247 – O ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República Gilberto Carvalho defendeu que um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja marcado por uma mudança na relação entre o governo, o Congresso Nacional e os movimentos sociais. Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, Carvalho afirmou que a experiência da campanha eleitoral de 2026 demonstrou a necessidade de construir uma governabilidade sustentada pela participação popular, e não apenas por acordos entre partidos e parlamentares.
Para um dos fundadores do PT, a mobilização que tomou as ruas durante o segundo turno oferece uma oportunidade de modificar o funcionamento do governo federal. Ele considera que a força demonstrada pela sociedade deve ser incorporada à condução das políticas públicas, especialmente diante de um Congresso em que os partidos de direita ampliaram sua representação.
“Nós vamos precisar, não tem mais condição de confiar apenas na governabilidade parlamentar. Claro que nós vamos fazer a política de respeito ao Parlamento, às maiorias que tem lá, e vamos negociar.
Mas, por trás disso, na frente disso, eu diria, tem que ter uma mobilização popular muito forte”, afirmou. Carvalho argumentou que a experiência do primeiro turno deixou uma lição para o PT.
Embora Lula tivesse construído uma coalizão partidária, o resultado eleitoral ficou aquém das expectativas do governo. No segundo turno, segundo sua avaliação, a campanha passou a contar com uma participação social que ultrapassou as estruturas partidárias e contribuiu para modificar a correlação de forças na disputa.
“Primeiro turno, nós estávamos com uma enorme aliança. A gente se orgulhava de ter construído uma ampla aliança no país e nos lascamos.
No segundo turno estamos só nós, praticamente do ponto de vista partidário, a nossa aliança originária, e algumas dissidências, os partidos formalmente todos foram para o outro lado e nós estamos virando”, declarou. Na avaliação do ex-ministro, essa experiência demonstra os limites de uma estratégia política concentrada na formação de maiorias institucionais.
Ele defendeu que o governo mantenha sua capacidade de negociação, mas construa uma relação com a sociedade que permita sustentar propostas de transformação econômica e social. “Isso também é uma lição de não confiar exageradamente na aliança institucional e construir aliança com o povo.
Nós precisamos, o quarto Lula não pode ser igual ao terceiro. Nós precisamos fazer um governo que deixe um legado realmente de fortalecer o poder popular”, afirmou.
Carvalho ressaltou que a composição do Congresso eleito em 2026 exigirá uma combinação entre negociação parlamentar e pressão social. Embora reconheça que a posse de um presidente pode produzir rearranjos entre partidos e parlamentares, ele considera que essas aproximações não serão suficientes para garantir a aprovação de propostas que contrariem interesses econômicos representados no Legislativo.
“A negociação faz parte da democracia. Agora, o que eu defendo é que não haja mais negociação sem organização popular pressionando para as causas essenciais.
Tudo aquilo que disser respeito à luta de classe, ou seja, direito do povo, direito das maiorias, deve contar necessariamente com mobilização”, sustentou. Como exemplo, o ex-ministro mencionou a reforma tributária e a dificuldade de avançar na tributação das grandes fortunas.
Ele recordou uma conversa com Lula, em 2023, na qual advertiu que seria difícil aprovar mudanças fiscais favoráveis aos trabalhadores sem organizar a sociedade para pressionar o Congresso. “Eu falei: presidente, achar que nós vamos fazer uma reforma fiscal que favoreça os trabalhadores, favoreça o povo, com esse Congresso que está aí, sem mobilização, não tem como.
Eu ainda acho que fomos vitoriosos, acho que até avançamos bastante, mas poderíamos ter avançado muito mais, por exemplo, na tributação das grandes fortunas”, relatou. Carvalho também avaliou que as condições econômicas de um eventual quarto mandato serão diferentes daquelas encontradas nos primeiros governos petistas.
