Gui Ventura: quem é o ex-PM que venceu mais 800 concorrentes para interpretar Gilberto Gil no musical em cartaz em SP

Gui Ventura: quem é o ex-PM que venceu mais 800 concorrentes para interpretar Gilberto Gil no musical em cartaz em SP - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Se você fechar os olhos enquanto escuta Gui Ventura cantando “Extra”, “Domingo no parque” ou “Back in Bahia”, talvez acredite que esteja ouvindo o próprio Gilberto Gil. O ator, cantor e compositor mineiro dá corpo e voz ao tropicalista no musical “Gil: andar com fé”, em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo, até 28 de novembro. No camarim do teatro, envergando um terno branco, largo e acetinado, com argolas douradas nas orelhas e um colar colorido sobre o peito nu, Ventura se alegra com a reação de Gil ao vê-lo cantar. 'Escrava Isaura', 'Anjo mau', 'Saramandaia' e mais: Por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil? Relações abertas, ciúme e regras: Séries, livros e filmes exploram complexa matemática da não monogamia — Ele falou que se viu “somaticamente” em mim (risos). Gil ter gostado do meu trabalho é o maior prêmio, é mais que um Kikito, é mais que um Shell, sabe? — diz Ventura. O espetáculo, que é dirigido por Miguel Falabella e estreia no Rio no começo de 2027, passa em revista a trajetória de Gil desde a infância em Ituaçu, na Bahia. Destaca suas parceiras artísticas (em especial, com Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa), a perseguição durante a ditadura militar (o compositor foi preso e se exilou em Londres) e chega até a morte de Preta Gil, aos 50 anos, em 2025. Uma das cenas mais emocionantes do espetáculo é quando Gil se despede de Preta (interpretada por Luci Saluzzi) cantando “Drão”, música sobre o término de seu casamento com a mãe dela, Sandra Gadelha: “O amor da gente é como um grão/ Uma semente de ilusão/ Tem que morrer pra germinar.” Essa foi uma das canções que Ventura defendeu nos testes para o papel. Mais de 800 atores participaram das audições. Sob suspeita: Acusações de 'uso indevido de IA' atingem livros badalados e editoras procuram meios de provar 'escrita humana' — Gui sobressaiu desde a primeira audição, não só pela semelhança física, mas pela maneira como se apropriou do sotaque e da musicalidade da fala do Gil. Até achei que ele fosse baiano. Na segunda audição, já sabíamos que ele seria o protagonista do musical — disse Falabella ao GLOBO Como incorporar Gil Ventura realmente incorporou o jeito do tropicalista: os gestos expansivos com as mãos, a movimentação das sobrancelhas e sobretudo o ritmo da fala. Ele soa como Gil ao alongar as sílabas tônicas e marcá-las com um tom um pouco mais alto, entre a indignação e a alegria. — Costumo dizer que a construção do meu Gilberto Gil se deu em duas etapas. A primeira foi uma investigação interna: observei a energia, o ritmo, a fala e onde os registros vocais se dão no corpo para emular a sonoridade dele, o tempo de elaboração do pensamento. A segunda etapa foi externa: estudei o rosto dele, os trejeitos, os gestos periféricos, como ele repousa o corpo para falar, ouvir, brincar e cantar — explica o ator, que aprendeu a tocar acordeão do zero para o musical. Gui Ventura: ex-PM venceu mais de 800 concorrentes pelo papel de Gilberto Gil no teatro Edilson Dantas Ventura tem 38 anos e hoje vive entre São Paulo, onde está no palco de quinta-feira a domingo, e o Rio, onde mora sua namorada. Ele nasceu em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e é o caçula de três irmãos. Os pais são aposentados, mas continuam trabalhando: ele, numa empresa de ônibus; ela, como faxineira. A família toda sempre foi ligada em arte. O pai colecionava vinis de MPB e a mãe fazia artesanato. O irmão mais velho, Hugo, curte rock, é artista plástico e poeta. O do meio, Diogo, é pagodeiro, toca vilão e cavaquinho. — Aquela música da Adriana (Calcanhotto) se aplica muito à minha vida: “Eu presto muita