O democrata James Talarico foi eleito senador pelo Texas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), ao derrotar o republicano Ken Paxton, apoiado pelo presidente Donald Trump. Ex-professor da rede pública e presbiteriano, o político de 37 anos ganhou projeção ao defender pautas progressistas e criticar o nacionalismo cristão em um estado tradicionalmente conservador.
Mas, afinal, James pode ser considerado um político de esquerda? A sua eleição para o Senado encerrou uma sequência de 32 anos sem que um democrata conquistasse uma eleição estadual no Texas.
A última vitória democrata para o Senado federal aconteceu em 1988, com a reeleição de Lloyd Bentsen. Apesar de ser associada à ala progressista do partido Democrata, não seria possível categorizar o democrata como um político de "esquerda" como se é entendido no Brasil.
A professora Flavia Loss, do curso de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, explica que as noções de "direita" e "esquerda" existentes na política brasileira não se traduzem para o cenário dos EUA. "Por conta da Guerra Fria, a esquerda americana desapareceu", afirma Loss.
"Até tinha um partido comunista nos EUA, mas ele acabou sumindo do ambiente político e os democratas absorveram algumas dessas pautas". O mesmo vale para as matérias de costumes, nas quais os democratas acolhem temas mais progressistas, como os direitos de pessoas LGBTQIAPN+, enquanto os republicanos reúnem visões mais conservadoras.
Quem é James Talarico? Nascido em 1989, em Round Rock, no Texas, James foi criado principalmente pela mãe, que se separou de seu pai biológico quando ele ainda era bebê.
Em seu relato autobiográfico, o político afirma que a mãe enfrentou um relacionamento abusivo com seu pai biológico, que tinha problemas com o consumo de álcool e apresentava comportamentos violentos. Ele se formou em ciência política pela Universidade do Texas e fez mestrado em políticas educacionais na Universidade de Harvard.
Em 2025, concluiu também um mestrado em estudos teológicos no Austin Presbyterian Theological Seminary. Ele trabalhou por dois anos como professor de língua e literatura do ensino fundamental na cidade de San Antonio, em uma instituição que atende uma região historicamente ligada à comunidade mexicana nos EUA e marcada por elevados índices de pobreza, o que James disse, em entrevistas, ter influenciado a sua decisão de atuar politicamente.
James foi eleito deputado estadual do Texas pela primeira vez em 2018, quando tinha 29 anos, e manteve a sua cadeira na Câmara por quatro mandatos. Como legislador, ele ajudou a aprovar medidas de financiamento para escolas públicas, ampliação do acesso a programas de saúde mental para estudantes e redução dos custos de creches e medicamentos.
Entre as iniciativas estão uma reforma do financiamento escolar, a limitação do tamanho das turmas da pré-escola e uma lei que estabeleceu um teto de US$ 25 para o copagamento mensal de insulina em determinados planos de saúde. Parte da sua atuação política é ligada ao seu perfil religioso.
James é presbiteriano e costuma recorrer a passagens bíblicas para argumentar em favor de políticas de combate à pobreza, investimentos em serviços públicos e proteção a grupos vulneráveis. Ainda assim, o democrata argumenta que a religião não deve ser utilizada pelo Estado para impor crenças específicas à população.
Sua oposição ao nacionalismo cristão ganhou destaque durante debates legislativos sobre a presença de símbolos e ensinamentos religiosos nas escolas públicas do Texas. James defende que a fé deve orientar as escolhas individuais, mas não servir como instrumento para impor uma religião à sociedade.
Qual foi a sua plataforma nesta eleição? Na disputa pelo Senado, James criticou bilionários e aqueles que "estão no topo", que na sua visão, contribuem para a polarização, "para que não percebamos que estão retirando verbas das nossas escolas, destruindo nosso sistema de saúde e reduzindo impostos para si mesmos e para seus amigos ricos."
"A maior divisão neste país não é entre esquerda e direita. É entre o topo e a base.
Os bilionários querem que fiquemos olhando uns para os outros — para a esquerda e para a direita — em vez de olharmos para cima, para eles. Aqueles que estão no topo se esforçam ao máximo para nos manter irritados e divididos, porque a nossa união representa uma ameaça à riqueza e ao poder deles.
Por isso, suas redes de televisão a cabo e os algoritmos de suas redes sociais nos separam", descreve o site da campanha de James. Na economia, sua plataforma eleitoral propôs aumentar a tributação sobre os mais ricos e grandes empresas, elevar o salário mínimo federal para US$ 15 por hora e ampliar os direitos trabalhistas, incluindo licença familiar remunerada e pagamento de horas extras.
O democrata também defendeu a ampliação de benefícios fiscais para famílias de baixa e média renda e medidas para reduzir os custos de moradia. Na saúde, Talarico propôs a criação de uma opção pública de seguro-saúde que concorresse com os planos privados, além de medidas para reduzir os preços de medicamentos e ampliar o acesso aos serviços médicos.
Na educação, defendeu o fortalecimento das escolas públicas e a ampliação do acesso à educação infantil. O combate à corrupção e à influência do dinheiro na política também esteve entre as prioridades de sua campanha.
Entre suas propostas estavam a proibição da negociação de ações por parlamentares e restrições ao financiamento eleitoral por grandes grupos econômicos. Seu discurso também faz referência aos seus princípios cristãos, em especial ao amor ao próximo e à ideia de união: "Cada pessoa é sagrada — e não apenas aqueles que se parecem comigo, rezam como eu ou votam como eu".
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