Jackie Tohn, a Esther da série 'Ninguém quer', fala sobre 'perfil da mulher judia forte': 'Quem eu sou'

Jackie Tohn, a Esther da série 'Ninguém quer', fala sobre 'perfil da mulher judia forte': 'Quem eu sou' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Os bagels saíam do forno mais rápido do que Jackie Tohn conseguia pegá-los. A cada um ou dois segundos, um anel de massa caía sobre uma plataforma giratória, e ela precisava transferi-lo para uma assadeira antes que o próximo despencasse.

— Meu Deus, isso é tão gostoso! — disse Tohn, enquanto se apressava de um lado para o outro. Tohn, de 46 anos, entende de alegria.

Ela é uma das estrelas da comédia da Netflix "Ninguém quer", sobre o romance entre um rabino bonitão, Noah (Adam Brody), e uma podcaster não judia igualmente atraente, Joanne (Kristen Bell). Tohn interpreta Esther, a cunhada de Noah, uma mulher que vive julgando os outros.

Esther costuma dar broncas em todo mundo. Tohn, que tem o brilho e a aspereza moderada de uma lixa de unha, é mais alto-astral.

Ela descreve a série, que voltou para sua terceira temporada na quinta-feira, como uma representação da “alegria judaica”. Numa segunda-feira chuvosa do fim de setembro, a atriz visitou a unidade de Hudson Yards da rede de delicatessens Russ & Daughters, outro exemplo de alegria judaica para quem gosta de salmão defumado.

(Fã de longa data da loja original, no Lower East Side, Tohn ainda não conhecia essa unidade.) Depois que Tohn se acomodou, Niki Russ Federman, coproprietária do estabelecimento, convidou-a para conhecer a padaria nos fundos da loja e ver como os bagels são feitos.

— Você veio com fome? — perguntou Federman. — O que você acha? — respondeu Tohn, de olho em um pouco de peixe branco defumado.

Para Jackie Tohn, 'Ninguém quer' é sobre 'pessoas judias vivendo suas vidas, sendo imperfeitas, mas também sendo pessoas boas, pessoas de verdade. Isso é um alívio'

Maiwenn Raoult / The New York Times Animada e curiosa, Tohn observou enquanto um padeiro mergulhava rapidamente alguns bagels em água fervente e depois os colocava sobre tábuas de madeira, cobertos de sementes.

Em seguida, as tábuas eram encaixadas em um forno de lastro giratório. — Por que fazer bagel me dá a sensação de estar num parque de diversões? — perguntou Tohn enquanto os pães giravam.

Voltando às etapas anteriores do processo de fabricação, Federman mostrou a Tohn uma câmara de fermentação, que chamou de “sauna dos bagels”, onde fileiras de pães suavam, e depois uma sala maior, na qual a massa era misturada e moldada. Outro padeiro despejou farinha, açúcar, malte de cevada, fermento e alguns bagels do dia anterior em uma masseira industrial.

Depois de um breve descanso, a massa foi colocada na máquina de modelagem. Tohn, que havia prendido o cabelo sob uma touca com a inscrição “Non Merci” e calçado luvas de plástico, recebeu sua tarefa.

— Você tem que trabalhar rápido — alertou Federman. Tohn obedeceu, empilhando apressadamente os bagels em uma assadeira, organizados em fileiras de cinco.

Parou por um instante para admirar o próprio trabalho, mas logo ficou para trás. — Não dá para comemorar quando se está fazendo bagel — lembrou a si mesma.

Ela encheu uma segunda assadeira e, depois, uma terceira. Satisfeita, deixou a etapa do forno a cargo dos profissionais e voltou ao salão principal, onde pediu bagels, salmão defumado, salada de peixe branco, babka, um biscoito preto e branco e só uma provadinha de cream cheese com raiz-forte.

— Eu já sou bem judia — disse. — Mas, quando entro num ambiente judaico, tudo isso vem à tona.

Dificuldades da carreira Tohn cresceu em Long Island, como a caçula de uma família em que os dois pais eram professores de educação física, e não consegue se lembrar de uma época em que não estivesse se apresentando.

