wall Street. Os futuros de CPI oferecem à Kalshi um novo tipo de produto e uma oportunidade de testar sua expansão para os mercados tradicionais de contratos futuros.

—Essa é uma iniciativa que eles querem levar adiante e, em certa medida, o sucesso de seu ecossistema de futuros com vencimento definido dependerá do desempenho desse produto — disse Ashton, referindo-se à Kalshi. Kalshi também vem expandindo seus negócios com os chamados contratos perpétuos, ou perps

Bloomberg Os documentos que a Kalshi está utilizando para apresentar o produto a clientes, analisados pela Bloomberg, mostram que os contratos futuros de CPI estariam disponíveis para os 12 meses de referência seguintes e, depois, para maio e novembro de cada um dos quatro anos posteriores.

As negociações ocorreriam 24 horas por dia, de domingo a sexta-feira, com a Kalshi Klear LLC atuando como câmara de compensação. Controvérsias

A expansão da Kalshi para o mercado de derivativos não ocorreu sem controvérsias. Nos últimos meses, a empresa apresentou pedidos à Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão regulador americano do mercado de derivativos, para criar contratos perpétuos vinculados ao petróleo e aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

A iniciativa representa um desafio direto à CME, que atualmente concentra os mercados de futuros mais populares para esses ativos. Terry Duffy, presidente-executivo da CME, tem criticado a Kalshi e afirmado que seus clientes institucionais demonstram pouco interesse nesse tipo de produto.

— As pessoas não conseguem gerenciar riscos com um contrato que não tem data de vencimento — disse Duffy em um episódio do podcast Odd Lots no início desta semana. — As instituições dizem: ‘É impossível negociar isso’.

Os futuros de CPI, com data de vencimento definida, oferecem à Kalshi uma maneira de responder a essa crítica e, ao mesmo tempo, competir mais diretamente com a CME, líder no mercado americano de derivativos de juros negociados em bolsa. Nesse mercado, os operadores protegem suas carteiras e fazem apostas sobre mudanças na política monetária dos Estados Unidos.

O novo produto também diversifica os negócios da Kalshi, reduzindo sua dependência dos contratos de eventos ligados a esportes, cuja operação muitos estados americanos argumentam que contorna regras e impostos aplicáveis às apostas. Processos judiciais

A Kalshi é alvo de processos nos EUA. Em julho, o estado de Nova York processou a subsidiária de negociação da Kalshi, plataforma de mercado de previsões, acusando a empresa de operar um esquema ilegal e sem licença de apostas no estado, criando mais um importante obstáculo jurídico para um setor que recebe apoio do governo de Donald Trump.

A ação, apresentada em um tribunal estadual de Manhattan, sustenta que o mercado de previsões da Kalshi expõe os moradores de Nova York — incluindo menores da idade mínima legal para apostar, de 21 anos — a “graves riscos pessoais e financeiros”. No mesmo mês, um juiz federal suspendeu temporariamente a aplicação da primeira lei dos Estados Unidos a proibir mercados de previsão, aprovada em Minnesota, ao concluir que alguns dos contratos podem ser considerados instrumentos financeiros sujeitos à jurisdição exclusiva de uma agência federal.

A liminar foi solicitada pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), pela Kalshi e pela Polymarket. Nova tentativa

O mercado americano de inflação está concentrado principalmente nos US$ 2,2 trilhões em títulos do Tesouro protegidos contra a inflação (Treasury Inflation-Protected Securities, ou TIPS), além de mais de US$ 5,4 trilhões em swaps de inflação, derivativos negociados no mercado de balcão, fora das bolsas.

Diferentemente dos operadores concentrados em títulos do Tesouro ou ações, os investidores especializados em inflação atualmente não dispõem de contratos futuros como os novos produtos de CPI da Kalshi. Esses instrumentos podem melhorar a liquidez ao reunir diferentes participantes do mercado para negociar contratos padronizados em uma única bolsa.

Já houve tentativas anteriores de criar contratos futuros de inflação, incluindo um produto lançado pela CME em 2004. Ashton, consultor da Kalshi, afirmou que os produtos anteriores não atendiam às necessidades do mercado mais amplo de TIPS.

Para desenvolver os novos contratos, ele disse ter consultado diversos fundos de hedge, gestores de ativos com estratégias de longo prazo e bancos que atuam nos mercados americanos de títulos e swaps vinculados à inflação. — Estamos mantendo conversas com empresas muito grandes, em níveis bastante elevados, em todo o mercado — afirmou Ashton.

Mark Spindel, diretor de investimentos da Potomac River Capital LLC, está entre os profissionais que conversaram com Ashton sobre os contratos da Kalshi. Segundo ele, o principal método atualmente utilizado para realizar operações vinculadas à inflação — os swaps negociados no mercado de balcão — exige extensa documentação, o que limita a participação.

Uma bolsa de futuros, por sua vez, poderia atrair novos participantes. Um mercado de futuros com grande liquidez seria “uma adição valiosa ao conjunto de instrumentos à minha disposição, assim como à de outros especuladores e investidores que buscam proteção contra riscos”, afirmou Spindel.

“Todos nós já fomos surpreendidos por movimentos inesperados da inflação”.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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