atenção/ No que o meu irmão ouve” — diz Ventura, citando a letra de “Esquadros”. Aos 10 anos, ele se iniciou no cavaquinho, aprendeu violão (é canhoto, mas toca com a mão direita) e apresentou “Alegria, alegria”, a canção de Caetano Veloso, na escola. O sonho infantil de ser jogador de futebol (ele é torcedor do Atlético Mineiro) foi perdendo espaço para a música. Aos 16 anos, começou a participar de bandas com o irmão do meio. Tocavam de rock a samba, começaram a circular por festivais e, em 2008, gravaram um disco como Os Cirandeiros. Em 2017, Ventura lançou um álbum solo, “Dois lados”, com composições próprias, e um punhado de singles nos anos seguintes, como “Bom dia” (2021) e “Pra vc ñ se esquecer” (2023). Desde criança, Ventura gostava de imitar os personagens que via na televisão, mas começou a atuar a sério em 2015, no musical “Madame Satã”, montado em BH pelo Grupo dos Dez. Por muito tempo, conciliou a carreira artística com empregos mais convencionais e muitas vezes precários. Foi atendente de telemarketing, panfleteiro e promotor de eventos até que, por sugestão do irmão Diogo, que é policial militar, prestou concurso para a corporação. Ventura entrou na polícia em 2012. Fugia da rua, preferia o trabalho administrativo. Os colegas gozavam dele por ler poesia. Em maio de 2016, artistas ocuparam o prédio da Funarte na capital mineira em protesto contra o impeachment de Dilma Rousseff. Durante o dia, Ventura enfrentava a rotina de policial e, à noite, partia para a ocupação. — Ser policial teve um lado bom, porque pude me estruturar financeiramente, comprar instrumentos, pagar meu disco, ir mais a teatro, viajar. Mas, depois de uns três anos, eu entrei em depressão — diz ele. — Caí numa boemia nada saudável para tapar um buraco, sabe? Estava tomando antidepressivo, bebia muito, fumava muita maconha. Estava letárgico. Até que me deu um estalo e vi que era hora de tomar as rédeas da minha vida. Projetos na TV e no cinema Ventura abandonou a corporação em 2018 para apostar de vez na vida de artista. Desde então, participou de projetos como o filme “A pedra do filme”, de Elza Cataldo, e a série “#FalaSério!”, da TV Cultura, ambos sem data de estreia. No ano passado, fez uma ponta na novela “Dona de mim”, da TV Globo. Gil se tornou uma referência para o mineiro no início da vida adulta. Tudo o encantava: o violão suingado do baiano, os ecos da África em sua música, sua visão poética de mundo, que rejeita a rigidez dualista, e sua abordagem da masculinidade, ao mesmo tempo delicada e viril. — Cresci rodeado de mulheres, sempre fui um homem sensível, em contato com meu lado feminino. Mas a sociedade fala que ser homem é não ser vulnerável, é ser forte, performar no sexo e mais um monte de coisas que hoje eu acho equivocadas. Com Gil, aprendi que não preciso ter medo ou vergonha da delicadeza nem forçar uma masculinidade grosseira — diz Ventura. Para o ator, Gil é um pouco como o orixá Logun Édé, que o baiano homenageia numa canção e tem a força de seu pai caçador, Oxóssi, e a doçura de sua mãe, Oxum, a deusa das águas. Gui foi criado católico, frequentou uma igreja evangélica na adolescência (por causa de uma namorada) e hoje está próximo do candomblé. O momento que mais o emociona em “Gil: andar com fé” é quando, sozinho no palco escuro, canta “Se eu quiser falar com Deus”. — Gosto dessa música porque é um alargamento da ideia de Deus. Não é o Deus que te pune, que quer ser bajulado, mas o Deus que está dentro da gente, que está também nas sombras, inteiro. Sem falar que o violão dessa música é maravilhoso, né? Ventura não tem dúvidas da conexão de Gil com o sagrado. Tanto que escreveu uma música para o baiano intitulada “Orixá da palavra”. “Menino danado de Ituaçu/ foi sanfoneiro oiô/ caleidoscópio de amor do Brasil/ banhado em Salvador”, dizem os versos que ele cantou quando foi pedir a bênção de Gil para incorporá-lo no palco.

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