Segundo ele, o crescimento da economia internacional e a expansão chinesa permitiram, no passado, ampliar políticas sociais em um ambiente de maior disponibilidade de recursos. Agora, considera que a redistribuição de renda dependerá de mudanças na estrutura tributária.
“Acabou o tempo de 2002, 2003, 2010, onde havia uma expansão da economia internacional e a China em particular que nos permitiu um superávit, uma sobra de recurso que permitia ganhar rico, ganhar pobre. Esse espaço acabou.
Daqui para frente, para melhorar a vida do pobre, para melhorar o poder de ganho da população, só fazendo uma mudança tributária, fiscal, que permita, de fato, que os grandes paguem os seus impostos”, afirmou. Para viabilizar essa orientação, Carvalho propôs que a mobilização popular deixe de ocorrer apenas em momentos eleitorais e passe a acompanhar a tramitação das principais iniciativas do Executivo.
Ele defendeu que o governo convoque a sociedade sempre que apresentar projetos destinados a ampliar direitos ou promover mudanças econômicas. “Você manda um projeto do governo em defesa do povo, você tem que imediatamente chamar as pessoas para fazer pressão sobre o Congresso.
Cada aeroporto, cada rodoviária, cada lugar de chegada dos parlamentares tem que ser lugar de manifestação”, disse. Segundo o ex-ministro, a distância entre Brasília e os centros de mobilização social exige a criação de mecanismos de participação distribuídos pelo território nacional.
Ele considera que manifestações em diferentes estados podem influenciar o comportamento dos parlamentares, sobretudo quando determinadas propostas conquistam apoio social. Carvalho citou a mobilização pelo fim da escala de trabalho 6×1 como demonstração desse processo.
A pauta, que surgiu fora das estruturas do PT e do governo, ganhou adesão de trabalhadores, artistas e movimentos sociais até se transformar em uma reivindicação capaz de influenciar as votações no Congresso. “Ela só passou por quê? Porque nós tivemos as grandes manifestações.
A sociedade foi deixando clara, através dos atos, através dos atos culturais, o envolvimento dos artistas, a juventude presente, foi deixando claro para o Congresso que não tinha outro caminho”, avaliou. Para Carvalho, a experiência indica que a pressão social pode alterar os cálculos políticos de deputados e senadores, inclusive daqueles que inicialmente resistem a determinadas propostas.
Ele argumentou que a mobilização amplia os custos eleitorais de decisões contrárias a reivindicações que conquistaram apoio da população. “É isso que nós temos que construir, processos em que as maiorias vão criando tal volume que aqueles que detêm mandato se deem conta de que, se eles não seguirem por esse caminho, eles serão penalizados”, afirmou.
O ex-ministro defendeu ainda que a participação popular seja incorporada ao funcionamento do próprio Executivo, com espaços de diálogo capazes de influenciar decisões e prioridades. Na sua avaliação, não basta que o governo mantenha canais formais de consulta à sociedade.
É necessário que os movimentos tenham condições de participar da formulação das políticas e de atuar na defesa das propostas apresentadas ao Legislativo. “Todo o governo será um governo poroso à participação real, não uma participação fictícia, participação real e com grandes mobilizações”, declarou.
Carvalho concluiu que a mudança no método de governar será determinante para a continuidade do projeto político liderado por Lula. Segundo ele, a construção de uma base social organizada pode oferecer sustentação às reformas durante o mandato e reduzir a dependência da popularidade pessoal do presidente nas eleições seguintes.
“Nós temos que fazer um governo enraizado na luta popular, que se sustente, que não chegue na próxima eleição se arrastando. Seja qual for o nome que nós apresentamos, tenha força, não porque é um carismático, mas porque tem embasamento popular e apoio popular massivo”, afirmou.
Para o ex-ministro, a principal tarefa de um eventual quarto governo Lula será transformar a mobilização eleitoral em participação política permanente. “Nós temos que mudar o nosso método.
Nós temos que fazer um governo de construção do poder popular”, concluiu.
Brasil 247