O candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) teve vitórias acima de sua média de votação em áreas de milícia e dominadas pelo crime organizado na região metropolitana do Rio de Janeiro. Candidatos de direita como o governador eleito, Douglas Ruas (PL), além de deputados e senadores de direita, também tiveram votações mais favoráveis em territórios controlados por milicianos.
É o que aponta um estudo do pesquisador do Centro de Segurança Pública e Analytics da FGV (FGV-Analytics) e do Centro de Política e Economia do Setor Público (FGV-CEPESP) Bruno Pantaleão. O levantamento foi feito com dados do Instituto Fogo Cruzado e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O mapeamento apontou que Flávio teve em média 5,6 pontos percentuais dos votos a mais em áreas de milícias quando comparadas com outras áreas. Isso equivale a cerca de 107 mil a mais que o esperado, segundo o cálculo da pesquisa. No caso de Ruas, a média foi de 4,7 pontos a mais nessas áreas, o que corresponde a 84 mil votos a mais que do esperado.
Flávio também teve vantagem em áreas dominadas por facções criminosas como Comando Vermelho, apesar da superioridade ser menor em comparação com as áreas controladas por milicianos.
Na comparação entre partidos, as áreas de milícia se associam a mais votos de direita em legendas como o PL e menos da esquerda como PT e o Psol. O PL teve vantagem nesses territórios de 4,6 pontos percentuais (148,4 mil votos) para senador; 2,6 pontos percentuais (46,3 mil) para deputado estadual e 1,9 ponto (33,4 mil) para deputado federal.
Em uma tendência oposta, o PT teve desvantagem de 2,9 pontos percentuais (91,7 mil) para senador; 1,9 pontos para deputado estadual (34,3 mil) e 2,7 pontos para deputado federal (48,4 mil) nessas regiões.
Os dados do estudo apontam ainda que candidaturas ao legislativo revelam uma concentração ainda mais visível de votações de candidatos em áreas sob controle armado. Alguns dos nomes mais votados do estado alcançaram a maior parte dos votos nesses locais.
O deputado estadual eleito Márcio Canella (União), por exemplo, teve 83% de sua votação nessas áreas. Antonio Rueda (União), eleito para deputado federal com uma campanha feita em dobradinha com Canella, teve 77% dos votos de áreas dominadas pelo crime.
Segundo deputado estadual mais votado do Rio nestas eleições, Canella foi preso na semana passada sob suspeita de ser "patrono político" e "articulador" de uma organização criminosa armada que usaria postos de combustíveis para lavar dinheiro.
De acordo com o autor da análise, a participação de grupos criminosos nas eleições é mais direta para candidaturas ao legislativo. Ele aponta que nos dados analisados, é possível observar que alguns candidatos tem votações desproporcionalmente concentradas em poucos locais de votação, sugerindo uma focalização de seus recursos em poucas áreas.
"Em contextos de governança criminal, isso pode representar a capacidade desses candidatos em se articularem com lideranças criminais locais para intermediar a transação de votos por práticas clientelistas, assim como impedir o acesso de candidatos concorrentes para fazer campanha nas comunidades", afirma Pantaleão.
Ele ressalta ainda que esse é efeito é “muito menor” em eleições majoritárias onde eleitores teriam preferências mais sólidas e onde a concentração eleitoral é, por definição, uma estratégia frágil.
O levantamento analisou 5.034 locais de votação no Estado. Desses, 2.030 foram identificados como estando em áreas sob influência de milícia ou facções criminosas.
O Valor questionou Flávio, Ruas, Canella e Rueda sobre os resultados da pesquisa, mas ainda não teve retorno.
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