Os preços da gasolina nos Estados Unidos superaram, na segunda-feira (26), o pico de todo o governo de Joe Biden, e o óleo de aquecimento residencial acumula alta de 74,2% em 12 meses. O empurrão vem em grande parte da guerra que Estados Unidos e Israel travam contra o Irã, que desorganizou o comércio global de petróleo e gás, e chega ao eleitor a poucos dias das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro.
O índice de preços ao consumidor divulgado em 14 de outubro trouxe a inflação geral em 3,7% em 12 meses. A gasolina saltou 34,2% e o óleo combustível, usado sobretudo no aquecimento de casas no Nordeste americano, disparou 74,2% no mesmo período.
É a energia puxando o custo de vida para cima num ano eleitoral. A média nacional da gasolina, medida pela associação americana de automóveis AAA e analisada pela Politico, ficou acima de qualquer patamar registrado sob o governo anterior.
O petróleo já pesou em derrotas presidenciais nos Estados Unidos. As filas nos postos depois dos choques de 1973 e 1979 contaminaram as campanhas de Gerald Ford em 1976 e de Jimmy Carter em 1980, quando a inflação corroeu salário e confiança no governo ao mesmo tempo.
A conta de uma guerra que ninguém votou A alta não nasce de um choque doméstico, e sim de uma decisão de política externa.
Os ataques e a guerra contra o Irã, conduzidos pelos Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, e por Israel, embaralharam rotas de escoamento e elevaram o prêmio de risco do barril. Esse custo atravessa o oceano até a bomba do posto americano.
Quem abastece o carro paga, sem ter escolhido, a fatura de um conflito no Oriente Médio, e a gasolina, estampada em cada esquina, é o item de inflação que o eleitor sente todos os dias. Para um governo que fez da energia barata uma bandeira, o número é politicamente incômodo a poucos dias do voto e vira munição nas mãos dos adversários.
A confiança entre o eleitor de bolso apertado e quem governa se desgasta a cada abastecimento. Um corte de salário disfarçado de inflação
O salário nominal cresce devagar, mas os preços sobem mais rápido, e o poder de compra encolhe sem que o contracheque mude. A imprensa econômica americana resumiu o efeito ao dizer que, para o cidadão comum, essas tensões internacionais equivalem, na prática, a um corte de salário.
Uma inflação de energia persistente tende a segurar a queda dos juros e a encarecer o crédito, o que atinge hipotecas, cartões e financiamentos. O aperto chega ao orçamento doméstico por várias portas ao mesmo tempo, do tanque do carro à parcela da casa.
A economista do Banco Central Europeu Isabel Schnabel batizou o mecanismo de fossilflação, a inflação que nasce da dependência de combustíveis fósseis e da volatilidade deles. O conceito descreve o que ocorre agora, quando um conflito geopolítico se converte em aumento na conta de aquecimento de milhões de famílias.
Quando o mercado passa a temer o eleitor A dependência tem mão dupla.
O Conselho do Atlântico, em relatório sobre a política energética americana, anotou que a volatilidade política se tornou, ela mesma, um custo de energia, porque a cada troca de governo incentivos, créditos e metas são desfeitos e o investimento fica refém do calendário eleitoral.
Se os políticos temem o preço da energia, os mercados de energia também passaram a temer os políticos. A alternância a cada quatro anos encarece o financiamento de projetos, e o relatório conclui que o país precisa de um marco previsível, que premie desempenho energético em vez de preferência partidária.
O editor de clima e energia da Semafor, Tim McDonnell, apontou o limite da perfuração doméstica. A produção interna colocou mais do balanço entre oferta e demanda sob controle americano, mas não blinda o consumidor da turbulência global, nem o impede de cobrar a conta nas urnas.
O choque que atravessa o Atlântico O preço do barril e dos derivados é referência mundial, e um choque como esse não fica contido nos Estados Unidos.
Uma alta sustentada no mercado internacional tende a pressionar os combustíveis também no Brasil, que ajusta os preços com referência externa e no câmbio e já viu picos do petróleo forçarem o governo a bancar subsídios para segurar o diesel. A quatro dias do voto, a energia virou o tema que resume a disputa.
Um eleitorado de bolso apertado se prepara para transformar o custo da guerra em julgamento político, enquanto o governo tenta explicar por que a conta subiu justamente quando prometeu alívio. As urnas de 3 de novembro dirão o preço político de um conflito que ninguém, na fila do posto, escolheu pagar.
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