247 – Os mercados financeiros internacionais enfrentam uma onda de turbulência provocada pelo receio de que os Estados Unidos imponham regras mais rígidas ao setor de inteligência artificial (IA). Depois de uma queda histórica das ações de tecnologia, Wall Street apresentava sinais de recuperação nesta sexta-feira (6), enquanto bolsas asiáticas e europeias acumulavam perdas expressivas.
Segundo a agência Reuters, a liquidação de ações na quinta-feira (5) eliminou aproximadamente US$ 2,5 trilhões do valor de mercado das empresas que integram o Nasdaq, índice fortemente concentrado em tecnologia. As companhias do S&P 500, por sua vez, perderam cerca de US$ 3 trilhões em valor de mercado.
O movimento desencadeou uma busca por ativos considerados mais seguros, como títulos públicos e moedas tradicionalmente utilizadas como proteção em períodos de instabilidade. Os contratos futuros do Nasdaq indicavam uma recuperação de 1,5% nesta sexta-feira, depois de o índice registrar uma queda de 5,5% na sessão anterior.
O índice de volatilidade VIX também recuava, sinalizando uma possível redução das tensões no mercado estadunidense. Apesar da perspectiva de recuperação, os investidores permaneciam preocupados com os efeitos de uma eventual intervenção regulatória sobre o setor de inteligência artificial, especialmente depois das vitórias históricas do Partido Democrata nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos.
Nvidia e fabricantes de chips ensaiam recuperação As ações de grandes empresas de tecnologia apresentavam movimentos de recuperação nas negociações anteriores à abertura de Wall Street.
A Nvidia, uma das principais beneficiárias da expansão da inteligência artificial, avançava 4,5%, depois de sofrer sua maior queda diária desde janeiro de 2025. Naquela ocasião, a apresentação do modelo de inteligência artificial de baixo custo da empresa chinesa DeepSeek havia provocado uma forte reavaliação das perspectivas de negócios das companhias estadunidenses de tecnologia.
Outros fabricantes de semicondutores também registravam valorização. AMD, Intel, Broadcom e Micron Technology apresentavam altas entre 4,5% e 8%.
A Tesla, controlada por Elon Musk, avançava 2%, enquanto a SpaceX registrava valorização de 4%, segundo os dados apresentados pela Reuters. A recuperação, entretanto, ainda não era suficiente para dissipar as preocupações sobre os investimentos bilionários destinados à construção de centros de processamento de dados e outras estruturas necessárias ao funcionamento dos sistemas de inteligência artificial.
O temor dos investidores é que os elevados custos de expansão da infraestrutura tecnológica comprometam a rentabilidade futura das empresas, sobretudo diante da possibilidade de novas exigências regulatórias. Bolsas asiáticas sofrem quedas históricas
O impacto da crise foi particularmente intenso na Ásia. No Japão, o índice Nikkei caiu aproximadamente 6%, resultado semelhante ao registrado pelo KOSPI, principal indicador da bolsa da Coreia do Sul.
Para o mercado japonês, foi a maior queda em uma única sessão desde abril de 2025, quando as tarifas comerciais anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocaram uma onda de aversão ao risco nos mercados internacionais. Em Taiwan, um dos principais centros mundiais de produção de semicondutores, o índice de referência chegou a despencar mais de 8% durante o pregão.
A bolsa encerrou as negociações com recuo de 4,5%, depois de medidas adotadas pelas autoridades para conter a pressão vendedora. No acumulado da semana, o mercado taiwanês perdeu 12,2%, seu pior desempenho semanal desde 1991, segundo dados da LSEG citados pela Reuters.
A crise também atingiu empresas diretamente ligadas aos investimentos em tecnologia. No Japão, as ações do grupo SoftBank recuaram 11%, enquanto o custo de proteção contra um eventual calote de sua dívida alcançou o maior nível em quatro anos.
Investidores questionam sustentabilidade da expansão da IA James Athey, gestor de fundos da empresa de investimentos Marlborough, em Londres, afirmou que a intensidade das vendas foi ampliada pelo comportamento de investidores individuais e fundos de hedge, que passaram a reforçar mutuamente os movimentos de saída do mercado.
“Tem sido brutal”, declarou Athey. O gestor destacou que, apesar das perdas recentes, os principais índices acionários ainda permanecem próximos de suas máximas históricas, enquanto os investimentos em inteligência artificial continuam em níveis elevados.
“A questão é: para onde vamos agora? Ainda estamos olhando para índices próximos de máximas históricas e um setor (IA) onde o investimento de capital ainda é enorme”, afirmou. “Portanto, acho que será um grande teste para o sentimento do mercado — e para a crença na IA — nos próximos dias”, acrescentou.
A preocupação com a rentabilidade futura dos investimentos tecnológicos ganhou força após os resultados das eleições legislativas estadunidenses. A governadora eleita do Texas, Gina Hinojosa, do Partido Democrata, anunciou na quinta-feira que pretende estabelecer novas leis para proteger comunidades locais da expansão em larga escala dos centros de dados.