Ainda adolescente, gravou alguns comerciais e teve um pequeno papel em “The Nanny”. Depois de cursar apenas um semestre da faculdade, mudou-se para Los Angeles, onde enfrentou quase duas décadas de dificuldades, pagando o aluguel de um apartamento minúsculo com participações especiais em séries de TV.

Naquela época, ela se via como o tipo de garota que mora na casa ao lado — a moça comum, acessível, com jeito de vizinha. Com o tempo, porém, aceitou que tinha outro perfil.

— Esse perfil é o da mulher judia forte — disse, entre uma mordida e outra no bagel. — É quem eu sou: uma mulher judia forte e orgulhosa.

Então, interpretar esse tipo de personagem é ótimo. Ela pediu desculpas por falar enquanto mastigava.

Depois que abraçou esse perfil, as oportunidades de trabalho melhoraram. Teve um papel importante na comédia da Netflix “GLOW”, como uma lutadora que também trabalhava como motorista de limusine, e outro como assessora de imprensa na sátira de super-heróis da Amazon “The Boys”.

Amiga de Bell desde os 20 e poucos anos, Tohn soube da existência de "Ninguém quer" enquanto ajudava a atriz a arrumar o armário. Um ano depois, após a greve dos roteiristas, foi convidada para fazer um teste para o papel de Rebecca, ex-namorada de Noah.

Bell sugeriu que ela combinaria mais com Esther, uma personagem de personalidade forte e língua afiada. Quando surgiu a oportunidade de disputar o papel, Tohn enviou uma gravação de seu teste e foi contratada.

Na primeira temporada, Esther é apresentada como o contraponto à Joanne, uma mulher de espírito livre, embora um tanto neurótica. Esther é crítica, sarcástica e frequentemente cruel, sobretudo com o marido, Sasha (Timothy Simons).

São características que beiram os estereótipos sobre mulheres judias. "Ninguém quer" recebeu críticas nesse sentido, e Tohn disse ter ficado surpresa com elas.

Quando sua personagem ganhou mais destaque na segunda temporada, porém, a atriz defendeu que ela tivesse maior complexidade. Nesses episódios, Esther observa Joanne e a irmã dela, Morgan (Justine Lupe), e sente inveja de como as duas se divertem.

No início da nova temporada, ela já está separada de Sasha, tirou o registro para trabalhar com imóveis, entrou em um aplicativo de relacionamentos e se submeteu a uma depilação íntima completa com cera. — Ela está se descobrindo — disse Tohn.

Desde a temporada passada, Tohn também descobriu algumas coisas sobre si mesma. Depois que seu pai foi diagnosticado com câncer, ela fez um exame de sangue que revelou uma mutação genética comum entre mulheres judias asquenazes, associada a um risco elevado de desenvolver câncer de mama e de ovário.

— Foi um pesadelo absoluto — contou. Ela se submeteu a uma mastectomia preventiva e, posteriormente, a uma cirurgia de reconstrução das mamas.

Antes do procedimento, porém, organizou uma festa que batizou de “Ta-ta to Jackie’s Tatas”, um trocadilho com a despedida de seus seios. A comemoração incluiu uma faixa com os dizeres “Boob Voyage”, uma brincadeira com a expressão francesa “bon voyage”, usada para desejar boa viagem a alguém.

— Eles eram uma verdadeira alegria — disse ela, com nostalgia. Embora as discussões sobre os judeus e o judaísmo nos Estados Unidos continuem cercadas de tensões, "Ninguém quer" liderou a lista de séries mais assistidas da Netflix nas duas temporadas.

Tohn gosta de fazer parte de uma comédia que, segundo ela, é centrada em “pessoas judias vivendo suas vidas, sendo imperfeitas, mas também sendo pessoas boas, pessoas de verdade. Isso é um alívio”.

Depois de comer metade do bagel, ela embrulhou a babka e o biscoito para levar para casa — um pouquinho de alegria judaica para mais tarde.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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