“Bloquinho do 22”: idealizado pelo deputado reeleito Nikolas Ferreira, movimento fez frente às manifestações de rua realizadas pela esquerda no 2º turno Charles Vieira/Divulgação
Com uma base partidária ampliada, a adesão de adversários derrotados no primeiro turno e ligeira vantagem numérica nas pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro (PL) chega à reta final da disputa pelo Palácio do Planalto em condições relativamente mais favoráveis do que as enfrentadas na etapa anterior.
Seu desafio agora é evitar maiores desgastes até domingo (25), converter a vantagem conquistada em votos suficientes para derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, como tem repetido, subir a rampa presidencial ao lado do pai, Jair Bolsonaro. O contexto é diferente do primeiro turno, quando o cenário era de isolamento partidário do PL.
Flávio terminou o primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos, o que lançou a campanha bolsonarista em uma espécie de êxtase, alimentado pela adesão em massa de partidos políticos e sinalizações de apoio nos dias que sucederam a eleição. Integrantes da campanha evitaram transparecer estarem de “salto alto” publicamente, mas, nos bastidores, o clima era de “já ganhou”, inclusive com a negociação de espaços em um futuro governo.
Em poucos dias, Flávio angariou apoio de partidos políticos do Centrão e da direita pousou para fotos ao lado de três presidenciáveis derrotados: Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante). Nesta reta final, porém, a reação da campanha de Lula, que se reorganizou nas ruas e nas redes, manteve o cenário indefinido.
O petista também deixou Flávio na defensiva nas discussões sobre corrupção, ao constrangê-lo a apresentar seu sigilo bancário e telefônico. Além disso, se no primeiro turno ele teve que dar explicações sobre o seu envolvimento com o ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro, a quem pediu dinheiro para supostamente financiar um filme sobre a vida do pai, nas últimas semanas outro personagem passou a assombrar a campanha do filho de Bolsonaro: o advogado Willer Tomaz.
A Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para apurar indícios de lavagem de dinheiro praticada pela dupla, o que os dois, que se declaram amigos, negam. Com um curto período para a realização de agendas públicas, os aliados de Flávio foram peças importantes nesta segunda etapa da campanha.
Após se reeleger para o governo de São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) emprestou o seu capital político a Flávio e viajou a Estados estratégicos. Também ajudou a costurar alianças com diferentes partidos.
Aliados do candidato foram fundamentais na segunda etapa da campanha Outro aliado fundamental foi o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), reeleito com o maior número de votos no país.
O parlamentar utilizou a sua influência nas redes sociais para mobilizar uma série de atos com eleitores pelo país, em eventos conhecidos como “bloquinho do 22”. O movimento fez frente às manifestações de rua realizadas pela esquerda ao redor do país, que deram fôlego à campanha de Lula.
Coube a Nikolas puxar o seu “bloquinho” e reunir cerca de 72 mil pessoas na Avenida Paulista. Ele também foi importante no ambiente digital, para se contrapor ao canal “Exército de Lula” criado no WhatsApp e liderado pelo deputado André Janones (Rede-MG).
Já os planos de Michelle Bolsonaro participar mais ativamente da campanha do enteado foram frustrados. A ex-primeira-dama e senadora eleita pelo PL do Distrito Federal teve uma passagem discreta nos dois turnos, mas desta vez pelo menos não houve brigas públicas entre os dois.
Reduzir a desvantagem no Nordeste também foi um dos eixos da campanha, com foco na Bahia, Paraíba, Ceará e Pernambuco. No primeiro turno, apesar de ter superado o petista no resultado nacional, o senador não venceu em nenhum dos nove Estados da região.
Em um dos principais eixos temáticos da campanha, a economia entrou em modo “vai não vai” no segundo turno. Flávio passou a enfrentar maior cobrança para explicar como faria o ajuste fiscal prometido ao mercado por seus emissários, de cerca de R$ 200 bilhões, ou 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto mantinha em aberto quem comandaria a Fazenda em um eventual governo.
O “tesouraço” prometido foi explorado pela campanha de Lula, que reajustou o Bolsa Família ainda no primeiro turno, e passou a disseminar, sem evidências concretas, que o adversário iria cortar benefícios sociais. A ex-presidente da Caixa Daniella Marques continuou como porta-voz da equipe econômica, mas a campanha sinaliza que ela deve assumir uma pasta da área social.
Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia e homem de confiança de Jair Bolsonaro, permaneceu cotado para a Fazenda. Também foram ventilados os nomes de Marcelo Kayath, ex-presidente do Credit Suisse no Brasil, do economista-chefe no BTG Pactual, Mansueto Almeida, e do ex-presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto.
“Não vai ter surpresa. Vai ser uma pessoa tranquila e conhecida”, limitou-se a dizer uma fonte da campanha, diante da pressão para que o eventual ministro da Economia fosse revelado.
A indefinição sobre o comando se somou às dúvidas sobre o próprio ajuste. Os membros da equipe citam venda de ativos, negociação da dívida ativa e ganhos de eficiência na máquina pública como caminhos, medidas consideradas insuficientes por economistas.
Ao mesmo tempo, Flávio descarta mexer em algumas despesas maiores, como os benefícios previdenciários, além de prometer preservar os pisos de saúde e educação. Na reta final, o candidato do PL também fez novas promessas em uma disputa com a agenda de Lula e na contramão da cobrança por clareza sobre o ajuste fiscal.
Propôs, por exemplo, ampliar para dois anos a transição do Bolsa Família para quem conseguisse emprego ou abrisse uma empresa. Em outra frente, disse que quer retomar o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) e criar um programa para devolver aos consumidores parte do dinheiro pago via Pix em contas de luz, taxas e prestações.
Outro personagem ganhou espaço no comitê bolsonarista, levando Flávio a uma mudança mais agressiva de Flávio em relação a Lula e ao PT: o influenciador Pablo Marçal, que tornou-se inelegível devido a irregularidades praticadas quando se candidatou à Prefeitura de São Paulo, nas eleições de 2024.
A estratégia, entretanto, não trouxe o impacto esperado e irritou eleitores com o baixo nível propositivo do debate. Dessa parceria com Marçal, Flávio passou a adotar o discurso de que criaria o “Ministério da Prosperidade”, prometendo capacitação e a oferta de empregos para os eleitores, uma proposta que mescla a pegada de “coach” com o segmento evangélico.
O candidato do PL tirou os últimos dias para se preparar para o debate da TV Globo, nesta sexta-feira (22). Também pediu para auxiliares evitarem novas declarações públicas, com receio de que algo possa repercutir negativamente.
Em uma eleição em que cada voto importa, qualquer deslize pode ajudar Lula a chegar na frente no domingo.
Valor