O Texas já concentra uma parcela significativa dessas instalações nos Estados Unidos, e a perspectiva de novas restrições aumentou a percepção de risco entre investidores. Autoridades asiáticas tentam conter turbulência
Diante das fortes quedas, autoridades de países asiáticos adotaram iniciativas para reduzir a instabilidade financeira. Na Coreia do Sul, o governo flexibilizou temporariamente regras relacionadas a investimentos alavancados realizados por pessoas físicas, buscando diminuir a pressão sobre o mercado acionário.
Em Taiwan, fontes ouvidas pela Reuters relataram que o Ministério das Finanças convocou executivos de bancos estatais e orientou as instituições a oferecer apoio ao mercado. As medidas contribuíram para reduzir parcialmente as perdas, mas não impediram que as bolsas encerrassem o pregão com quedas acentuadas.
Christopher Forbes, responsável pelas operações da CMC Markets na Ásia e no Oriente Médio, descreveu o ambiente de negociações como especialmente difícil. “Na verdade, é um pouco desastroso”, afirmou.
“Durante toda a noite, durante todo o dia, tivemos chamadas de margem de clientes, reclamações de clientes… porque é algo muito emocional, certo? As pessoas ficam apegadas às suas posições e opiniões sobre uma ação ou um resultado, e você está dizendo a elas: olhe, você acabou de perder dinheiro”, relatou.
As chamadas de margem ocorrem quando investidores que operam com recursos emprestados precisam aportar garantias adicionais para manter suas posições. Em períodos de queda acentuada, essas exigências podem provocar novas vendas de ativos e intensificar a desvalorização dos mercados.
Emprego nos Estados Unidos supera expectativas Paralelamente à crise no setor tecnológico, indicadores econômicos dos Estados Unidos mostraram um mercado de trabalho mais resistente do que o previsto.
O relatório de emprego fora do setor agrícola, conhecido como payroll, apontou a criação de 165 mil vagas, acima das estimativas dos analistas. O crescimento anual dos salários também superou as expectativas.
A taxa ficou em 3,1%, contrariando previsões de desaceleração para menos de 3%, patamar que não era registrado havia aproximadamente cinco anos e meio. Apesar da importância dos números para as decisões de política monetária, os dados acabaram recebendo atenção secundária diante da turbulência provocada pela queda das ações de tecnologia.
No mercado de títulos públicos, o rendimento dos papéis do Tesouro estadunidense com vencimento em dez anos subiu para 4,86% durante as negociações europeias, depois de atingir durante a madrugada o menor nível desde 9 de setembro. No Japão, os rendimentos dos títulos de dez anos chegaram a 1,795%, menor patamar desde 30 de junho.
Na Alemanha, os títulos públicos de maior qualidade de crédito também registraram uma redução inicial dos rendimentos, antes de uma recuperação para 3,25%. Masahiko Loo, estrategista-chefe de renda fixa da State Street Investment Management, avaliou que o comportamento desses ativos voltou a refletir suas características tradicionais.
“Os títulos estão cada vez mais voltando a se comportar como títulos, com a renda ressurgindo como o principal fator determinante dos retornos”, afirmou. Petróleo caminha para maior queda semanal desde 2020
A instabilidade financeira também alcançou o mercado internacional de energia. Os preços do petróleo apresentavam uma recuperação moderada nesta sexta-feira, aproximando-se de US$ 100 por barril.
Mesmo com a valorização pontual, a commodity caminhava para registrar sua maior queda semanal desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou um colapso na demanda mundial por combustíveis. Segundo a Reuters, parte do movimento estava associada à expectativa de que os resultados das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos levassem Donald Trump a reduzir a intensidade da guerra contra o Irã.
Essa possibilidade alimentou expectativas de diminuição das tensões geopolíticas que afetam a oferta e os preços internacionais de petróleo. Ao mesmo tempo, o dólar estadunidense, o iene japonês e o franco suíço receberam fluxos de recursos de investidores interessados em reduzir sua exposição aos riscos dos mercados acionários.
Analistas alertam que recuperação pode ser limitada Embora os futuros das bolsas estadunidenses apontassem para uma abertura positiva, analistas advertiram que a recuperação poderia representar apenas uma reação temporária às perdas acumuladas.
Steve Sosnick, estrategista-chefe da Interactive Brokers, afirmou que a magnitude da desvalorização dificulta uma retomada imediata da confiança. “Depois de danos como os que temos enfrentado, é difícil imaginar que possamos simplesmente nos recuperar a partir daqui”, declarou.
“Podemos estar em uma situação de sobrevenda no curto prazo, mas as questões e causas subjacentes não podem simplesmente ser apagadas”, acrescentou. A avaliação reflete a preocupação de que a crise ultrapasse uma correção pontual dos preços das ações.
O mercado enfrenta simultaneamente dúvidas sobre a rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial, a possibilidade de endurecimento regulatório e o impacto das perdas sobre investidores e instituições financeiras. A evolução das negociações em Wall Street e as próximas iniciativas regulatórias nos Estados Unidos deverão determinar se a recuperação observada nos contratos futuros será suficiente para interromper a sequência de perdas que atingiu os principais mercados mundiais.
Brasil 247