247 – Em um dos momentos mais marcantes da cobertura política e reflexiva da reta final eleitoral, o teólogo, escritor e filósofo Leonardo Boff participou do programa O Barato da Idade, conduzido pelos jornalistas Regina Zappa e Miguel Lemos na TV 247. Recém-saído do hospital e empenhado na mobilização cívica popular, Boff sintetizou o dilema histórico vivido pelo país como uma encruzilhada que ultrapassa rivalidades partidárias convencionais: a defesa inegociável da soberania nacional diante da ameaça de recolonização e tutela estrangeira.
“A grande oposição é entre subordinação aos Estados Unidos ou autonomia. Se o outro lado ganhar, nós nos transformaremos de fato num quintal dos Estados Unidos — embora a intenção deles seja ainda pior: fazer do Brasil uma espécie de novo estado norte-americano.
Alguém que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos se entende americano, não brasileiro. Essa eleição é decisiva para salvaguardar a nossa identidade como nação”, alertou.
Para Boff, a vitória da extrema-direita significaria uma regressão comparável aos piores momentos coloniais, abrindo caminho para a captura absoluta dos Poderes e o desmonte das bases democráticas conquistadas com árdua resistência popular. A cobiça sobre o Sul Global e a geopolítica da espoliação
Ao analisar as motivações externas por trás do avanço de forças reacionárias no continente, o pensador recordou mensagens que recebeu de acadêmicos europeus da Sorbonne, ressaltando que o pleito brasileiro possui uma dimensão planetária. Segundo Boff, a perda de influência global de Washington acentuou a sanha predatória sobre a América Latina:
“Trump e o império decidiram que, já que enfrentam limites em outras regiões do planeta, a América Latina tem que ser reservada como o grande quintal onde eles dominam como imperadores. O que interessa a eles não é o povo, não é o bem-estar social: é a riqueza bruta.
É o acesso às nossas águas doces, à nossa biodiversidade inigualável, às nossas florestas e, sobretudo, às terras raras, que são o oxigênio da nova revolução tecnológica.” Boff contrapôs essa lógica de subserviência ao projeto capitaneado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, centrado na soberania produtiva e no processamento integral das riquezas no próprio território:
“A decisão de Lula é nós fazermos aqui todo o ciclo: extração, beneficiamento, inovação e inserção autônoma no mercado internacional. Isso nos coloca entre as grandes potências mundiais, soberanas e altivas.
Entregar tudo isso em estado bruto para uma oligarquia estrangeira é assinar um atestado de vassalagem.” Ecologia integral: o Brasil como mesa posta para a humanidade
Autor de dezenas de obras de referência sobre a ética do cuidado e o destino da Mãe Terra, Leonardo Boff destacou que a preservação da soberania brasileira é indissociável da sobrevivência ecológica mundial. Citando as advertências do sociólogo Zygmunt Bauman, ele lembrou que a continuidade da predação capitalista sem freios empurra a civilização rumo a um abismo coletivo:
“O futuro da humanidade passa pela ecologia, pela relação que estabelecemos com a Terra e com os seres vivos. O Brasil é fundamental para o oxigênio do mundo, para o regime de chuvas e para a fertilidade dos solos.
Temos condições de ser a mesa posta para sanar as fomes e as sedes do planeta. Só os povos originários, os verdadeiros guardiães da floresta, e um projeto político voltado ao bem comum compreendem que a Terra não é mercadoria, mas nossa casa comum.”
O filósofo lamentou as dificuldades impostas às populações indígenas mais isoladas para exercer o direito ao voto, denunciando a ausência de infraestrutura básica como um sintoma persistente do descaso com aqueles que ensinam à sociedade a viver em harmonia com a natureza. Juventude nas ruas e a mística da vigilância popular
Celebrando a espontaneidade dos atos que tomaram avenidas de todo o país após o primeiro turno, Boff viu nas passeatas puxadas por jovens e estudantes universitários a centelha de uma nova consciência coletiva. Para o teólogo, a mobilização não pode se desarmar após as urnas, independentemente de quem saia vitorioso:
“Essa moçada se levantou por conta própria, conectada em seus celulares, dizendo que não aceitará o retorno de uma ditadura. Esse contraponto popular tem que continuar nas ruas mesmo após as eleições.
É o povo organizado — nos bairros, nas comunidades e nos sindicatos — que impede o governo de se desviar e empurra a história para a frente. O poder político autêntico não existe para o enriquecimento pessoal, mas como missão de serviço.”
Resgatando a trajetória histórica das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o legado dos movimentos sociais, ele defendeu a construção de uma “democracia ecossocial e participativa”, construída de baixo para cima. “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”
Ao encerrar a participação no programa, Boff fez uma contundente distinção entre o fundamentalismo mercadológico que instrumentaliza a fé para fins autoritários e a verdadeira mística libertadora do Evangelho, ancorada na fraternidade, no “Pão Nosso” e na defesa irrestrita dos vulneráveis.
Invocando Santo Agostinho e a poesia de Caetano Veloso, deixou uma mensagem de coragem diante dos medos: “A esperança tem duas irmãs inseparáveis: a indignação contra a realidade ruim e a coragem para transformá-la numa realidade justa.
Eu me sinto um pessimista esperançoso: sei que a realidade é dura, mas a vida sempre triunfa sobre a morte. Como diz o poeta, nós não nascemos para morrer de fome, nós nascemos para brilhar, porque carregamos estrelas dentro de nós.
O voto no Lula é o voto pela luz, pela dignidade e pelo futuro da nossa soberania.” A entrevista completa de Leonardo Boff a Regina Zappa e Miguel Lemos pode ser assistida na íntegra no canal da TV 247: O Barato da Idade – Leonardo Boff: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.
Brasil 247