247 – Em um dos movimentos mais emblemáticos e surpreendentes da reta final da campanha eleitoral, a jornalista e ex-deputada federal Joice Hasselmann declarou publicamente seu voto em Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, diretor do Brasil 247, a mulher que já foi um dos símbolos mais agressivos do antipetismo e a principal articuladora da ascensão bolsonarista em 2018 afirmou que a decisão foi tomada para impedir que o país caia em um ciclo prolongado de autoritarismo.
“A minha opção inicial era anular, porque nenhum dos dois projetos me representa. Mas, vendo a disputa nariz a nariz e o risco de mais 20 anos de bolsonarismo, eu não tenho como ser omissa.
Eu voto no Lula porque eu voto contra o ditador. Eu voto contra a opressão.
Eu voto pelas liberdades de pensamento e de ação. No dia seguinte, posso voltar a ser oposição a ele, mas dentro do campo democrático.
Sem democracia, não há espaço nem para debater ideias”, declarou. A conversa, marcada pelo confronto com a própria trajetória política de Joice, revisitou a ascensão da extrema-direita, o papel da Operação Lava Jato, as engrenagens de destruição de reputações no Palácio do Planalto e a violência física e psicológica que culminou em sua saída definitiva do círculo de poder bolsonarista.
O arrependimento de ter normalizado a barbárie Eleita em 2018 com mais de um milhão de votos — tornando-se na época a deputada federal mais votada da história da Câmara —, Joice relembrou os primeiros contatos com Jair Bolsonaro, quando ele ainda era uma figura marginal no Congresso Nacional.
Ela admitiu ter funcionado como uma ponte para atrair a classe média e, principalmente, o eleitorado feminino. “O eleitorado feminino tinha horror ao Bolsonaro, e com total razão.
Eu fiz palestras pelo país inteiro levando mulheres da elite, normalizando o nome dele. Dizia: ‘Confiem nele, ele é honesto’.
Esse é o erro que mais me corrói por dentro. Eu ajudei a normalizar um homem limitado e violento.
Hoje preciso consertar esse erro para limpar a minha história”, afirmou. Segundo a ex-parlamentar, a percepção sobre o descalabro ético do grupo consolidou-se já nas reuniões para definição da chapa presidencial, quando passou a conviver de perto com os filhos do ex-presidente, sobretudo Flávio e Eduardo Bolsonaro.
O gabinete do ódio e a indústria da chantagem Durante os oito meses em que atuou como líder do governo no Congresso Nacional, Joice esteve na linha de frente da articulação de reformas econômicas, mas acumulou conflitos diretos com o chamado “gabinete do ódio”.
Ela descreveu como o esquema funcionava a partir de salas no próprio Palácio do Planalto, combinando ataques digitais, uso maciço de disparos automatizados e financiamento paralelo. “O objetivo nunca foi defender projetos, mas destruir qualquer um que ousasse divergir meio centímetro.
Quando perceberam que eu não me dobraria a caprichos, acionaram a máquina contra mim. Foram anos me chamando de ‘porca’, ‘Pepa’, forjando montagens criminosas e enviando ameaças explícitas à minha família e aos meus filhos”, relatou.
Joice lembrou que foi a partir de suas denúncias fundamentadas — prestadas em um depoimento de nove horas à CPI das Fake News, com acesso a senhas e grupos internos fornecidos por parlamentares arrependidos — que o Supremo Tribunal Federal estruturou linhas decisivas das investigações sobre milícias digitais.
As marcas da violência e a denúncia de atentado O relato mais dramático da entrevista tratou do episódio ocorrido em 2021 em seu apartamento funcional em Brasília, quando a então deputada acordou caída entre o quarto e o banheiro, ensanguentada e com múltiplas lesões.
“Quebraram minha coluna em cinco lugares, fraturaram meu rosto, quebraram dentes. E a conclusão oficial foi ‘queda da própria altura’.
Ninguém cai da própria cama e quebra a coluna em cinco lugares. Aquilo foi obra de profissionais.
Eu investiguei por conta própria durante meses: o apartamento não tinha câmeras ativas, os pontos cegos foram estudados e a Abin paralela já me monitorava há muito tempo. Tentaram me calar ou me deixar paraplégica.”
Ela apontou a conivência das estruturas policiais locais à época e afirmou que foi aconselhada por lideranças políticas da Câmara a não formalizar acusações sem acesso irrestrito às gravações do prédio, sob pena de sofrer cassação imediata de mandato por represália. O alerta contra a sucessão familiar
Ao analisar a candidatura de Flávio Bolsonaro e as movimentações para garantir a hegemonia da família, Joice Hasselmann desfez a tese de que o senador representaria uma versão moderada ou pragmática do bolsonarismo: “O Flávio é até mais frio e mais ganancioso do que o pai.
Quem acredita que ele abrirá espaço para figuras como Tarcísio de Freitas ou qualquer outro nome da direita tradicional em 2030 está sendo profundamente ingênuo. O plano deles é uma dinastia perpétua de poder.
É Flávio, depois Eduardo, depois quem tiver o sobrenome Bolsonaro. Eles querem fechar o regime usando a própria máquina institucional.”
Criticando duramente antigos aliados da Lava Jato, como o ex-juiz Sergio Moro — a quem chegou a biografar no passado e hoje vê curvado aos mesmos interesses que antes dizia combater —, Joice concluiu fazendo um apelo direto aos eleitores indecisos e aos setores moderados: “Se faltasse o meu voto para conter esse desastre, eu jamais me perdoaria.
Eu sei o tamanho do custo pessoal dessa minha declaração, mas a sobrevivência do Brasil e das instituições está acima de qualquer vaidade ou mágoa do passado. No domingo, votem pela democracia.”
A entrevista completa de Joice Hasselmann ao jornalista Leonardo Attuch está disponível na íntegra no canal da TV 247: Joice Hasselmann declara voto em Lula: “Bolsonaro tentou me matar”.
Brasil 247